Quem é Cleitinho Azevedo, governador de Minas Gerais eleito em primeiro turno
O candidato do Republicanos venceu Patrus Ananias (PT) no primeiro turno, após liderar as pesquisas de intenção de voto ao longo da campanha
Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito governador de Minas Gerais no primeiro turno em 2026. Ex-comerciante e músico, ele consolidou uma rápida ascensão política impulsionada por forte presença nas redes sociais e um perfil outsider pragmático. Apesar do expressivo apoio popular, seu futuro mandato gera ceticismo entre analistas políticos, que apontam a falta de experiência administrativa, a ausência de propostas concretas e indefinições sobre sua equipe de governo.
Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito neste domingo, 4, governador de Minas Gerais no primeiro turno das eleições 2026. Nascido em Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas Gerais, Cleitinho estudou até o ensino fundamental. Antes de entrar para a política, era comerciante no sacolão de verduras da família e músico em uma banda de pagode.
Cleitinho disputou sua primeira eleição e foi eleito vereador de Divinópolis, em 2016, com 3 mil votos, sendo o terceiro parlamentar mais votado daquele pleito no município. Segundo a biografia da Câmara Municipal, a ideia de disputar uma eleição surgiu após o irmão gêmeo, Gleidson Azevedo, perceber a popularidade que Cleitinho tinha com vídeos publicados para divulgar suas músicas.
Em 2018, na metade do mandato, foi eleito deputado estadual, com o apoio de 115 mil eleitores. Já em 2022, concorreu ao Senado e obteve 4,2 milhões de votos, o que lhe garantiu o melhor desempenho entre os senadores eleitos em Minas naquele mesmo ano. Seu mandato no Senado vai até 2031, mas, como foi eleito [para outro cargo], terá que renunciar à cadeira.
As pesquisas de intenção de voto já indicavam o favoritismo do candidato republicano ao governo de Minas desde o ano passado. Nos bastidores, o sucesso do parlamentar é associado à transformação da comunicação política. Cleitinho está entre os políticos com maior número de seguidores nas redes sociais. Só no Instagram, ele conta com mais de 4,5 milhões de seguidores.
As campanhas eleitorais de Cleitinho, tanto para deputado estadual quanto para o Senado, foram feitas, inclusive, por meio da internet e da divulgação de vídeos e áudios nas redes sociais.
Além disso, no campo da ciência política, ele é visto como um típico "outsider", figura que disputa eleições ou chega ao poder à margem do sistema político tradicional, sem compromissos ou fidelidades ideológicas rígidas.
Essa condição lhe dá liberdade para aderir pragmaticamente a pautas de forte apelo popular, como a defesa da escala 6x1, mais associada à esquerda. Em discursos no Senado, ele já alegou que determinados projetos não devem ser divididos entre esquerda e direita.
Vai e vem
A candidatura de Cleitinho foi marcada de reviravoltas. Em abril deste ano, fazendo referência ao Dia da Mentira, o senador pediu que os apoiadores não acreditassem que ele havia desistido da pré-candidatura ao Palácio Tiradentes.
Em maio, ele declarou apoio à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, sem confirmar se seria candidato ao governo de Minas ou se apoiaria outro nome.
Em julho, a indefinição esbarrou em um luto familiar. Em 18 de julho, Mateus Azevedo, irmão mais novo do senador, morreu aos 30 anos por complicações de uma leucemia.
No dia 25 daquele mês, durante a convenção estadual do Republicanos, Cleitinho não compareceu ao evento, o que aumentou os rumores de que disputaria o Palácio Tiradentes. Quatro dias depois, a legenda divulgou uma nota criticando a hesitação do senador e negando a candidatura a ele.
Ele reagiu e manteve a pré-candidatura. Em 3 de agosto, voltou atrás e anunciou a desistência. Mas, no dia 7, mudou novamente de posição e confirmou que seria candidato.
A demora da definição da candidatura teve reflexos na articulação do campo da direita em Minas. Cleitinho era a primeira opção do PL para liderar a chapa de oposição a Lula no estado, mas, diante dos impasses do senador, o partido decidiu lançar Flávio Roscoe, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).
Cenário de incertezas
Com a vitória, cientistas políticos ouvidos pelo Estadão afirmam que a futura gestão do republicano ainda é uma incógnita. Segundo os especialistas, além de Cleitinho não ter apresentado "propostas concretas", ele não tem experiência administrativa. Com isso, o estado, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, está diante de um cenário ainda imprevisível.
