Script = https://s1.trrsf.com/update-1790713512/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Brasil

Publicidade

O que explica a onda conservadora nas eleições de 2026

7 out 2026 - 16h11
(atualizado às 16h47)
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O avanço da ultradireita nas eleições de 2026, evidenciado pela liderança de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial e por vitórias no Congresso, reflete a busca do eleitor por renovação política e o desgaste das instituições, segundo analistas. Mais do que uma guinada ideológica, o fenômeno decorre da insatisfação com a violência, a corrupção e a economia, além de forte rejeição à política tradicional, com a direita capitalizando anseios de segurança pública e críticas ao STF.

Avalanche liderada pela ultradireita varreu Congresso, governos estaduais e botou Flávio Bolsonaro na frente na corrida presidencial. Analistas avaliam que fenômeno reflete desejo do eleitorado por renovação política.O primeiro turno das eleições deste ano colocou à mostra o avanço de uma nova "avalanche conservadora" liderada pela ultradireita, que varreu o Congresso e governos estaduais. Contrariando a maioria das pesquisas eleitorais, o primeiro turno ainda terminou com o senador Flávio Bolsonaro em vantagem na corrida presidencial, tida como a mais acirrada nas quatro décadas de Brasil redemocratizado.

Mas, independentemente do resultado para a futura chefia do Planalto, o bolsonarismo já angariou força inédita para orientar a agenda política e pressionar adversários em Brasília. Especialistas ouvidos pela DW avaliam que a chave por trás do fenômeno, entretanto, não é um aprofundamento do conservadorismo na sociedade nem uma mudança no perfil do eleitorado.

O fator mais importante é, afirmam os cientistas sociais e políticos, um desejo por renovação política, movido pela percepção de que "problemas persistentes" permanecem insuficientemente endereçados pelo poder público. Dentre eles, se sobressaem a violência, a corrupção e a dificuldade de parte das famílias em fechar as contas.

"O Brasil é um país predominantemente conservador, e isso não mudou. Isso é diferente de dizer que o país se define por uma ideologia política de extrema direita", avalia Guilherme Casarões, professor de Estudos Brasileiros da Universidade Internacional da Flórida, nos Estados Unidos. Ele enxerga um "desgaste profundo da estrutura político-institucional que sustentou a Nova República ao longo dos últimos 40 anos".

O "mudancismo" bolsonarista

Ao se pronunciar logo após a divulgação dos resultados das urnas, Flávio Bolsonaro prometeu renovação. "São quase 56 milhões de brasileiros e brasileiras que deram esse voto de confiança para a mudança. A palavra é mudança. O Brasil não aguenta mais."

Mas críticos ressaltam que o presidenciável pouco ou nada ofereceu de clareza em relação a suas propostas até agora. Para João Feres Júnior, cientista político do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (IESP-UERJ), o discurso "mudancista" não só virou o bordão da campanha de Flávio para o segundo turno, como também é sintoma de uma progressiva crise de legitimidade da democracia participativa no país.

"As pessoas mostram irritabilidade e falta de confiança total em relação às instituições", aponta. "E a extrema direita parece ser a mais bem equipada para fornecer soluções de fácil cognição para isso."

No noite de domingo, Flávio também aproveitou para reforçar que pretende acabar com a reeleição presidencial. O senador argumentou que a possibilidade de um segundo cargo cria um "estado permanente de eleição" que impede a "normalidade democrática". Mais tarde, ele falaria também em "mudar a Constituição" para "redemocratizar o país".

O próprio presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, afirmou na segunda-feira que, em 2030, o ex-presidente Jair Bolsonaro poderia voltar ao Planalto, caso o seu primogênito seja eleito no fim deste mês. Flávio, em seguida, negou que a proposta tenha por objetivo abrir o caminho a uma nova candidatura do pai em quatro anos.

"Para parte dos eleitores, o Flávio representa a renovação, mesmo que com a continuidade do bolsonarismo. Os indecisos, por exemplo, dizem que tem certo receio ou desconfiança, mas, ao mesmo tempo, que ele é uma figura nova, e não o pai", afirma Camila Rocha, cientista política e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Revanche contra o STF

Por sua vez, candidatos ligados ao bolsonarismo converteram em promessa de campanha a pressão pelo impeachment de magistrados do Supremo Tribunal Federal (STF). Parte da Corte - e sobretudo o ministro Alexandre de Moraes - é tida pela ultradireita como adversária política, incluindo por ter condenado o ex-presidente Bolsonaro a 27 anos de prisão pela trama golpista de 2022.

Para Letícia Cesarino, antropóloga e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a estratégia eleitoral mira sobretudo os segmentos que, mesmo pouco aderentes aos valores conservadores, também desejam mudança política. E ganha força com escândalos como o do Banco Master, que gerou uma crise sem precedentes no mais alto tribunal do país às vésperas das eleições.

"A votação monumental do bolsonarismo é parte de uma campanha que vem há meses para tomar o Senado e mudar o STF", inclusive nas redes sociais, afirma.

Outra tendência encontrada entre os estudiosos da preferência do eleitorado é que o voto se paute mais pela rejeição a outros atores políticos, sobretudo aqueles tidos como parte da política tradicional, do que exprima apoio ideológico ao destinatário do voto.

Na véspera do primeiro turno, uma pesquisa Quaest apontava para a possibilidade de Flávio chegar às urnas fortalecido pelo movimento de eleitores que, de última hora, optariam pela sua chapa a fim de barrar a permanência no poder do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Como o Partido dos Trabalhadores (PT) é a face mais visível do que poderíamos chamar de 'establishment', ele acaba sendo o alvo da insatisfação que mobiliza o eleitorado", acrescenta Casarões.

Resposta à insegurança pública

Ao mesmo tempo, tanto cientistas quanto pesquisas de opinião apontam que a segurança pública é a principal preocupação do eleitorado e, cada vez mais, é instrumentalizada pela direita.

"A criminalidade chegou a tal ponto de dominação dos territórios que as pessoas relatam viver num estado de constante vigilância, o que acarreta na perda de vários direitos, incluindo o de ir e vir. Na percepção delas, o PT não teve resposta para isso nos últimos anos", adiciona Rocha.

Na América Latina, populistas de direita vêm ganhando terreno político ao propor respostas agressivas em matéria de segurança pública. O modelo do ultraconservador salvadorenho Nayib Bukele contra o crime organizado virou referência para diversos grupos de direita no continente, inclusive no Brasil.

Na semana passada, Flávio Bolsonaro se encontrou com o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro. Ele elogiou a abordagem linha-dura do governo que, segundo a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, viola sistematicamente os direitos humanos.

Tanto Bukele quanto Flávio se exibem como alinhados ideologicamente ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No ano anterior à campanha eleitoral brasileira, o republicano reforçou o apoio ao clã Bolsonaro e a pressão sobre o governo Lula, incluindo ao rotular de terroristas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

Amplamente lida como interferência política por observadores, a ofensiva serviu como mais um combustível às bases da ultradireita brasileira na corrida eleitoral. Para parte dos analistas, também o contexto regional conta: a reeleição de Trump em 2020 teria disparado uma "onda laranja" no continente, elevando ao poder vários aliados do chefe da Casa Branca.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra