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'Exército de Lula' no WhatsApp: TSE não encontra notícias falsas apontadas por campanha de Flavio Bolsonaro

Tribunal tomou sequência de decisões banindo e, posteriormente, liberando comunidade pró-Lula administrada pelo deputado André Janones (Rede-MG). Após liberação do canal, Kássio Nunes Marques ordenou investigação.

11 out 2026 - 20h40
(atualizado em 12/10/2026 às 16h10)
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Resumo
Uma apuração da Assessoria de Desinformação do TSE não encontrou as fake news denunciadas pela campanha de Flávio Bolsonaro no canal de WhatsApp "Exército de Lula", administrado por André Janones. O relatório apontou, contudo, atuação coordenada e linguagem polarizadora no grupo. A análise decorre de uma disputa judicial na Corte: o canal chegou a ser suspenso por Kássio Nunes Marques, mas foi restabelecido pelo corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva até o julgamento definitivo pelo plenário.
André Janones administra o canal 'Exército de Lula' no WhatsApp
André Janones administra o canal 'Exército de Lula' no WhatsApp
Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados / BBC News Brasil

Uma investigação preliminar conduzida pela Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontou que não foram encontradas publicações com supostas notícias falsas denunciadas pela campanha do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), entre o conteúdo divulgado pelo canal de WhatsApp "Exército de Lula", administrado pelo deputado federal André Janones (PL-MG).

O parlamentar é aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição.

A análise compreendeu o período entre 2 e 11 de outubro deste ano. A análise foi feita por determinação do presidente do TSE, o ministro Kássio Nunes Marques, após um pedido da candidatura de Flávio para derrubar o canal.

O canal chegou a ser derrubado por decisão de Marques, no domingo (11/10), mas a decisão foi revertida no mesmo dia por outra decisão, do corregedor do TSE, ministro Ricardo Villas-Boas Cuêva. Apesar da reversão de sua ordem, Nunes Marques determinou uma investigação pela AEED sobre a atuação do canal.

A investigação é o episódio mais recente da batalha jurídica em curso no TSE que começou no dia 7 de outubro, quando a campanha de Flávio pediu a derrubada do canal à Justiça Eleitoral sob a alegação de que ele estaria divulgando notícias falsas.

Entre as supostas notícias falsas estariam a de que Flávio pretenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, o seu suposto envolvimento com milícias no Rio de Janeiro, a redução de aposentadorias e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), além do cancelamento do reajuste do Bolsa Família.

O relatório, assinado pelo Assessor Especial de Enfrentamento à Desinformação, Frederico Franco Alvim, disse não ter identificado o conteúdo citado pela defesa da campanha de Flávio.

"Quanto à circulação de conteúdos idênticos ou substancialmente equivalentes, não foram localizadas, entre as publicações do canal no período de 2 a 11 de outubro de 2026, reproduções das afirmações examinadas nos autos. A verificação abrangeu os textos das mensagens, as pré-visualizações de links, inclusive as miniaturas e os títulos dos vídeos vinculados, assim como os áudios transcritos.", diz um trecho do documento.

O parecer ressalva que publicações anteriores feitas em setembro e apontadas na inicial situavam-se fora do intervalo examinado, podendo ter sido editadas ou apagadas antes da verificação.

Apesar de não constatar a circulação direta do conteúdo citado pela defesa de Flávio, o documento faz uma análise sobre a linguagem e a possível coordenação do grupo.

Segundo o documento, há evidências de coordenação e centralização do grupo na disseminação de conteúdos e na orientação de seguidores.

"Os elementos verificados indicam atuação coordenada, centralizada e sincronizada, voltada a ampliar a circulação e a visibilidade de conteúdos no WhatsApp e em outras plataformas.", diz o documento sem mencionar se esse tipo de prática seria legal ou não.

A perícia do TSE apontou que o canal funcionava por meio do envio de instruções sob a forma de "missões" diárias e que estratégia permitiu que o canal saísse de 55 mil inscritos para 3,3 milhões de seguidores em seis dias de mobilização.

O documento faz, ainda, uma análise sobre o tipo de linguagem usado pelo grupo. De acordo com o parecer, a comunicação interna apoiava-se sistematicamente em uma linguagem militar e polarizadora.

"Registra-se, ainda, nas mensagens examinadas, o emprego recorrente de uma linguagem polarizadora, que tende a estabelecer uma lógica de confronto potencialmente contrária à condição das eleições como um substitutivo do conflito", diz o documento.

O documento agora deverá ser encaminhado à Presidência do TSE e poderá ser usado por Nunes Marques para embasar possíveis novas decisões sobre o canal.

Na decisão em que determinou a investigação sobre o canal, Nunes Marques ordenou que o funcionamento do canal seja analisado, "com a máxima urgência", pela Assessoria de Enfrentamento à Desinformação do TSE".

Esta assessoria é um órgão criado dentro do TSE que avalia a eventual disseminação de desinformação sobre a integridade do sistema eleitoral e a respeito das campanhas em curso.

O magistrado também determinou que a unidade informe se identificou a disseminação de informações do canal "Exército de Lula" em outros canais ou plataformas digitais e se ele faria parte de algum tipo de ação coordenada.

A batalha judicial em torno do canal tem origem em uma ação de investigação judicial eleitoral (AIJE) ajuizada pela campanha de Flávio no TSE na noite da última quarta-feira (7/10).

No sábado (10/10), o corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, deu 72 horas para que a equipe de Flávio desse maiores esclarecimentos sobre as medidas solicitadas — como a existência de demandas parecidas em outros processos protocolados na Justiça Eleitoral — e decidiu que analisaria o mérito passado esse período.

