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Indonésia: chamar embaixador "só atrapalha", diz analista

Para professor da Universidade de Brasília, governo federal errou ao determinar a volta do chefe da representação brasileira na Indonésia. Itamaraty não deve aplicar sanções econômicas

20 jan 2015
19h25
atualizado às 19h26
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Rodrigo Gularte foi preso em 2004 e, desde então, desenvolveu problemas mentais, segundo a família
Rodrigo Gularte foi preso em 2004 e, desde então, desenvolveu problemas mentais, segundo a família
Foto: AFP

A rejeição de seis pedidos de clemência e a consequente execução do ex-instrutor de asa delta Marco Archer Cardoso Moreira, 53 anos, no último sábado, provocou uma reação objetiva do governo brasileiro: a convocação do chefe da embaixada do Brasil em Jacarta, Paulo Alberto da Silveira Soares. No entanto, apesar de declarações sobre uma provável “sombra” na relação bilateral, novas consequências não devem ocorrer.

Com exceção de uma, talvez não prevista pela diplomacia brasileira. Ao convocar o embaixador do Brasil para consultas, o Palácio do Planalto pode ter dificultado a situação do paranaense Rodrigo Gularte, 43 anos. Condenado à morte em 2004, após ser preso por tráfico de drogas, ele está no mesmo presídio que Marco Archer ficou preso, na Ilha de Nusakambangan, a 400 quilômetros de Jacarta.

“Este fato de convocar o embaixador brasileiro só atrapalha o caso do próximo brasileiro que deve ser executado”, ponderou o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) Argemiro Procópio Filho, em entrevista ao Terra. Na visão dele, o momento exige calma e diálogo. “Não é momento para crítica [ao governo indonésio]. O embaixador brasileiro deveria estar lá”, ponderou.

“Chamar o embaixador para consulta expressa gravidade, um momento de tensão”, explicou o chanceler Mauro Vieira no sábado (17), após confirmada a execução de Marco Archer. Assim como o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, ele também afirmou que o caso deixa uma “sombra” na relação bilateral.

Porém, integrantes do corpo diplomático ponderam que sanções comerciais, por exemplo, não seriam eficazes. Isso porque o Brasil está longe de ser um parceiro efetivo da Indonésia. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a balança de importações e exportações foi ligeiramente negativa em 2013, com os brasileiros comprando mais que os indonésios.

Além das importações terem superado as exportações, o saldo comercial é baixo, ficando na casa dos US$ 4,1 bilhões, de acordo com dados parciais da pasta. O MDIC informa que o Brasil, que exportou US$ 182,6 bilhões - a maior parte de produtos e importou US$ 186,6 bilhões, foi o 22º parceiro comercial da Indonésia naquele ano.

“Não tem como boicotar nada, a pauta comercial entre os dois países é muito pequena”, disse o professor, que comparou a convocação do embaixador pelo governo brasileiro com alguém que “cutuca uma onça com vara curta”.

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Posição similar encontra eco no Itamaraty. Uma versão corrente entre servidores é que o fato de um holandês ter sido executado junto com Marco Archer, no sábado, mostra a determinação da Indonésia em manter a pena de morte para casos de tráfico de drogas. O país foi colonizado pela Holanda e ainda possui um vínculo forte com os Países Baixos.

Além disso, existe um interesse do governo brasileiro em aumentar o comércio bilateral. Produtores de carne de frango estão na Organização Mundial do Comércio (OMC) tentando furar o bloqueio ao produto brasileiro na Indonésia. Associações que representam o setor afirmam que os indonésios desrespeitam acordos internacionais ao vetar a entrada da proteína produzida no Brasil.

O mesmo ocorre com a carne bovina e com equipamentos militares. A intenção do governo federal é aumentar as exportações especialmente de aviões construídos pela Embraer para a Indonésia. "De certa maneira, isso [a execução] é um alerta. Este caso talvez seja uma contribuição para que brasileiros se conscientizem sobre os perigos do tráfico", comentou Procópio.

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Fonte: Especial para Terra
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