Cães da raça chihuahua são parte coiotes, e talvez por isso sejam "pequenos, mas bravos"
Descoberta destaca a incrível diversidade entre as raças de cães e a força da seleção artificial feita pelos humanos
Uma pesquisa genética recente revelou que a raça chihuahua carrega traços de DNA de coiotes selvagens, o que pode justificar seu temperamento corajoso e territorial. Originários do México, esses cães preservam parte da ascendência pré-colombiana que se cruzou com raças europeias. O tamanho reduzido, mantido apesar dos genes selvagens, decorre da reprodução seletiva humana aliada a uma mutação genética antiga, ilustrando a grande diversidade e complexidade evolutiva dos cães domésticos.
Uma das menores raças de cães, o chihuahua, tem parte de coiote selvagem em sua composição genética, mostra uma pesquisa publicada recentemente. Os chihuahuas são originários do México, mas hoje a raça é um dos cães de companhia populares em diversos países do mundo, como Reino Unido e EUA.
Os genes do coiote podem ter sido introduzidos acidentalmente nos ancestrais do chihuahua. Mas também podem ser resultado de tentativas deliberadas de cruzar os dois animais - talvez há muitas gerações.
Os coiotes são uma espécie canina selvagem, ligeiramente menor que o lobo cinzento, nativa da América do Norte. A presença de genes de coiote no chihuahua, muito menor, destaca a incrível diversidade dos cães domésticos e suas histórias variadas.
Os coiotes são selvagens e territoriais. E qualquer pessoa que já tenha convivido com um chihuahua sabe que estes pequenos animais podem ter grandes personalidades caninas.
Os chihuahuas são o arquétipo dos cães "pequenos, mas bravos": ousados, independentes, ágeis, mas também capazes de obediência. Eles não são aqueles cachorrinhos de colo pequenos e sedentários. E essas descobertas podem explicar, em parte, o motivo.
O estudo recente explorou marcas genéticas antigas nos genomas de cães e humanos para validar a eficácia de novas técnicas genéticas. O genoma é o conjunto completo de DNA nas células vivas.
Os pesquisadores demonstraram seus métodos em raças de cães com ligações com as Américas, como o chihuahua e outra raça mexicana, o xoloitzcuintli (frequentemente abreviado para xolo). O xolo é tipicamente caracterizado pela ausência de pelos e por uma personalidade frequentemente distante.
Muitos cães nas Américas hoje são descendentes de raças europeias, um resultado da colonização a partir do século XV. Mas pesquisas anteriores mostraram que o chihuahua e o xolo preservam uma pequena quantidade de ascendência - 4% no chihuahua e 3% no xolo - de cães pré-contato, aqueles que viviam nas Américas antes da chegada dos europeus.
A análise genética do xolo no estudo recente sugere que cães europeus e pré-colombianos estavam se misturando por volta de 1700. Isso está de acordo com evidências que sugerem que europeus e populações indígenas se misturaram por volta da mesma época no México antigo.
Os coiotes são uma espécie de canídeo altamente adaptável que vive em toda a América do Norte.Cami Johnson / ShutterstockReconstruindo as origens
Pesquisadores já haviam encontrado evidências da ascendência do coiote no DNA de restos mortais de antigos cães domésticos das Américas. Isso nos lembra que os cães não estão tão distantes de outras espécies de canídeos e podem cruzar com elas com sucesso.
Verificou-se que coiotes e lobos selvagens se hibridizam naturalmente, especialmente em áreas geográficas onde traços comportamentais "semelhantes aos do lobo" são benéficos. Houve até mesmo um relato recente de um híbrido de cão com raposa identificado no Brasil.
Ainda não está claro quando exatamente os genes do coiote entraram na linhagem do chihuahua. As histórias precisas das diferentes raças de cães são difíceis de reconstruir, pois muitas vezes faltam evidências documentais detalhadas.
