No dia seguinte à vitória de Lula, direita assimila derrota, bolsas despencam e PT inicia reflexão
O Brasil acordou ainda sob o efeito da virada promovida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. O líder petista passou o dia se recuperando do domingo intenso da véspera, enquanto as lideranças do PT já começam a articular a formação do próximo governo, depois da surpresa das urnas. À direita, os principais partidos aliados de Flávio Bolsonaro (PL) reconheceram a derrota do candidato. Flávio rompeu o silêncio apenas no fim da tarde, colocando-se como "líder da oposição".
Após a vitória eleitoral de Lula, Flávio Bolsonaro anunciou ofensiva jurídica para tentar anular o pleito e assumir a liderança da oposição, embora aliados e partidos de centro e direita já tenham reconhecido o resultado. O cenário pós-eleição é marcado pela apreensão com episódios de violência política contra petistas e por forte reação negativa do mercado financeiro, com o Ibovespa despencando 17% e o dólar em alta, refletindo incertezas fiscais e sobre a futura equipe econômica de Lula.
Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a São Paulo
Em nota divulgada à imprensa, Flávio agradeceu aos seus quase 60 milhões de eleitores e disse que "não se curvará diante das adversidades". "A partir de agora, assumo a liderança da oposição e prometo fazer valer a voz de milhões de brasileiros que querem um país livre, seguro e próspero. A eleição terminou, mas a luta por um Brasil diferente continua", diz o texto.
O senador informou que prepara uma "ofensiva jurídica" para pedir a abertura de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral (AIJE), "por abuso de poder econômico e para buscar a cassação da chapa presidencial eleita". A posição reforça a hipótese de que o núcleo duro do bolsonarismo contestará a validade do pleito.
No domingo, Flávio declarou que "é impossível" admitir o resultado das urnas e pediria a anulação do pleito ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O candidato criticou a decisão do ministro do STF Cristiano Zanin de determinar a prorrogação do horário de votação por duas horas em todo o país, devido a registros de problemas nos transportes públicos para os eleitores.
Entretanto, o próprio PL também havia feito essa mesma solicitação ao TSE em três estados (São Paulo, Paraná e Santa Catarina), alegando más condições climáticas, o que enfraquece a eventual demanda oficial de contestação do pleito.
Partidos de centro e direita reconhecem vitória de Lula
Um dia depois da votação, Flávio não teve agendas públicas e ficou em sua casa, em Brasília. Os partidos de direita ou centro-direita, União, Republicanos e Podemos, que apoiaram a candidatura dele no segundo turno, admitiram a vitória do petista.
O MDB, dividido no segundo turno, parabenizou Lula pela vitória. "É um momento em que a vontade popular se fez soberana. Desejamos que ele tenha serenidade para governar o país em favor de todos, sem exceção", afirmou nota publicada no X. O PSD, neutro depois da derrota de Ronaldo Caiado no primeiro turno, reafirmou "o compromisso com a democracia brasileira".
O presidente do Republicanos, Marcos Pereira, pediu "respeito às diferenças" e diálogo entre o Executivo e o Congresso. Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, liderança relevante do bolsonarismo e membro do Republicanos, optou pelo silêncio nesta segunda-feira. A postura indica a possibilidade de a ala mais radical da direita insistir pela via da contestação dos resultados, ao menos neste primeiro momento.
Entretanto, seu vice, Felício Ramuth (MDB), afirmou que "respeita" o resultado "incontestável" das urnas. Ele criticou o anúncio feito por Flávio de que pediria anulação da eleição, feito apenas depois que a derrota estava confirmada, e não quando o STF e o TSE confirmaram o adiamento do fim da votação no domingo.
Violência política preocupa eleitores do PT
Também o prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB), divulgou nota na qual reconhece a derrota do partido na eleição presidencial. Em um curto texto, ele diz "desejar que Lula recupere a economia para dar à população condições de melhorar a sua qualidade de vida".
Os presidentes da Câmara, Davi Alcolumbre (União), e do Senado, Hugo Motta (Republicanos), reconheceram juntos a vitória de Lula logo após a confirmação dos resultados.
O braço direito da campanha do filho de Jair Bolsonaro, o deputado federal Nikolas Ferreira, admitiu que, "conhecendo o nosso país", a chance de anular o pleito é "praticamente nula", embora tenha reiterado as críticas ao processo eleitoral. Em um vídeo nas suas redes sociais, o mineiro consolou a militância e pediu "prudência", dizendo que "muitas pessoas pagaram com a vida por irem para a rua no calor da emoção".
Atos de violência política foram registrados em vários estados nos últimos dias, com relatos de mortes de eleitores em Santos (SP), Bonito (MG) e Porto Esperidião (MT). Um homem foi baleado em Corumbá (MS) por motivações políticas, e agressões foram registradas em vários outros lugares. As vítimas mortas ou baleadas eram eleitoras do PT.
Na festa da vitória de Lula em São Paulo, eleitores afirmaram temer uma onda de violências nestes dias seguintes à eleição, principalmente se Flávio insistir em não reconhecer o resultado do pleito.
"A gente veio veio para a Paulista com um pouco de medo, porque a gente não sabia como eles iriam reagir. A gente sabe como eles são violentos", disse a psicoterapeuta Roberta da Fonseca, 47 anos.
Mercados reagem com forte volatilidade à vitória de Lula
A reviravolta política gerou grande incerteza nos mercados financeiros. As bolsas derreteram e o dólar disparou, indicando a recepção negativa do resultado da eleição pelos investidores, que haviam antecipado a vitória de Flávio Bolsonaro.
O Ibovespa, principal índice das bolsas de valores do país, despencou 17% na abertura do pregão nesta segunda-feira (26), a 169.516,43 pontos. A volatilidade levou ao acionamento do mecanismo conhecido como circuit breaker, a paralisação temporária das transações em meio a uma forte turbulência no mercado, que não era ativado desde 2020 no país. Mas a medida não conteve a volatilidade ao longo do dia.
A movimentação é resultado da reversão das expectativas futuras, que leva à renegociação de preços. O dólar subiu quase 9%, chegando a R$ 5,60.
Analistas indicam que três razões acentuam essa inquietação: Lula não ter mencionado o compromisso com as contas públicas em seus discursos de vitória, os temores sobre o impacto fiscal do "pacote de bondades" oferecido por Lula durante a campanha, estimado em pelo menos R$ 300 bilhões, e a expectativa sobre a formação do próximo governo e, em especial, quem ocupará o cargo de ministro da Fazenda no governo Lula 4.
As conversas já começaram internamente no PT e um dos nomes apontados é o do governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles. Visto como um perfil que traz renovação ao partido, ele teve grande peso na mobilização dos eleitores para o segundo turno e tem boa circulação em setores dos mercados.
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