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Padres brasileiros são excomungados em meio a conflito entre Vaticano e grupo ultraconservador

Conflito antigo entre o Vaticano e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X ressurgiu no pontificado do papa Leão 14, com um vai e vem de ameaças e provocações que levou a uma onda de excomunhões, uma das punições mais extremas da Igreja Católica.

12 ago 2026 - 15h43
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Excomunhão do padre Rodrigo de Oliveira Silva foi anunciada na última semana pela Diocese de Jundiaí
Excomunhão do padre Rodrigo de Oliveira Silva foi anunciada na última semana pela Diocese de Jundiaí
Foto: Reprodução/YouTube / BBC News Brasil

Um conflito antigo entre o Vaticano e um grupo conservador que reza missas em latim ressurgiu no pontificado do papa Leão 14, com um vai e vem de ameaças e provocações que levou a uma onda de excomunhões, a punição mais extrema prevista na Igreja Católica.

Nascida na Suíça e hoje presente em dezenas de países, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) é um entre diversos grupos católicos que acreditam que a igreja passa por uma crise causada pela "modernidade" e que defendem um retorno à "tradição", com missas celebradas em latim e o padre de costas para os fiéis.

A reportagem da BBC News Brasil esteve no fim de maio em uma das missas do grupo na capela de São Paulo.

É uma corrente conhecida como tradicionalista, que ganhou popularidade nas redes sociais no Brasil embalada pelo avanço de vertentes conservadoras entre católicos.

Nas últimas semanas, dois padres brasileiros que haviam recentemente aderido à congregação foram formalmente punidos. Em Ceilândia (DF), Françoá Rodrigues Figueiredo Costa e, no interior de São Paulo, Rodrigo de Oliveira Silva.

A excomunhão significa que sacramentos como a confissão, a absolvição e o matrimônio que eles eventualmente celebrem daqui pra frente serão considerados nulos, por não estarem em comunhão com a igreja.

As missas, por sua vez, serão vistas como ilícitas, ainda que válidas, como explica o vigário geral da diocese de Jundiaí, padre Carlos José Virillo.

"Atos como a eucaristia, por exemplo, são sacramentos válidos, porque ele é um padre validamente ordenado, mas é ilícito porque ele está excomungado", ilustra.

A BBC News Brasil tentou contato com ambos os sacerdotes e com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas não teve retorno. Telefonou também para a sede da Fraternidade no Brasil. O padre que atendeu à ligação informou que os sacerdotes não dão entrevistas e que todos os posicionamentos da congregação estão compartilhados em seu site.

A reportagem o questionou sobre uma publicação recente que desafia os efeitos práticos da excomunhão e afirma que os sacramentos são válidos, e ele confirmou ser esse o entendimento do grupo. "Não é uma afronta, está tudo explicado com base na doutrina", comentou.

Ou seja, o Vaticano anunciou as excomunhões, mas o grupo diz que elas não estão valendo. Em um vídeo publicado há algumas semanas, padre Françoá Costa faz coro: "Não estou excomungado, não sou cismático".

Apesar da afronta, o grupo apresentou recurso ao Vaticano em meados de julho pedindo formalmente que a punição seja revogada.

A crise tem sido um teste para o papado de Leão 14 e expõe o jogo de forças entre as diferentes correntes ideológicas que disputam espaço e poder no catolicismo.

Ordenação de bispos em julho aconteceu sem aval do Vaticano
Ordenação de bispos em julho aconteceu sem aval do Vaticano
Foto: FSSPX / BBC News Brasil

Entenda o conflito

O evento que deflagrou a ruptura aconteceu no último dia 1º de julho. Nessa data, em um grande evento realizado na pequena cidade suíça de Ecône e transmitido ao vivo pela internet, líderes da FSSPX ordenaram quatro novos bispos.

Segundo a organização, cerca de 16 mil pessoas participaram da celebração. Entre 65 nacionalidades, o Brasil foi o sétimo país com maior número de participantes, 289, atrás de França (6.136), Suíça (2.562), Alemanha (1.832), Estados Unidos (1.129), Polônia (948) e Itália (735).

No catolicismo, a única autoridade da igreja com poder para nomear bispos é o papa. No caso da Fraternidade, contudo, as sagrações aconteceram à revelia da Santa Sé.

Meses antes, o Vaticano já havia alertado em comunicado que se o evento de fato fosse realizado e o grupo desobedecesse as determinações do papa seria visto como cismático (ou seja, estaria rompendo com a igreja) e seria consequentemente punido com excomunhão.

Foi o que aconteceu. No dia seguinte à celebração em Ecône, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou uma nota em que explicava as consequências práticas das sanções e a quem elas se aplicavam: todos os que aderissem à Fraternidade, inclusive os fiéis leigos.

Ou seja, milhares de pessoas a partir daquele momento eram consideradas cismáticas e excomungadas.

"Essa foi a novidade, vamos dizer assim, do documento desse momento", comenta Rodrigo Coppe Caldeira, coordenador do programa de pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas.

Caldeira diz "desse momento" porque esta não é a primeira vez que o grupo é alvo de excomunhões. Em 1988, a FSSPX já havia realizado ordenações de bispos em contrariedade às normas do Vaticano e sido punida — mas apenas os bispos ordenados e os que participaram da ordenação sofreram excomunhão.

Desta vez, também padres e os fiéis que tivessem uma adesão formal ao grupo foram alvo da sanção, que está prevista no direito canônico.

Evento reuniu cerca de 16 mil pessoas, segundo a organização
Evento reuniu cerca de 16 mil pessoas, segundo a organização
Foto: FSSPX / BBC News Brasil

Repercussões no Brasil

Segundo o vigário geral da diocese de Jundiaí, padre Carlos José Virillo, após as ordenações na Suíça, a Santa Sé enviou a seus bispos um comunicado instruindo-os a entrar em contato com os padres que haviam aderido à congregação para "mostrar a gravidade da nova situação" e tentar convencê-los "a retornar para a igreja".

Caso o padre retirasse publicamente sua adesão ao grupo, seria poupado. Segundo Virillo, o bispo da diocese de Jundiaí, dom Arnaldo Carvalheiro Neto, procurou o padre Rodrigo de Oliveira Silva com a mensagem, mas recebeu uma negativa.

"Ou seja, ele disse que não retornaria, que continuaria aderindo à fraternidade. Então dom Arnaldo tornou público [no último dia 6 de agosto] aos diocesanos a excomunhão que já está declarada pela Santa Sé", relatou o vigário geral à reportagem.

Segundo Virillo, o padre Rodrigo estava suspenso desde janeiro, quando havia comunicado sua adesão à FSSPX.

Ele vinha celebrando a chamada missa tridentina, em latim, em um espaço improvisado numa casa alugada em Campo Limpo Paulista. Em março, lançou uma campanha para levantar R$ 190 mil para comprar a propriedade e montar seu apostolado. Até o momento, a campanha arrecadou R$ 73,3 mil, fora os valores enviados via pix diretamente ao sacerdote.

No vídeo em que pede doações, Silva fala sobre sua aproximação da Fraternidade e cita entre suas influências o padre Françoá Costa, cuja excomunhão foi formalmente anunciada pela Arquidiocese de Brasília no último dia 10 de julho.

Costa havia aderido à FSSPX há pouco mais de um ano, em abril de 2025, e celebrava a missa tradicional na Capela Santo Atanásio.

Ele é bastante ativo no perfil da Capela no YouTube, que soma cerca de 56 mil seguidores. Seus conteúdos são ocasionalmente reproduzidos pelas plataformas do Centro Dom Bosco, que promove o catolicismo tradicional.

