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Política

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Por que alguns jovens eleitores estão abandonando Lula

24 jun 2026 - 12h31
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Ricardo de Lima Filho, um tradutor de videogames de 34 anos, votou em candidatos presidenciais de ‌esquerda em todas as eleições de que se lembra, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022.

Este ano, porém, ele irá às urnas em outubro na esperança de eleger um presidente de direita.

"Eu vivi a maior parte da minha vida adulta sob governos petistas", disse ele. Mas com a economia estagnada, a segurança pública em declínio e escândalos de corrupção nas notícias, ele afirmou: "Eu não consegui perceber uma melhora que eu esperava".

Lula contava com os jovens eleitores, com idades entre 16 e 34 anos, para vencer a eleição de 2022 contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas, desta vez, as pesquisas mostram que o ex-líder sindical está enfrentando dificuldades.

De modo geral, Lula continua popular e está ampliando sua vantagem sobre os rivais. No ⁠entanto, uma pesquisa realizada em junho pela Quaest mostrou que os jovens adultos foram a única faixa etária em que a desaprovação do governo de Lula superou a aprovação.

RENOVANDO OS QUADROS

Os jovens brasileiros ‌estão entre os mais de direita de sua faixa etária na América Latina, com 38% se identificando como tal em uma pesquisa de 2024 realizada por uma fundação ligada ao Partido Social-Democrata da Alemanha. E uma pesquisa de dezembro realizada pela AtlasIntel mostrou que as gerações mais velhas tendem mais a se identificar como de esquerda ou de centro-esquerda.

A tendência conservadora é mais forte ‌entre os homens, que se mostraram dois pontos percentuais mais propensos a se identificar com a direita nessa pesquisa ‌e têm se inclinado para candidatos conservadores nas pesquisas presidenciais.

A ascensão do jovem conservador faz parte de uma tendência global, com paralelos na Europa, nos Estados Unidos e na ⁠Coreia do Sul, por exemplo.

Mas no Brasil, onde Lula e sua ex-ministra da Casa Civil Dilma Rousseff venceram cinco das últimas seis disputas presidenciais, essa mudança também reflete uma geração que atingiu a maioridade associando a esquerda a uma série de decepções econômicas ao longo dos últimos doze anos.

O pré-candidato à Presidência Renan Santos, de 42 anos do partido recém-fundado Missão, sigla ligada ao Movimento Brasil Livre (MBL), aproveitou essa frustração, conquistando apoio inicial de jovens eleitores insatisfeitos, embora se recuse a chamá-los de "conservadores".

"Eu acho que ele não é conservador. Ele é anti-esquerda, é diferente", disse ele em uma entrevista no estúdio em São Paulo onde grava suas publicações diárias nas redes sociais. "Porque a esquerda é o establishment."

"VERGONHA DE DIZER"

Em uma reunião realizada em maio, em outro canto da cidade, jovens ‌líderes do PT e de outros partidos progressistas se reuniram para uma reflexão sobre como haviam perdido terreno junto a tantos jovens eleitores.

Os participantes passaram por várias explicações, desde um possível viés das plataformas ‌de tecnologia até a linguagem combativa das redes sociais. Eles ⁠discutiram ideias de políticas públicas, como a redução da ⁠semana de trabalho ou como adaptar programas habitacionais às necessidades dos jovens para se conectarem com o espírito da época.

"Será que as pessoas têm vergonha hoje em dia de falar que são de esquerda?", ⁠perguntou um jovem ao grupo.

Analisando os dados das pesquisas da Quaest, o diretor da empresa, Felipe Nunes, disse à Reuters que ‌as pesquisas com jovens brasileiros não refletem, por si ‌só, uma ideologia mais conservadora. Por exemplo, eles apoiam amplamente a expansão de serviços públicos, como o acesso ampliado ao ensino superior.

No entanto, as pesquisas mostram uma frustração generalizada com a estagnação econômica ligada aos recentes governos de esquerda, que tiveram dificuldade em acompanhar as crescentes expectativas.

Embora o número de brasileiros com diploma universitário tenha quase dobrado na última década, segundo dados do governo, a renda dos graduados não cresceu como esperado.

A renda ajustada pela inflação dos graduados universitários ainda é menor do que em 2014. Eles ainda ganham ⁠mais do que aqueles com apenas ensino médio, mas a diferença diminuiu.

"Esse jovem foi pra universidade para ser doutor, para ganhar o diploma, estudou e tal, e quando ele voltou para o mercado de trabalho, ele não viu esse resultado econômico de fato", disse Nunes.

A busca por respostas levou muitos jovens eleitores a apoiar as plataformas mais voltadas para o mercado dos candidatos da direita e do centro do espectro político, acrescentou ele.

LIDERANDO A REGIÃO

Em uma manifestação realizada em abril na Avenida Paulista, em São Paulo, John Vitor Lima, estudante de jornalismo de 28 anos, e dezenas de seus colegas se reuniram para protestar contra o escândalo do Banco Master que colocou em risco ‌os fundos de previdência públicos.

A maioria dos manifestantes era composta por jovens que exigiam o fim da corrupção e penas mais severas para os criminosos.

A organização da manifestação ficou a cargo do Missão, liderado por Santos. Foi a segunda manifestação da qual Lima participou.

Santos propôs facilitar a prisão de suspeitos de pertencerem a gangues e vincular o uso de verbas federais ⁠destinadas aos partidos políticos ao desempenho de seus prefeitos.

"A nossa geração não está em pontos de poder", disse Lima, refletindo sobre o apelo do jovem candidato conservador. "O Renan é uma esperança no sentido de agora ter 40 anos de idade. Mas, no geral, as pessoas que estão em cargo de poder são pessoas mais velhas."

Em uma pesquisa realizada em maio pela AtlasIntel, Santos conquistou impressionantes 36% dos eleitores com idades entre 16 e 24 anos, superando tanto Lula quanto seu principal rival, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de sua popularidade entre alguns jovens eleitores, Santos ainda registra índices de intenção de voto de um dígito entre o eleitorado. Mesmo assim, sua campanha faz parte de um processo de renovação de anos entre os partidos de direita, que incluiu alguns dos mais jovens deputados federais em Brasília.

Os principais candidatos na disputa presidencial brasileira refletem a mesma dinâmica. Flávio Bolsonaro, que atrai o maior número de votos na direita, tem 45 anos. Lula, de 80 anos, é o presidente mais velho do Brasil.

No início deste ano, um representante do PT afirmou que o partido continuava buscando se aproximar dos jovens eleitores, envolvendo-os em questões como as mudanças climáticas — um tema que, segundo eles, afetará mais a juventude —, ao mesmo tempo em que lembrava aos eleitores o legado prejudicial de Jair Bolsonaro em relação ao meio ambiente.

Lula também demonstrou empatia com a frustração dos jovens, dizendo em abril que sabe que existe uma percepção de corrupção, mas exortou os jovens eleitores a participarem politicamente. "Quando vocês estiverem achando que ninguém presta... ainda assim não desistam da política, entrem na política".

Flávio Bolsonaro, por sua vez, vem postando vídeos incentivando os jovens a votar, fazendo um apelo em deles: "você faz tudo certo, e mesmo assim não sai do lugar".

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