Lula e Trump: o que os dois presidentes querem ganhar com encontro na Casa Branca?
Líderes se encontram em momento delicado no ambiente doméstico para discutirem tarifas, investimentos em minerais críticos e o combate ao crime organizado em tentativa de reeditar a "química excelente" do ano passado.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem um encontro previsto para as 12h (horário de Brasília) nesta quinta-feira (7/5) com o presidente norte-americano, Donald Trump, na Casa Branca, nos Estados Unidos.
A reunião vinha sendo negociada desde janeiro, chegou a ser prevista para março, mas acabou acontecendo em um momento em que a chamada "química excelente" entre os dois líderes vinha dando sinais de estremecimento.
O encontro também ocorre em um período em que os dois presidentes enfrentam momentos delicados domesticamente.
No Brasil, Lula sofreu, em uma semana, duas derrotas políticas no Congresso Nacional com a rejeição da indicação de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto ao projeto de lei que reduziu penas para condenados por crimes cometidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.
Além disso, pesquisas de intenção de voto colocam Lula em empate técnico com os principais candidatos de direita, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Por outro lado, Trump enfrenta uma crise de popularidade causada pelo prolongamento da guerra contra o Irã e a economia do país já começa a dar sinais negativos com aumento da inflação causada, entre outros motivos, pela subida do preço dos combustíveis gerada pela crise no Oriente Médio.
E em meio a um cenário delicado "em casa", Lula e Trump se reunirão com a expectativa de emplacarem agendas positivas de lado a lado, ainda que, em alguns pontos, os interesses de ambos pareçam ser antagônicos.
Diante desse quadro, a BBC News Brasil ouviu especialistas em relações internacionais e fontes ligadas ao governo brasileiro para entender o que é que Trump e Lula querem ou têm a ganhar com esse encontro.
Eles afirmam que, do lado brasileiro, o governo tem o objetivo de derrubar o restante das tarifas que ainda vigoram contra a importação de produtos brasileiros.
Além disso, Lula também quer frear ou convencer o governo norte-americano a encerrar investigações comerciais que miram a economia brasileira, entre elas uma que apura supostas irregularidades envolvendo o Pix.
As pautas brasileiras, porém, não seriam apenas econômicas, segundo os especialistas.
Na avaliação deles, um outro objetivo do governo brasileiro é manter aberto um canal de comunicação direto com Trump, tentando diminuir a influência da ala bolsonarista radicada nos Estados Unidos a poucos meses das eleições presidenciais.
Do lado norte-americano, Trump deverá usar o encontro para mostrar uma imagem de relativo prestígio ao receber mais um líder na Casa Branca em um momento em que a guerra contra o Irã é contestada nacional e internacionalmente, além de possibilitar o aprofundamento de negociações em áreas consideradas estratégicas para os EUA como o barateamento do preço da carne bovina e o acesso a reservas de minerais estratégicos.
Uma pesquisa realizada pela Reuters e pelo Instituto Ipsos divulgada em abril apontou que a taxa de aprovação de Trump caiu para o nível mais baixo de seu mandato.
Entre os fatores apontados para este resultado está o descontentamento com o custo de vida e a guerra contra o Irã.
O que Lula quer?
Na avaliação do professor de Ciência Política da Universidade de Berea, nos Estados Unidos, Carlos Gustavo Poggio, o encontro de Lula e Trump é mais importante para o brasileiro que para o norte-americano.
"Lula tem uma eleição geral para enfrentar. Trump tem eleições legislativas de meio de mandato, mas a importância dos EUA na pauta comercial do Brasil é maior do que a do Brasil para a pauta dos EUA. Por isso, acho que essa visita tem um peso maior para Lula que para Trump", explica.
Na avaliação do professor, os interesses mais concretos de Lula com essa visita são econômicos.
