Preso, primo de Vorcaro já fugiu em carrinho de golfe minutos antes da chegada da PF em operação
Felipe Cançado Vorcaro foi apontado pela investigação como integrante do núcleo que fazia pagamentos ao senador Ciro Nogueira
Preso na quinta fase da Operação Compliance Zero, Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, foi apontado pela investigação como integrante do núcleo comandado pelo banqueiro para fazer os pagamentos ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).
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Antes de ser detido na quinta-feira, 7, Felipe já tinha sido alvo de um mandado de busca na segunda fase da Operação Compliance Zero, em janeiro de 2026, mas fugiu poucos minutos antes em um carrinho de golfe, segundo a Polícia Federal (PF). Naquele dia, ele estava em uma casa de um condomínio em Trancoso, na Bahia.
"O cenário encontrado — quarto aberto, ar-condicionado em funcionamento, roupas de cama desarrumadas e pertences pessoais deixados para trás — evidencia abandono abrupto do imóvel, sem qualquer indicativo de planejamento prévio regular", descreveu a PF sobre a fuga de Felipe.
"Contudo, paralelamente, verificou-se a ausência completa de dispositivos eletrônicos pessoais, notadamente aparelhos de telefonia e computadores, o que demonstra que a evasão foi acompanhada de retirada seletiva de objetos diretamente relacionados à investigação", acrescentou.
Ao verificar as imagens das câmeras de segurança do local, no dia 14 de janeiro de 2026, data da deflagração da operação policial, às 5h13 uma pessoa que se parecia com Felipe aparece na área do deck da piscina. Dois minutos depois, um outro indivíduo chega e os dois ficam no local, ora caminhando, ora sentados.
Após conferir o celular 8 vezes, Felipe pega o aparelho da mesa às 5h38 e mostra para a outra pessoa. Os dois se levantam às 5h39 e passam a caminhar para fora do deck. Nas imagens também é possível ver um carrinho de golfe estacionado, e os dois embarcam e fogem. Pouco tempo depois, às 5h59, a equipe da PF chega nos fundos do imóvel.
"Tais comportamentos denotam, em juízo perfunctório, o potencial acesso do investigado a informações privilegiadas, que o permitem se evadir de determinado local minutos antes da abordagem policial (segunda fase) e adotar providências buscando ocultar a relevância da sua real posição no esquema delitivo (primeira fase)", disse a PF, conforme a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou a operação policial e foi obtida pelo Terra.
Entenda o caso
A PF deflagrou a quinta fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes envolvendo o Banco Master, na manhã da quinta-feira, 7. O senador Ciro Nogueira foi alvo de um mandado de busca e apreensão. O primo de Daniel Vorcaro, Felipe Vorcaro, foi preso em Minas Gerais. A decisão judicial autorizou, ainda, o bloqueio de bens, de direitos e de valores no valor de R$ 18,85 milhões.
De acordo com a PF, o objetivo da ação é aprofundar investigações sobre um esquema de corrupção, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.
A PF aponta Ciro Nogueira como "destinatário central e como agente público que, em tese, instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados" de Daniel Vorcaro. A investigação cita ainda o recebimento frequente de vantagens como pagamentos mensais, compra de participação em empresa com desconto elevado, pagamento de despesas pessoais e uso de bens de alto valor. Há indícios de recebimento de dinheiro em espécie por parte do senador.
Felipe Vorcaro é indicado como integrante do núcleo financeiro operacional da organização criminosa. Felipe tinha a função de fazer a interligação entre decisões estratégicas do núcleo central e a execução material das movimentações financeiras e societárias.
A PF apontou elementos que vinculam diretamente o investigado à operacionalização da aquisição, feita por Ciro Nogueira, de participação societária estimada em aproximadamente R$ 13 milhões pelo valor de R$ 1 milhão, e pagamentos de "mesadas' de valores entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.
Para pagar as mesadas, era usada uma pessoa jurídica (PJ) vinculada ao nome "parceria BRGD/CNLF". As mensagens entre Daniel e Felipe detalham o funcionamento da chamada "parceria", na qual a empresa BRGD S.A. (da família Vorcaro) enviava recursos para a CNLF Empreendimentos (veículo patrimonial do senador).
Ciro também teve vantagens por meio de operações societárias fraudulentas. A empresa CNLF, administrada por seu irmão, Raimundo Neto, adquiriu 30% da Green Investimentos S.A. pelo valor de R$ 1 milhão.
Diante dos pagamentos milionários, a contrapartida era a instrumentalização do mandato de Ciro Nogueira no Senado. O caso envolve a emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apresentada pelo senador em agosto de 2024. A proposta tinha como objetivo aumentar o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$250 mil para R$1 milhão por depositante.
A investigação mostrou que o texto foi elaborado pela assessoria do Banco Master e entregue em um envelope na casa do senador. Após ser apresentado, Daniel Vorcaro se vangloriou sobre a proposta ter saído "exatamente como mandei". Enquanto isso, interlocutores do banco previam que a medida "sextuplicaria" os negócios da instituição.
O Terra busca contato com as defesas dos citados e aguarda retorno.


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