As enormes diferenças no tamanho corporal entre as diferentes raças de cães são, em parte, resultado da seleção feita pelos humanos em busca de características desejadas.Natallia Yaumenenka / ShutterstockEntão, como o chihuahua acabou ficando tão pequeno, apesar desses genes de coiote? Essa questão deve ser vista sob a ótica da reprodução seletiva, na qual os humanos escolhem diferentes cães para reprodução com base nas características que preferem.
Análises genéticas revelam que quase todas as raças de cães pequenos compartilham uma mutação no gene do fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF1), que afeta o crescimento celular e, consequentemente, o tamanho corporal. A seleção de cães pequenos com essa mutação parece ter ocorrido bem no início da domesticação canina.
Há algumas evidências da presença de cães de porte pequeno entre as culturas mesoamericanas pré-contato, mas não se sabe como eles se relacionam com os chihuahuas.
Assim como o chihuahua, a raça xoloitzcuintli, sem pelos, preserva parte da herança ancestral dos antigos cães americanos.Creative_Bird / ShutterstockVariação extrema
Alguns cães, como o cão-lobo tchecoslovaco, parecem visivelmente mais com seus parentes canídeos selvagens e ancestrais, como o lobo cinzento. Eles têm orelhas eretas, corpos musculosos e atléticos e pelagem que proporciona camuflagem e proteção contra condições ambientais extremas.
Outros cães apresentam variações extremas: características exageradas, como costas longas ou pernas curtas. Em alguns casos, essas características físicas trazem consequências significativas para a saúde e o bem-estar dos animais.
O tamanho corporal geral é particularmente variável nos cães, com uma diferença de 40 vezes entre diferentes raças e tipos. Imagine o minúsculo chihuahua ao lado de um imponente grande danês, por exemplo.
Os chihuahuas são conhecidos por suas personalidades marcantes; não são cachorrinhos de colo sedentários.LennyH / ShutterstockExistem também diferenças importantes no comportamento. Se você deseja conviver harmoniosamente com um cão, ou treiná-lo ou utilizá-lo em uma atividade específica, é importante reconhecer isso. De fato, atender às necessidades físicas, psicológicas e emocionais de cada cão é essencial tanto para o bem-estar do animal quanto para o do ser humano, bem como para o sucesso do treinamento.
Assim como no caso da aparência, a seleção natural e a seleção induzida pelo ser humano se combinaram para influenciar essas características. Isso produziu gerações de cães com características comportamentais específicas.
O cão foi um dos primeiros animais a ser domesticado pelos humanos - os exemplos mais antigos têm mais de 15.000 anos. Eles também são uma das espécies domesticadas de maior sucesso.
Os coiotes tinham grande significado para algumas culturas indígenas americanas. A imagem mostra um pictograma tolteca de um coiote.Cvmontuy, CC BY-SAOs cães são encontrados em todos os continentes, exceto na Antártica, e estima-se que a população global de cães gire entre 700 milhões e 1 bilhão. Eles existem integrados à sociedade humana ou vivendo à margem dela.
Ao longo da história, deve ter ocorrido uma seleção natural de cães com características que conferem vantagens de sobrevivência. Ao mesmo tempo, os seres humanos selecionaram cães individuais com base em atributos desejados, levando ao desenvolvimento de raças e às classificações que vemos em todo o mundo.
Além de ampliar nossa capacidade de explorar a ancestralidade genética das espécies, o estudo mais recente acrescenta detalhes à nossa compreensão de como e quando o cão doméstico evoluiu e se tornou tão diverso.
Isso também pode significar que passemos a pensar menos no "lobo em nossas salas" e mais no "coiote em nossos chihuahuas".
Além de sua afiliação acadêmica à Nottingham Trent University (NTU) e do apoio do Instituto para a Prática de Intercâmbio de Conhecimento (IKEP) da NTU, Jacqueline Boyd é afiliada ao The Royal Kennel Club (Reino Unido) como associada, atuando como consultora do Grupo Consultivo de Saúde e membro do Comitê de Atividades. Jacqueline é membro titular da Associação de Treinadores de Cães de Estimação (APDT #01583). Ela também escreve, presta consultoria e atua como coach em assuntos caninos de forma independente.
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