Cardozo: é cedo para dizer que morte de Santiago foi crime contra a imprensa
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse nesta terça-feira que ainda é cedo para afirmar que a morte do cinegrafista da TV Bandeirantes Santiago Andrade pode ser considerada um crime contra a imprensa e contra a liberdade de expressão. Segundo ele, também é cedo para avaliar se o episódio é resultado da hostilidade contra veículos de comunicação demonstrada por alguns participantes das manifestações que vêm ocorrendo no País.
"Não dá para termos nenhuma conclusão definitiva enquanto o inquérito não estiver concluído e enquanto não tivermos subsídios para uma análise mais rigorosa do que aconteceu", disse o ministro logo após se reunir com integrantes de entidades que representam empresas jornalísticas e cobram do governo federal medidas mais rigorosas para conter a violência contra profissionais da imprensa durante as manifestações.
"Não posso, sem ter o resultado da apuração dos fatos, saber se este foi um ato individual ou coletivo. Não gosto de prejulgar. Tudo vai ser apurado. E as imagens (do momento em que o cinegrafista é atingido pelo rojão) são apenas um dos componentes que devem ser apreciados na investigação", explicou Cardozo, ao ser perguntado se o rojão que atingiu Santiago não poderia ter atingido e matado outra pessoa.
O cinegrafista da Bandeirantes foi atingido na cabeça por um rojão, enquanto filmava um protesto contra o aumento das passagens de ônibus quinta-feira, no centro do Rio de Janeiro, e morreu ontem em virtude dos ferimentos. A polícia já identificou os dois manifestantes envolvidos no disparo do artefato explosivo. Um deles é o tatuador Fábio Raposo, que após se entregar à polícia, confessou ter repassado o explosivo ao suspeito de acender e lançar o rojão. Este foi identificado pela polícia como sendo Caio Silva de Souza e ainda está sendo procurado.
As imagens registradas por vários veículos de comunicação no dia do protesto mostram Santiago trabalhando sozinho, sem qualquer equipamento de proteção, em meio ao tumulto gerado pelo confronto entre manifestantes e policiais. Hoje, após reunião com o ministro, o presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Daniel Slavieiro, afirmou que Santiago havia recebido, da empresa, equipamentos de segurança e orientações para se manter a pelo menos 50 metros de distância da área de maior risco.
"Toda vez que um profissional de imprensa é impedido de exercer sua função, quem perde é a sociedade brasileira, que deixa de ser informada. Os jornalistas estão sendo alvo de um grupo minoritário de arruaceiros (presentes às manifestações)", disse Slavieiro. Para ele, a morte do cinegrafista mostra que é preciso “aperfeiçoar” as leis, para inibir a ocorrência de agressões e mortes nesses eventos.
O presidente da Abert lembrou que a hostilidade contra a imprensa ocorre desde o ano passado e vem crescendo. "Infelizmente, essa tragédia aconteceu com o Santiago. Se foi uma fatalidade, a investigação vai dizer." Slavieiro ressaltou, porém, que, independentemente de quem foi a vítima, é um fato que exige o aprofundamento das investigações e a identificação dos responsáveis. "Por ter sido uma pessoa da imprensa, há maior conotação e cobertura", afirmou.
Atingido em protesto, cinegrafista tem morte cerebral
Santiago foi atingido na cabeça por um rojão durante a cobertura de um protesto contra o aumento do preço do ônibus no Centro do Rio de Janeiro, no dia 6 de fevereiro. Além dele, outras seis pessoas ficaram feridas na mesma manifestação.
De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, o cinegrafista chegou em coma ao hospital municipal Souza Aguiar. Ele sofreu afundamento do crânio, perdeu parte da orelha esquerda e passou por cirurgia no setor de neurologia. A morte encefálica foi informada pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) no início da tarde do dia 10 de fevereiro, após ser diagnosticada pela equipe de neurocirurgia do hospital, onde ficou internado no Centro de Terapia Intensiva desde a noite do dia 6.
O tatuador Fábio Raposo confessou à polícia ter participado da explosão do rojão que atingiu Santiago. Ele foi preso na manhã de domingo em cumprimento a um mandado de prisão temporária expedido pela Justiça. O delegado Maurício Luciano, titular da 17ª Delegacia de Polícia (São Cristóvão) e responsável pelas investigações, disse que Fábio já foi indiciado por tentativa de homicídio qualificado e crime de explosão e que a pena pode chegar a 35 anos de reclusão.
O tatuador ajudou a polícia a reconhecer um segundo responsável pelo disparo do artefato que causou a morte do cinegrafista. Raposo, preso no complexo penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio de Janeiro, afirmou, de acordo com o relato do delegado, que “eles se encontravam em manifestações e que esse rapaz tem perfil violento.”
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