Padre Rodrigo tem pedido doações para comprar a casa em que mora e onde tem realizado as missas tradicionais
Padre Rodrigo tem pedido doações para comprar a casa em que mora e onde tem realizado as missas tradicionais
Foto: Reprodução / BBC News Brasil

A origem - e o avanço - da FSSPX

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X nasceu em 1970 na Suíça. Foi um dos grupos que surgiram em oposição ao Concílio Vaticano 2º, a maior reforma da história moderna da Igreja Católica, que reuniu bispos entre 1962 e 1965 e mudou profundamente a maneira como se celebra a missa e a relação do catolicismo com outras religiões.

Até aquela data, o padre só rezava em latim, mesmo que os fiéis não entendessem o que ele falava, e a leitura e a interpretação da Bíblia estavam concentradas nos membros da hierarquia da Igreja, como sacerdotes e bispos.

Com o concílio, a língua oficial passou a ser o idioma local de cada paróquia. A igreja começou a incentivar a aproximação dos fiéis da Bíblia, a formação de grupos leigos de leitura dos textos religiosos, e se abriu ao diálogo com as religiões não cristãs e à liberdade de consciência, a ideia de que a religião é uma escolha individual e não deve ser imposta, por exemplo, pelo Estado.

Foi um movimento progressista, que desagradou a ala católica mais conservadora.

Uma dessas figuras foi o arcebispo francês Marcel Lefebvre. Ao lado de figuras como o brasileiro Antônio de Castro Mayer, na época bispo da Diocese de Campos, ele fazia parte de um grupo minoritário que estava presente no Concílio e tentou frear as reformas.

Eles viam as mudanças como um avanço do comunismo dentro da igreja, explica Caldeira, como um aceno aos ideais de liberdade da Revolução Francesa contra os quais o catolicismo havia lutado no passado.

Uma das principais ideias às quais eles se opunham era a da liberdade religiosa, admitindo o que chamavam de tolerância religiosa.

"Você pode aceitar as outras religiões, você pode aceitar que exista o 'erro', mas não pode dar liberdade para o 'erro'. Essa era um pouco a lógica."

Em 1970 Lefebvre fundou na cidade suíça de Friburgo o Seminário Internacional São Pio X para formar padres que desejassem conservar o modelo de Igreja "tradicional", a que existia antes do concílio.

O grupo cresceu, mesmo com as excomunhões de 1988, e se internacionalizou. Entrou na América do Sul pela Argentina, onde há um seminário para formação de novos padres, e nos últimos 20 anos vem ganhando força no Brasil.

Hoje estão em 14 capelas em quatro das cinco regiões. A congregação só não está presente no Norte, conforme os endereços listados nos boletins distribuídos a fiéis: São Paulo, Indaiatuba (SP), Ribeirão Preto (SP), Sorocaba (SP), Itapetininga (SP), São José do Rio Preto (SP), Passos (MG), Curitiba (PR), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Fortaleza (CE), Parnaíba (PI), Teresina (PI), São Luís (MA).

Caldeira ressalta que o grupo é pequeno e está nas franjas do catolicismo, mas "tem uma ressonância".

"Principalmente em jovens que vivem nesse mundo em que a gente está inserido, bastante inseguro, sem 'verdades', sem algo a acreditar. Isso então tem um apelo. A própria igreja tem um apelo."

No caso específico do tradicionalismo, ele acrescenta, há a questão estética: a missa em latim, as roupas e adereços que remetem ao passado da igreja — em um momento, ironicamente, em que a tradição deixou de ser uma imposição e passou a ser uma escolha individual.

"Você está na igreja se quer ou não, está na Fraternidade se quer ou não. Então eles criticam o individualismo, o liberalismo, mas também estão fazendo alguma escolha, né?"

Em décadas de uma relação tumultuada, o Vaticano tentou algumas vezes promover uma reconciliação com o grupo.

Em 2009, o papa Bento 16 chegou a revogar parcialmente as excomunhões de 1988, apesar de a congregação nunca ter admitido aceitar publicamente o Concílio do Vaticano 2º — condição que a Santa Sé geralmente colocava a grupos tradicionalistas em situação canonicamente irregular.

As próximas ações do pontificado de Leão 14 devem deixar mais claro em que direção esse novo capítulo deve seguir.

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