"A questão mais concreta, evidentemente, é a suspensão das tarifas remanescentes que existem sobre a exportação de produtos brasileiros, especialmente a tarifa sobre a carne. Isso é algo que também interessa, hoje, o governo norte-americano. Se o Brasil conseguir algum avanço nisso, seria algo interessante para o governo brasileiro", diz Poggio.
O professor também avalia que o governo Lula poderá usar o interesse dos norte-americanos nas reservas de minerais críticos como uma espécie de "moeda de troca" à medida que o governo brasileiro, por sua vez, quer a garantia de que investimentos em projetos minerais no Brasil envolvam transferência de tecnologia e beneficiamento da matéria-prima em território nacional.
Além disso, o professor avalia que o governo deverá tentar convencer o governo norte-americano a encerrar as investigações com base na seção 301 da Lei de Comércio que atinge o Pix brasileiro.
A preocupação do Brasil com o tema começou em julho do ano passado, na mesma época em que o governo Trump impôs um tarifaço de 40%.
Naquele mês, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) abriu uma investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio do país sobre práticas comerciais supostamente irregulares do Brasil e incluiu o Pix entre os itens sob apuração.
Os norte-americanos afirmam que o Pix representaria uma ameaça à atuação de empresas dos Estados Unidos que operam o mercado de meios de pagamento. Do lado brasileiro, técnicos defendem que o sistema não prejudica empresas norte-americanas numa tentativa de evitar sanções.
O professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), Haroldo Ramanzini Júnior, diz que o governo também pode obter ganhos no tema do combate ao crime organizado. Esse assunto vem sendo explorado pela oposição como uma das principais fraquezas do atual governo.
A condução do assunto junto aos norte-americanos é particularmente sensível porque, segundo interlocutores do presidente Lula ouvidos pela BBC News Brasil, uma ala da administração Trump defende que os EUA designem facções criminosas brasileiras como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.
Ao longo dos últimos meses, técnicos e diplomatas brasileiros vêm tentando convencer os norte-americanos a mudarem de ideia e não procederem com a designação. O governo brasileiro teme que essa medida abra espaço para ações militares ou policiais norte-americanas em território brasileiro.
Para o professor Ramanzini Júnior, se Lula conseguir convencer Trump a desistir dessa ideia, isto representará um ganho importante para o petista.
"Isso poderá ser considerado uma vitória do Brasil, já que setores do governo norte-americano vinham sinalizando a adoção de uma abordagem unilateral potencialmente ameaçadora à soberania do país", diz o professor à BBC News Brasil.
O que Trump quer?
Do outro lado deste encontro estará Trump, líder conhecido por tentar negociar usando táticas consideradas agressivas.
Para o professor Poggio, parte dos interesses de Trump convergem com os do Brasil.
"Trump quer reduzir o preço da carne. Aparentemente, ficou evidente para ele que as tarifas sobre a carne brasileira geraram inflação. Talvez, esse seja o principal interesse dele nesse encontro", disse o professor.
Poggio também citou o interesse de Trump nos minerais críticos brasileiros.
"Os EUA querem acesso privilegiado às reservas brasileiras e algum tipo de amarração, uma espécie de garantia de fornecimento com exclusividade do Brasil para os EUA. Neste ponto, pode haver divergência porque o Brasil não quer se tornar fornecedor exclusivo de um país", afirma o professor.
Para Poggio, a visita também pode gerar dividendos políticos e simbólicos para Trump em um momento em que sua liderança internacional é contestada, entre outros motivos, pelo prolongamento da guerra contra o Irã.
"Com essa visita, ele consegue reforçar a narrativa de que ele está organizando as cadeias de suprimento críticas com grandes produtores de alimentos e minerais para conseguir competir com a China. Ele tenta reforçar uma imagem de pragmatismo internacional aparecendo com um líder de esquerda emblemático", diz.
A China é apontada pelo governo norte-americano como a principal ameaça geopolítica dos Estados Unidos.