Lucas Gelape, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que a ausência de um plano de governo estruturado do senador já era uma questão para parte do eleitorado. "Ninguém consegue extrair essa resposta do Cleitinho, que é justamente, ninguém sabe como ele irá governar", disse.
Ainda de acordo com o cientista político, outra questão que levanta incertezas é a composição da equipe e o suporte político na gestão do republicano. Durante a campanha, Cleitinho enfrentou contestações de candidatos do próprio campo da direita, como o governador Mateus Simões (PSD) e Flávio Roscoe (PL), em relação aos seus aliados.
No debate da TV Globo, na última quarta-feira, 30, Simões questionou a relação do senador com o deputado federal e presidente do Republicanos em Minas, Euclydes Petterson, que foi alvo de investigações e indiciamentos. O governador mineiro ainda citou o suplente de Cleitinho ao Senado, o empresário Alex Diniz (PL), mencionando acusações de sonegação fiscal.
"Quem vai governar com ele é uma outra grande pergunta. Quando Cleitinho era questionado sobre seus aliados, ele sempre respondia que o 'meu CPF é o meu e o CPF deles é deles'. Porém, temos que lembrar que você não governa um estado somente com o seu CPF. Então, o que ele irá fazer com isso, ninguém sabe", afirma Gelape.
O cientista político Carlos Ranulfo também aponta dificuldades para projetar a gestão do republicano e classifica o governo como "um tiro no escuro com grandes possibilidades de dar errado". "É um governo com possibilidade de ser muito ruim, atrapalhado e uma confusão danada. Não há uma indicação correta sobre como será. O Cleitinho não falou absolutamente nada em relação a propostas. Minas já está numa situação complicada. Uma crise enorme e aí ganha a eleição uma pessoa que passou a campanha sem falar nada", comenta.
Ranulfo ainda atribui a ascensão do candidato às dinâmicas da política digital. "É a democracia dos tempos de hoje, onde a a rede social é o que conta. Se a pessoa bomba nas redes, ela pode ser governador, presidente e o que for após disso. O país ou estado que se vire", afirma.
Segundo o cientista político, a fragilidade pragmática de Cleitinho também foi evideciada durante os debates. No último realizado pela TV Globo, Ranulfo relembra que, ao ser questionado por Flávio Roscoe (PL) sobre como cortaria impostos sem comprometer a arrecadação do estado, Cleitinho demonstrou falta de articulação técnica. "Ele veio com uma conversa esfarrapada de que vai tirar subsídio. Mas tirar de onde? Como? Ele não tem proposta para nada", aponta o especialista.
Legitimidade do povo
Apesar do ceticismo quanto ao programa de governo, a vitória já no primeiro turno divide os analistas sobre o impacto do resultado na autonomia do futuro governante. Para Gelape, a definição da disputa sem um segundo turno confere ao vencedor um peso político diferenciado. "Isso oferece para ele um mandato, não no termo jurídico da palavra, uma legitimidade popular muito grande para ele governar um pouco da forma que achar melhor", disse.
Gelape avalia que, caso houvesse uma segunda etapa, o senador seria, em alguma medida, pressionado a negociar com outros grupos políticos e, principalmente, com os eleitores de candidatos como Simões e Flávio Roscoe. A vitória em primeiro turno, na avaliação do cientista político, reduz essa necessidade de composição. "O Cleitinho pode pensar que não precisou dos demais para ser eleito, e para governar também não vai", afirma.
Por outro lado, Ranulfo discorda da tese de que a eleição em turno único conceda maior autoridade ou respaldo especial para a gestão. "Eu acho que isso aí não faz tanta diferença ser eleito no primeiro ou no segundo. O mandato ganha legitimidade na medida em que a pessoa governa", contesta o cientista político.
Para fundamentar sua visão, o cientista político lembra precedentes de eleições definidas logo na primeira etapa que não resultaram em estabilidade ou sucesso automático, como o caso de Romeu Zema, eleito no primeiro turno para o governo de Minas em 2022. "Agora ele [Zema] nem tem voto na eleição à Presidência, nem o Simões. Ninguém tem voto, e é um vexame completo. Então, o Cleitinho ser eleito no primeiro turno não quer dizer muita coisa. No máximo, que ele terá mais tempo para pensar no que vai fazer", pontua.
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