Caça ilegal deixa rastros nas rodovias e acelera empobrecimento da fauna brasileira
O trabalho usa registros nacionais de apreensões rodoviárias federais para avaliar padrões da caça ilegal no Brasil, revelando perda de biodiversidade
A carne de animais silvestres ainda é consumida em diversas regiões do Brasil. Em alguns contextos, ela faz parte da cultura alimentar e da subsistência. Em outros, é associada à recreação, ao comércio ilegal ou ao consumo urbano. Mas o que sabemos, de fato, sobre a dimensão desse uso no país?
A caça é proibida no Brasil desde 1967, salvo exceções específicas previstas em lei. Ainda assim, o uso ilegal de carne silvestre segue amplamente disseminado. Por sua natureza clandestina, a caça raramente deixa registros sistemáticos. Pesquisas de campo enfrentam limitações logísticas, legais e de segurança para os pesquisadores. Dados oficiais nacionais praticamente não existem ou estão fragmentados.
Diante disso, partimos de uma pergunta central: é possível usar dados de apreensões policiais em rodovias para entender a magnitude e os padrões ecológicos da caça ilegal no Brasil?
Para responder a essa questão, analisamos sete anos de registros inéditos da Polícia Rodoviária Federal (PRF), entre 2017 e 2024, considerando exclusivamente casos envolvendo animais abatidos para consumo ou transporte de carne silvestre interceptados pela PRF em rodovias federais. Trata-se de uma metodologia inovadora, que revelou um cenário preocupante.
O que as apreensões mostram?
Ao longo de 314 eventos independentes de apreensão registrados em rodovias federais, foram apreendidos pelo menos 9.479 animais, totalizando cerca de 9,3 toneladas de biomassa. Esses números, por si só, já indicam que a caça ilegal não é episódica. Ela é estrutural.
Entretanto, a distribuição dos eventos não foi homogênea entre os biomas: a Amazônia concentrou o maior número de ocorrências: 116. Já a Caatinga apresentou o maior número de indivíduos apreendidos: foram 7.950 no total. O Pampa, por sua vez, teve apreensões de espécies abatidas com maior biomassa, como as capivaras.
Quanto ao número de espécies, ou seja, a riqueza da biodiversidade abatida/interceptada nos eventos de apreensão, identificamos 47 espécies entre os registros - um número expressivo considerando que estamos falando apenas de apreensões rodoviárias. A Amazônia apresentou a maior diversidade de espécies apreendidas (25 espécies), seguida pela Caatinga, com 20.
Sete espécies estão oficialmente classificadas como ameaçadas de extinção, incluindo: Anta (Tapirus terrestris), Queixada (Tayassu pecari), Tatu-canastra (Priodontes maximus), Mutum-de-penacho (Crax fasciolata) e Tracajá (Podocnemis unifilis).
Quem é mais caçado?
Os dados mostram padrões claros de seletividade. O principal alvo são os mamíferos, que representaram a maior parte de biomassa apreendida. Entre os mais visados estão a Paca (Cuniculus paca, com 70 espécimes); Capivara (Hydrochoerus hydrochaeris, com 48 espécimes) e as diferentes espécies de tatus (família Dasypodidae). Esses animais são tradicionalmente valorizados pelo sabor exótico e fonte proteica.
Na Caatinga e no Pampa, as aves dominaram numericamente as apreensões (7.754 e 566 aves encontradas, respectivamente). O exemplo mais marcante foi a avoante (Zenaida auriculata), com mais de mil indivíduos apreendidos. Isso sugere que, em regiões onde mamíferos maiores já foram intensamente explorados, a pressão pode estar se deslocando para espécies menores e de outros grupos taxonômicos.
Já na Amazônia e no Cerrado-Pantanal, répteis tiveram peso relevante, especialmente o tracajá, cuja captura registrou 210 espécimes abatidos.
A caça diminui a fauna ou a diminuição da fauna afeta a caça?
Os conjuntos de diferentes espécies que interagem entre si numa determinada região são chamados de comunidades animais. O processo de empobrecimento e perda dessas comunidades é conhecido como defaunação.
Uma das análises mais importantes do estudo foi testar se os dados das apreensões reproduzem padrões ecológicos já conhecidos sobre a defaunação. Os resultados indicaram que, à medida que aumentava o nível de defaunação nos estados brasileiros, aumentava o número médio de indivíduos por apreensão; diminuía a biomassa média apreendida por evento; reduzia o tamanho corporal médio dos animais caçados; diminuía a proporção de mamíferos, e aumentava a proporção de aves.
Em outras palavras: onde a fauna já está mais empobrecida, os caçadores capturam mais indivíduos, mas de menor porte.
Esse padrão, já documentado em estudos independentes baseados em redes sociais e pesquisas locais, apareceu de forma consistente também nas apreensões rodoviárias. E isso é fundamental: significa que os dados de apreensão pela PRF de animais silvestres abatidos - apesar de suas limitações devido à dimensão continental do Brasil - capturam sinais ecológicos crônicos.
A importância e os limites das apreensões
Este é o primeiro trabalho a usar, em escala nacional, registros sistemáticos de apreensões rodoviárias federais para avaliar padrões ecológicos da caça ilegal no Brasil. Até hoje, a maior parte dos estudos focava em mercados locais, comunidades específicas ou monitoramento on-line.
Ao analisar dados da PRF, mostramos que registros administrativos podem funcionar como um "termômetro" da caça ilegal. Mesmo sendo uma amostra parcial e, possivelmente, ainda subestimada, ela reflete tendências consistentes de diminuição da biodiversidade, seja em biomassa ou diversidade de espécies.
As 9,3 toneladas apreendidas em sete anos estão muito abaixo das estimativas independentes de consumo ilegal no país. Apenas na Amazônia central, um estudo apontou que milhares de toneladas são consumidas anualmente (no entanto, quando assistidas e manejadas por comunidades tradicionais, o cenário é outro e deve ser levado em consideração).
Isso significa que as apreensões representam apenas uma fração do cenário potencial real em escala nacional. Existem limitações claras, mas que podem ser complementadas com fiscalização contínua em rodovias federais, sobretudo rodovias cujas apreensões de animais silvestres abatidos é recorrente.
Também é necessário estabelecer o monitoramento sistemático em rotas fluviais; suprir a cobertura desigual entre regiões do país (o Pantanal, por exemplo, foi o bioma com a menor quantidade de apreensões registradas no estudo); e incrementar os recursos humanos e logísticos da fiscalização.
Apesar de representarem apenas uma fração dos números reais, os dados são valiosos, uma vez que permitem identificar hotspots de caça, detectar espécies mais pressionadas, apontar limitações nas próprias apreensões e fornecer subsídios potenciais para melhoria do sistema federal de monitoramento, fortalecendo-se como ferramenta para políticas públicas baseadas em evidências.
A caça ilegal no Brasil não é um fenômeno homogêneo. Ela envolve práticas culturais, subsistência, recreação, comércio e, em alguns casos, crime organizado. Além disso, o consumo de carne silvestre tem dimensões de segurança alimentar e saúde pública, especialmente em regiões amazônicas. Portanto, estratégias eficazes precisam combinar uma série de fatores, desde fiscalização qualificada a parcerias com comunidades locais. Sem construir alianças, a repressão isolada tende a ser insuficiente - ou até contraproducente.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.