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Política

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Lavareda nega 'revolução de direita', vê margem estreita e aponta 3 frentes para Lula vencer Flávio

Cientista político diz que resultado presidencial não mostra uma guinada ampla à direita, mas pequenos deslocamentos em relação a 2022; para virar no 2º turno, Lula precisa recuperar abstencionistas, disputar votos dos candidatos eliminados e avançar sobre eleitores de Flávio

6 out 2026 - 18h21
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Resumo
Para o cientista político Antonio Lavareda, a liderança de Flávio Bolsonaro sobre Lula no primeiro turno reflete abstenções e pequenos deslocamentos do eleitorado, e não uma "revolução de direita". A percepção negativa da economia prejudicou o governo, tornando Flávio favorito no segundo turno. Para reverter o cenário difícil, Lavareda aponta que Lula precisará resgatar eleitores que se abstiveram, atrair votos de candidatos eliminados e até conquistar apoiadores do adversário.

A dianteira de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno não representa, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma "revolução de direita" no voto presidencial. Para Lavareda, pequenos deslocamentos do eleitorado em relação a 2022 foram suficientes para produzir um resultado politicamente expressivo e colocar o senador à frente do presidente na disputa pelo Palácio do Planalto.

"Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso", diz.

Em entrevista ao Estadão, Lavareda afirma que a abstenção ajuda a explicar por que a vantagem de Lula registrada por pesquisas às vésperas da votação não apareceu nas urnas. Na avaliação dele, parte relevante dos eleitores que deixaram de votar estaria entre aqueles que declaravam preferência pelo petista. Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.

Para o segundo turno, Lavareda afirma que uma virada de Lula é possível, embora difícil, e exigiria movimentos em três frentes: recuperar parte dos eleitores que se abstiveram, disputar os votos das candidaturas eliminadas, em sua maioria, segundo ele, de perfil conservador, e avançar inclusive sobre quem escolheu Flávio no primeiro turno.

No Legislativo, Lavareda afirma que o avanço do PL no Senado decorreu da capacidade do partido de tornar mais claro para o eleitor o papel da Casa em meio à crise do Supremo Tribunal Federal. "O PL tornou inteligível o papel de um senador. Que papel era esse, de imediato? Era fazer uma limpeza no Supremo, 'impeachar' ministros do Supremo", diz.

Leia os principais trechos:

O resultado da eleição presidencial pegou o senhor de surpresa? Como avalia o que aconteceu no primeiro turno?

O que me surpreendeu menos foi o voto presidencial. Eu já imaginava e já tinha comentado dois, três, quatro dias antes da eleição, que não me surpreenderia. Eu dizia que a chance de Lula vir em primeiro lugar era de 60%, mas havia 40% de chance de Flávio aparecer em primeiro lugar.

Por quê? Porque a distância era muito estreita e a abstenção, supunha, iria comer parcela bastante razoável, substancial, dos votos do presidente Lula, tal como havia ocorrido em 2022.

Pois bem, é o que nós tivemos nas urnas. É exatamente isso que explica por que o resultado das pesquisas não foi confirmado. Foi, mais uma vez, a abstenção, que é muito difícil de detectar nas pesquisas, porque o voto é obrigatório e a declaração de que as pessoas vão se abster é socialmente ilegítima. Então, isso não me surpreendeu.

Já é possível identificar os principais erros de Lula para não conseguir impor a vantagem que geralmente um candidato à reeleição tem?

Olha, há erros da campanha, mas erros do governo. O incumbente, quando perde a eleição, dificilmente é apenas por conta da comunicação da campanha. A comunicação do governo é mais importante até do que a comunicação da campanha, no caso do incumbente.

Minha experiência diz que o governo Lula deixou passar, desde 2024, incólume a percepção da maioria da opinião pública de que a economia do País seguia no rumo errado. Várias pesquisas detectaram isso. O governo Lula não enfrentou essa questão, não desenvolveu uma narrativa cogente, para dar conta dessa questão. Quando chega a campanha eleitoral, uma parte importante da população que via o País indo na direção errada e, como tal, reclamando por mudança, foi atraída com relativa facilidade pelo discurso de mudança, de transformação, do candidato oposicionista.