Na manhã de domingo, contudo, uma decisão de Nunes Marques acatou o pedido da campanha de Flávio, dando três horas para que a Meta suspendesse o canal e o mantivesse desativado até a homologação do resultado das eleições de 2026, entre outras deliberações.

Na decisão, o ministro colocou que a mobilização digital de eleitores é lícita e que o problema seria a natureza do conteúdo compartilhado. "O que a norma não tolera é que a estrutura de mobilização seja empregada para fins ilícitos, entre os quais a difusão coordenada de fatos sabidamente inverídicos em desfavor de candidato", escreveu Nunes Marques.

Na ação, a campanha de Flávio afirma que o "Exército de Lula", que cresceu e chegou aos mais de três milhões de inscritos após o primeiro turno, repassa "missões" aos inscritos para que engajem com posts com "conteúdos desinformativos e ofensivos" com o objetivo de ampliar seu alcance.

"O que o canal manda repetir são, em grande medida, afirmações que esta Corte já reconheceu como inverídicas em processos movidos contra o próprio administrador, como a de que o requerente pretenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, a de que estaria 'envolvido com a milícia' e as de que reduziria aposentadorias, pensões e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou teria mandado cancelar o reajuste do Bolsa Família", enumerou Nunes Marques, citando os argumentos do pedido da campanha de Flávio.

Horas depois, uma nova manifestação do ministro Ricardo Villas Bôas Cueva determinou o restabelecimento provisório do canal.

Decisões do corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, e do presidente da corte, Nunes Marques, foram em direções opostas
Decisões do corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, e do presidente da corte, Nunes Marques, foram em direções opostas
Foto: Luiz Roberto/TSE e Leobark Rodrigues/Secom/TSE / BBC News Brasil

Cueva relatou que a campanha de Flávio recorreu a Nunes Marques logo após sua decisão que estipulou o prazo de 72 horas para prestação de esclarecimentos:

"Em 10/10/2026, às 15h43, determinei a regularização da instrução probatória e a prestação de esclarecimentos, reservando o exame das medidas cautelares. Às 16h24 do mesmo dia, apenas 41 minutos após aquele pronunciamento, o mesmo investigante apresentou à Presidência deste Tribunal pedido de providências administrativas destinado, entre outras medidas, à suspensão do mesmo canal."

E criticou a atuação de Nunes Marques, que, segundo ele, tomou decisão sobre um caso que já tramitava em outra unidade da Justiça Eleitoral: "Em regra, uma vez submetida determinada controvérsia à apreciação jurisdicional do órgão competente, a prudência institucional recomenda que a atuação administrativa não antecipe a solução da mesma pretensão, sob pena de comprometer a coerência das decisões e a segurança jurídica."

O ministro Cueva afirmou que a decisão de suspender o canal se trataria "de restrição direta ao funcionamento de um meio de comunicação eleitoral, com efeitos imediatos sobre o exercício da liberdade de expressão".

E decidiu pelo seu restabelecimento provisório até que o plenário da corte analise o caso, apontando que, a partir das evidências apresentadas até o momento, não era possível identificar elementos suficientes que justificassem a suspensão integral do canal.

Cueva ressaltou que a medida não autoriza, entretanto, a divulgação ou reprodução de conteúdos que já tenham sido apontados como inverídicos pela corte, "especialmente aqueles considerados sabidamente inverídicos ou gravemente descontextualizados".

"A eventual reiteração sistemática e massiva dessas publicações, devidamente demonstrada, poderá justificar a adoção de medidas progressivamente mais restritivas, inclusive nova suspensão temporária do canal, mediante decisão jurisdicional fundamentada desta Corregedoria que considere a gravidade das condutas, sua extensão e a insuficiência de providências individualizadas", alertou.

A palavra final caberá ao plenário do TSE, a quem o ministro submeteu a análise da decisão pedindo sua inclusão "na primeira sessão virtual regimentalmente disponível, com apreciação urgente, preferencialmente em até 24 horas".

Em meio a essa batalha, Nunes Marques também convocou uma reunião com as coordenações jurídicas das campanhas de Flávio e Lula a ser realizada na terça-feira (12/10). A ideia, segundo os veículos, diminuir as tensões entre as duas campanhas em um momento em que as decisões da Corte passam a ser questionadas publicamente pela candidatura de Lula. A reunião foi noticiada pela CNN Brasil e pelo jornal O Globo.

Montagem com fotos em close de Flávio Bolsonaro e Lula
Montagem com fotos em close de Flávio Bolsonaro e Lula
Foto: Reuters e EPA/Shutterstock / BBC News Brasil

Reações de Flávio, Lula e Janones

Por meio de nota, a campanha de Flávio Bolsonaro argumentou que as ações enviadas à Corregedoria e à Presidência da Justiça Eleitoral possuem conteúdos distintos e disse considerar "estarrecedora a adoção de decisões que revelam complacência com a descarada disseminação de fake news a favor de Lula".

Lula, por sua vez, criticou a decisão de Nunes Marques de suspender o canal. "Um absurdo", declarou o presidente a jornalistas pouco antes do início de um ato neste domingo na avenida Paulista, em São Paulo, segundo a comunicação do PT.

"Os nossos advogados vão ter que pedir explicação ao presidente da corte eleitoral, porque já há alguns dias eu estou percebendo que há muitas decisões tendenciosas contra a nossa candidatura."

Janones comemorou nas redes sociais: "Depois da tentativa de censura, o canal "Exército de Lula" no WhatsApp já ganhou 500 mil novos seguidores e não para de crescer! Acordaram o gigante! Continuem convidando mais pessoas pra lá!", escreveu no X.

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