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França aposta no Brasil para expandir rede de ensino no exterior, mas plano divide governo e sindicatos

A França quer ampliar sua presença educacional no mundo e enxerga o Brasil como um dos países prioritários dessa estratégia. No centro desse projeto está a reforma da Agência para o Ensino Francês no Exterior (AEFE), responsável por uma rede de mais de 600 estabelecimentos em 138 países, que atende cerca de 400 mil alunos. Criada há quase quatro décadas, a agência é um dos principais instrumentos da diplomacia de influência francesa. Mas seu futuro virou tema de um intenso debate político na França.

9 set 2026 - 15h58
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Resumo
A França planeja expandir sua rede escolar no exterior até 2030, elegendo o Brasil como mercado prioritário para ampliar sua influência cultural. Contudo, a estratégia gera atritos entre o governo e sindicatos. Enquanto o poder público defende a modernização da gestão, representantes sindicais denunciam cortes de verbas estatais, alta nas mensalidades e redução de professores franceses, alertando para os riscos da privatização e da perda da qualidade do modelo histórico de ensino público da AEFE.

Parlamentares, sindicatos e associações de pais discutem como expandir a rede internacional sem comprometer sua sustentabilidade financeira ou aumentar excessivamente os custos para as famílias e sem descaracterizar um modelo que ajudou a consolidar a presença cultural e educacional francesa em dezenas de países. 

O debate ganhou força após críticas ao modelo de crescimento adotado nos últimos anos. Como destacou uma reportagem do jornal Le Monde, desde que o presidente Emmanuel Macron lançou, em 2018, a meta de dobrar o número de alunos matriculados na rede até 2030, a expansão passou a depender cada vez mais dos chamados estabelecimentos parceiros, já que os recursos públicos destinados à AEFE não acompanharam o crescimento. 

Para Xavier Auger, secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde, que representa profissionais das escolas de gestão direta da AEFE em uma das principais centrais sindicais da França, a expansão está sendo conduzida sem as verbas necessárias. "A estratégia de aumento do número de alunos está sendo realizada sem qualquer acréscimo no financiamento público. Pelo contrário, há uma redução dessa verba", afirma. 

Segundo ele, a agência também foi obrigada a absorver custos adicionais relacionados às aposentadorias dos funcionários públicos franceses enviados para atuar na rede no exterior. 

"Esse custo é repassado diretamente e distribuído entre as diferentes escolas, o que provoca um aumento expressivo, entre 5% e 15%, nas mensalidades pagas pelos pais. Isso resulta em uma fragilização dos estabelecimentos de ensino e da própria rede", opina Auger. 

O secretário-geral do sindicato CFDT Éducation Monde também critica a redução do número de professores enviados pela França para atuar no exterior: "Esta reforma é acompanhada por uma redução drástica no número de postos de professores enviados pela Educação Nacional francesa". 

Para o sindicalista, o modelo enfraquece gradualmente a vocação de serviço público da AEFE e aumenta o risco de dependência de operadores privados para garantir o crescimento da rede. Ele alerta ainda para dificuldades de formação e recrutamento de docentes, e teme que isso possa afetar a qualidade pedagógica oferecida pelas escolas.

Governo fala em modernização e estratégia internacional 

O governo francês argumenta que quer aumentar subvenções para a presença dos liceus (ensino médio) em países considerados prioritários. Algo que, na época da criação da agência, não teria sido pensado de forma estratégica. Além do Brasil, entre os países no centro da reforma da rede de liceus franceses da AEFE estão Estados Unidos, Costa do Marfim, Nigéria, República Democrática do Congo e Egito.

Para a ministra encarregada da Francofonia, Parcerias Internacionais e dos Franceses do Exterior, Éléonore Caroit, a reforma é uma modernização necessária para adaptar a agência às transformações demográficas e educacionais das últimas décadas. 

"O que está acontecendo hoje não é uma crise da AEFE, mas uma reforma desejada, decidida pelo governo, porque é uma agência do Estado que recebe o maior financiamento do meu ministério", afirma Éléonore Caroit. 

Segundo a ministra, a rede de ensino no exterior constitui uma das principais ferramentas da política externa francesa. "Para nós, esta é a política exterior mais importante; é uma política de influência, de transmissão da francofonia, dos valores da educação francesa".

No entanto, ela compreende as preocupações levantadas pelos mais críticos às mudanças. "Eu entendo que toda reforma pode ser vista com certa preocupação e que é muito importante falar, ouvir e trabalhar com todo o ecossistema, o que nós estamos fazendo", diz. 

Brasil entre os países prioritários 

Dentro dessa nova reforma, o Brasil aparece entre os chamados países prioritários identificados pelas autoridades francesas para o desenvolvimento da rede. Caroit detalha que a intenção é reforçar a atuação francesa em mercados considerados estratégicos para a francofonia e para a influência cultural da França. 

A ministra também rebate críticas sobre um eventual aumento generalizado das mensalidades. Ela conta que o objetivo é oferecer previsibilidade às famílias interessadas na educação francesa. "A ideia da reforma é garantir a todo pai, seja francês ou estrangeiro, que decida escolher o ensino francês para seus filhos, saber quanto esse ensino vai custar a longo prazo." 

Éléonore Caroit garante que bolsas escolares destinadas às famílias francesas continuarão sendo financiadas pelo governo. 

Eléonore Caroit, ministra delegada responsável pela Francofonia, Parcerias Internacionais e Franceses no Exterior, no estúdio da RFI em 28 de outubro de 2025.
Eléonore Caroit, ministra delegada responsável pela Francofonia, Parcerias Internacionais e Franceses no Exterior, no estúdio da RFI em 28 de outubro de 2025.
Foto: RFI

Liceu Francês de São Paulo aposta em crescimento gradual 

Um dos maiores estabelecimentos da rede na América Latina e o maior do Brasil, o Liceu Internacional Francês de São Paulo registrou mais 36% de procura por vagas nos últimos semestres letivos e pretende aumentar o número de alunos de 1.250 para 1.500 em 2027, após passar por uma fase de fortalecimento com mudanças administrativas ocorridas nos últimos anos. 

Bruno Hirm-Martin, diretor da instituição, defende melhorias de base para um crescimento qualitativo da unidade. "O projeto da Fundação do Liceu Francês de São Paulo e da AEFE é desenvolver o liceu aqui em São Paulo. Mas primeiro quisemos fortalecer o estabelecimento de ensino, que estava em dificuldades financeiras devido à cisão da antiga mantenedora. Vamos primeiro desenvolver os prédios e a oferta educativa, com o objetivo de crescimento de alunos qualitativo. Pois queremos primeiro a capacitação dos funcionários e dos professores", destaca.  

Ele confirma que o governo francês vê o Brasil como um potencial mercado de expansão de sua rede de influência por meio da educação. "O Ministério e a agência decidiram focar em 11 países prioritários, entre os quais está o Brasil. A França considerou e segue considerando que o Brasil tem um potencial para desenvolver o ensino francês", indica.

O caso brasileiro ilustra um dos principais dilemas enfrentados atualmente pela AEFE. De um lado, a demanda crescente pelo ensino francês e a ambição de ampliar a influência da França em países estratégicos. De outro, as críticas de sindicatos e parte dos parlamentares, que temem que a expansão da rede dependa cada vez mais de operadores privados e de um enfraquecimento gradual do modelo historicamente associado ao serviço público francês no exterior. 

O Lycée International Français de São Paulo está localizado no bairro da Vila Mariana, na zona sul da capital paulista.
O Lycée International Français de São Paulo está localizado no bairro da Vila Mariana, na zona sul da capital paulista.
Foto: RFI
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