Ainda assim, a diferença de Lula 2026 para Lula 2022 foi reduzida. Aqueles que interpretam que houve uma grande revolução de direita podem usar outros parâmetros, mas o voto presidencial não mostra isso. Flávio teve apenas 2,7 pontos sobre o eleitorado total a mais que seu pai quatro anos atrás, e Lula declinou 2,66 pontos em relação à votação que teve quatro anos atrás. Ou seja, são pequenas quantidades, mas que têm efeitos políticos notáveis, como vimos ontem.

E esse resultado afasta bastante o presidente Lula da condição de favorito para o segundo turno de 2026. Essa campanha do segundo turno começa com o franco favorito, que é o senador Flávio Bolsonaro.

Mas os indicadores econômicos não são tão ruins a ponto de representar, por si só, uma fraqueza do governo. O problema estaria mais na percepção sobre a economia?

A literatura diz que o que preocupa mais o eleitor, o que influencia mais seu voto, é a percepção sobre o rumo do País. Ou seja, esse eleitor sociotrópico. E como é que ele formula a sua convicção sobre o rumo do País? A maior parte do eleitorado é de baixa renda, baixa escolaridade. Pelo que ele ouve no noticiário etc. Então, "o País está endividado", "nunca o Brasil esteve tão endividado", "nunca as pessoas estiveram tão endividadas" etc.

Ou seja, o noticiário, que é frequentemente, predominantemente negativo sobre a economia do País, acaba impregnando a avaliação de cada um desses indivíduos. É interessante notar uma discrepância que as pesquisas apontam entre a avaliação da situação financeira e familiar dos indivíduos e a avaliação que eles fazem do nacional, do caminho do País.

No caso pessoal, embora seja verdade que as pessoas estão machucadas pelos juros, pelo baixo poder aquisitivo, pelo endividamento, a percepção da sua própria condição de vida é bem melhor, bem superior à percepção sobre a situação do País. O governo não fez, não discutiu essa narrativa.

O senhor disse que a diferença foi pequena, mas, historicamente, é difícil um candidato a presidente que sai atrás no primeiro turno virar a eleição. É possível Lula conseguir essa virada? O que ele precisa fazer nas três semanas de campanha?

Um candidato, um incumbente como Lula, que sai em segunda colocação, tem que cumprir algumas tarefas. Tem que tentar recobrar um pouco o voto, a participação de eleitores dele que se abstiveram no primeiro turno. Sem sombra de dúvidas, é absolutamente legítimo supormos que a maior parte, a parte predominante dessa abstenção, é de eleitores de Lula.

Lula, então, precisa resgatar parte desses eleitores. Precisa disputar o voto daquele contingente que apoiou outros candidatos. É muito difícil ele conseguir uma maioria, porque, obviamente, eram candidatos conservadores e, como tal, seus eleitores, na maior parte dos casos, também são conservadores.

E, terceiro, ele precisa mais. Ele precisa até conquistar votos do próprio Flávio Bolsonaro. É possível isso? Pode parecer impossível. Mas Lula conseguiu fazer isso em 2006. Em 2006, no segundo turno, Geraldo Alckmin teve 2,5% dos votos válidos a menos no segundo turno. Então, são três tarefas e é a esse esforço que a campanha deve se endereçar. As chances não são as maiores, mas, de fato, também não se pode dizer que não existam.

E, olhando para o Legislativo, como o senhor interpreta o avanço do PL no Senado e na Câmara?

A votação maciça do PL para o Senado, que aliás já estava mais ou menos estampada em algumas pesquisas, não com aquela intensidade, se deu por um alinhamento entre o voto nacional e o voto local, o voto do Senado. O PL entregou ao eleitor uma compreensão sobre o papel do Senado.

As pesquisas qualitativas e quantitativas mostram que os eleitores não sabem exatamente discernir o que fazem os deputados federais e o que fazem os senadores. O PL tornou inteligível o papel de um senador. Que papel era esse, de imediato? Era fazer uma limpeza no Supremo, "impeachar" ministros do Supremo.

Então, a partir dos escândalos recentes envolvendo o nome do Supremo, essa onda levou à votação maciça de candidatos bolsonaristas para o Senado.

Estadão
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