Neste aspecto, o Brasil tem sido apontado por oficiais do governo dos EUA como um parceiro estratégico, pois além de ser um dos principais fornecedores de alimentos do mundo, o país é detentor da segunda maior reserva mundial de terras raras, minerais considerados essenciais para a transição energética e para a produção de equipamentos de alta tecnologia como telefones celulares, computadores e até mísseis.
Para o professor Ramanzini Júnior, uma aproximação de Trump com Lula também consolida parte da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, divulgada no ano passado. O documento, revisado de tempos em tempos, colocou o hemisfério ocidental, do qual o Brasil faz parte, como uma área sobre a qual os Estados Unidos deveriam exercer sua influência.
"Se o hemisfério ocidental constitui uma prioridade de política externa, torna-se muito importante manter diálogo com um país central da região, como o Brasil. Além disso, o encontro também abre espaço para que temas de interesse dos EUA sejam colocados na agenda, como terras raras e minerais críticos", diz o professor.
Blindagem anti-Trump?
Nos últimos meses, interlocutores do presidente Lula vinham afirmando que um encontro entre Lula e Trump poderia ajudar o governo brasileiro a diminuir a influência que a ala bolsonarista sediada nos Estados Unidos tem sobre o governo norte-americano.
Esta ala é liderada pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo empresário e jornalista Paulo Figueiredo.
A interpretação do governo é de que essa ala foi a principal responsável por influenciar o governo Trump a impor o tarifaço sobre produtos brasileiros em julho de 2025 sob a justificativa de que ele era uma resposta a uma suposta "caça às bruxas" política contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
À época, Bolsonaro enfrentava um julgamento que acabou o condenando a 27 anos de prisão por golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado de direito. Sua defesa alega que ele é inocente.
O mal-estar causado pelo tarifaço só começou a ser desfeito em setembro de 2025, depois que Trump e Lula se encontraram na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.
Foi nessa ocasião que Trump disse ter sentido uma "química excelente" com Lula. A partir de então, os dois se encontraram uma vez mais, na Malásia, e trocaram telefonemas.
Apesar disso, nos últimos meses, desentendimentos entre os dois governos deram a impressão de que a "química excelente" estaria abalada.
Em março, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) cancelou o visto concedido ao conselheiro sênior do Departamento de Estado dos Estados Unidos para o Brasil, Darren Beattie. Ele tentava fazer uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas segundo o governo brasileiro, não informou seu objetivo quando solicitou a permissão de entrada.
O segundo aconteceu em abril, quando o governo norte-americano determinou o retorno de um delegado da Polícia Federal que atuava na Flórida após a prisão do ex-deputado federal e ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, por agentes de imigração norte-americanos.
Ramagem é procurado pela Justiça brasileira e foi condenado pelo STF por crimes ligados aos atos de 8 de janeiro.
Em resposta, o governo brasileiro revogou os acessos de agentes norte-americanos que trabalhavam junto à PF no Brasil.
No governo brasileiro, a avaliação é de que o encontro, por si só, não seria capaz de impedir movimentos dos EUA para influenciar as eleições de 2026, mas ao menos serviria para manter um canal direto com Trump e não deixar que a ala bolsonarista fosse a única voz a tratar do tema "Brasil" junto a oficiais do governo dos EUA.
O professor Ramanzini Júnior, da UnB, tem uma avaliação semelhante.
"A visita aos EUA talvez contribua para tentar reduzir as chances de uma interferência direta do presidente Trump nas eleições brasileiras, mas não elimina a possibilidade de que big techs, setores do governo e atores ligados ao MAGA atuem em favor da extrema direita e de processos de desestabilização no Brasil", diz o professor.
Carlos Gustavo Poggio, por sua vez, diz não acreditar que uma visita a Trump "blinde" o Brasil contra interferências externas.
"Acho que essa visita não traz nenhum tipo de proteção contra Donald Trump. Aprendemos neste segundo mandato que qualquer tipo de acordo com ele não vale nada. Ele pode acordar amanhã e desfazer o acordo que fez no dia anterior. Basta ver como ele age com a Europa e com o Irã".
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