Há 365 dias na cadeia, Bruno joga futebol e lê cartas de fãs
- Ney Rubens
- Direto de Belo Horizonte
No dia 7 de julho do ano passado, o goleiro Bruno de Souza e seu melhor amigo na época, Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, se entregaram na delegacia da Polinter, no Rio de Janeiro. Com a cabeça em pé e o olhar fixo, Bruno foi fotografado como quem parecia estar convicto que sairia rapidamente pela mesma porta. Enganou-se. Um ano depois, exatamente às 7h30 desta quinta-feira, o jogador e o fiel companheiro foram acordados pela sirene da Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.
Ao abrir os olhos, Bruno provavelmente recordou do dia em que a juíza do Tribunal do Júri de Contagem, Marixa Fabiane Rodrigues Lopes, perguntou se ele pretendia falar a verdade durante uma audiência no dia 11 de novembro do ano passado: "(Ércio) Quaresma (antigo advogado) disse que o senhor ficaria preso uma semana. Depois, o Quaresma disse que nenhum cliente dele ficaria preso mais que 100 dias. O senhor está preso há mais de 120 dias." Bruno respondeu que sim e negou a participação dele e dos amigos na morte da ex-amante Eliza Samudio.
Mas a resposta não convenceu a magistrada e os desembargadores do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que mantiveram Bruno e outros três suspeitos presos. Eles voltaram à rotina na cadeia e ela é árdua. Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social, o goleiro é obrigado a ficar na cela durante quase todo o dia, exceto durante o banho de sol e, eventualmente, para atendimento com os técnicos da unidade (psicólogo, assistente social, médico).
Bruno segue a mesma rotina dos demais presos. Por volta das 7h30, depois de ser desperto pela sirene, toma café da manhã. Come pão com manteiga acompanhado de café com leite. Às 12h o atleta almoça, por volta das 15h toma café da tarde e, aproximadamente às 18h, tem o jantar. O lanche da tarde é pão com manteiga e suco. O cardápio do almoço e jantar é variado, mas leva arroz, feijão, salada, uma carne e a sobremesa (gelatina, tablete de doce ou fruta).
Bruno pode receber visitas todos os finais de semana, alternando entre sábado e domingo. O horário é das 8h às 17h, mas a entrada é permitida somente até as 14h. O limite é de dois adultos por final de semana. Normalmente o goleiro recebe visitas da noiva, a dentista Ingrid Calheiros, 25 anos, e da avó Estela Santana Trigueiro de Souza, 79 anos, que foi quem o criou. A secretaria informou que as duas filhas que o jogador tem com a ex-mulher, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, tiveram autorização para vê-lo durante uma visita assistida no dia 5 de maio.
No Complexo Penitenciário Nelson Hungria, as visitas íntimas podem acontecer uma vez por mês, benefício usufruído por Bruno em companhia da noiva, que se desloca do Rio de Janeiro a Contagem para ficar durante dois dias na cela com o atleta. O primeiro encontro íntimo do casal aconteceu em 16 de outubro do ano passado. De acordo com a Secretaria de Defesa Social, Ingrid chegou ao presídio às 8h do sábado e teve permissão para ficar até as 17h do domingo. Ela ficou em uma cela isolada com Bruno, em um pavilhão provisório. Foi colocada uma cortina de tecido na grade da cela, para que eles ficassem à vontade.
Antes juntos, Bruno e Macarrão estão em celas individuais desde o dia 5 de abril devido a uma determinação da Vara de Execuções Criminais de Contagem. O local que cada um ocupa tem 6 m² e contém uma cama de alvenaria, banheiro com chuveiro, pia e vaso sanitário. Eles utilizam um kit que tem cobertor, colchão, uniforme e material de higiene pessoal. Na cela do goleiro Bruno há, ainda, uma televisão de 14 polegadas e um rádio, o que é de direito de todos os presos e que foram levados para ele por seus familiares. Além disso, para passar o tempo, ele pode ler as dezenas de cartas de fãs e mulheres que chegam todos os dias no presídio.
Bruno tem autorização judicial para jogar futebol utilizando bola, caneleira e meião durante o banho de sol, que dura em média duas horas. Os companheiros e adversários são os colegas de pavilhão e as partidas são disputadas no próprio pátio da unidade.
Macarrão
Se a vida de Bruno na cadeia é privada de regalias, como ele mesmo fez questão de destacar na audiência que participou na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a de Macarrão é pior, segundo seu advogado.
Wasley César Vasconcelos disse que o cliente está no Pavilhão 5, onde estão os detentos que praticaram crimes sexuais. A transferência, segundo Vasconcelos, se deu na troca da direção do presídio, "que mudou o Macarrão de pavilhão sem comunicar. Quando eu procurei saber, eles falaram que era para por ordem judicial, mas eu pesquisei e vi que não era. Estou tentando a transferência dele de pavilhão, já que a lei penal proíbe que se misture presos com crimes diferentes, mas ainda não obtive resposta da Defesa Social", afirmou.
De acordo com o advogado, Macarrão teria sido ameaçado por alguns detentos que queriam obrigá-lo a assumir sozinho a morte de Eliza Samudio, livrando Bruno das acusações: "Essa pressão aconteceu por poucos dias. Os presos já entenderam o lado dele. Ele explicou que nem ele nem o Bruno cometeram o crime e não tinha motivo nenhum para ele confessar. Agora está tudo certo." De acordo com o advogado, o melhor amigo de Bruno recebe visitas duas vezes por semana. "Atualmente só está recebendo visita da avó, da esposa e da filha", concluiu.
O caso Bruno
Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.
No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.
Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.
No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.
No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.
No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio e Bola serão levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.