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Desejo de mudança impulsionou Flávio; Lula leu mal o eleitorado, diz cientista político

A vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições no Brasil pode ser explicada por dois fatores principais: as pesquisas voltaram a subestimar o eleitorado bolsonarista e a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva interpretou de forma equivocada o desejo de mudança manifestado pelos eleitores, avalia o cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics (LSE).

5 out 2026 - 13h06
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Resumo
Flávio Bolsonaro superou as pesquisas impulsionado pelo anseio de mudança do eleitorado, enquanto Lula errou ao apostar na continuidade, segundo análise política. O bolsonarismo saiu fortalecido, conquistando bancadas históricas no Congresso que terão impacto prolongado. Para o segundo turno, o petista precisará rever sua estratégia, atrair abstenções e indecisos para reverter a desvantagem, podendo ser beneficiado pelo reajuste do Bolsa Família na reta final de uma disputa ainda em aberto.

Adriana Moysés, da RFI em Paris

Para Estrada, o resultado confirmou uma tendência já observada nas disputas presidenciais de 2018 e 2022: as pesquisas têm dificuldade em captar o tamanho real do eleitorado bolsonarista nos últimos dias de campanha. Segundo ele, a votação de Lula ficou próxima das projeções dos institutos, enquanto Flávio Bolsonaro voltou a superar as expectativas. "Há muito claramente essa situação em que as pesquisas erram ao estimar o número de eleitores do bolsonarismo", afirmou.

O cientista político também identifica um erro de diagnóstico na campanha petista. Em sua avaliação, Lula disputou a eleição sob a premissa de que o eleitorado buscava a continuidade das políticas implementadas durante seu governo, quando os resultados das urnas apontam justamente para uma demanda por mudanças.

"O próprio slogan da campanha do presidente Lula, 'Brasil pronto para mais', sinaliza justamente uma vontade de continuidade com as políticas públicas atuais", observou. Para Estrada, a composição do futuro Congresso e o desempenho da direita nas urnas mostram que uma parcela significativa dos eleitores deseja uma mudança de rumo. "O que demonstra esta eleição, e em particular o Legislativo, é que há um grande sentimento de mudança", resumiu.

Embora a campanha petista tenha incorporado esse discurso nas semanas finais da corrida eleitoral, a correção de rota teria ocorrido tarde demais. "É evidente que isso hoje é insuficiente, sem uma chacoalhada geral e uma mudança de rota no discurso", avaliou.

O pesquisador afirma que o presidente precisará promover uma revisão profunda da estratégia para o segundo turno. Na sua análise, não bastará mobilizar a base tradicional do lulismo. Será necessário convencer os eleitores indecisos e aqueles que deixaram de comparecer às urnas de que um novo mandato pode produzir transformações concretas em suas vidas.

Estrada observa, porém, que ainda há fatores capazes de influenciar a mobilização do eleitorado na reta final da campanha. Entre eles está o pagamento do Bolsa Família com o reajuste de 15% anunciado por Lula em meados de setembro, previsto para 19 de outubro, na semana do segundo turno. Na avaliação do cientista político, a medida pode ter reflexos sobre a participação eleitoral e ajudar o presidente a recuperar parte da desvantagem registrada no primeiro turno.

O cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics.
O cientista político Gaspard Estrada, membro da unidade Sul Global da London School of Economics.
Foto: RFI

Fortalecimento do bolsonarismo no Congresso

Estrada considera especialmente relevante o fortalecimento institucional do bolsonarismo no Congresso Nacional. Segundo ele, a ampliação da bancada do PL no Senado terá consequências que ultrapassam a atual disputa presidencial.

"Esse resultado é muito significativo politicamente", afirmou. O cientista político lembra que os senadores exercem mandatos de oito anos e possuem prerrogativas decisivas em temas como a aprovação de autoridades, a composição do Supremo Tribunal Federal e eventuais processos de impeachment. "A consequência política disso vai além de um [eventual] mandato de Flávio Bolsonaro", destacou.

Na Câmara dos Deputados, ele vê outro dado histórico. Estrada observa que a reforma eleitoral aprovada para reduzir a fragmentação partidária está produzindo um Parlamento com menos legendas relevantes. O principal beneficiário desse processo, afirma, foi o bolsonarismo, que alcançou um resultado recorde de 121 deputados federais.

"Quem é o maior beneficiário político desta situação é o bolsonarismo", afirmou. Segundo o pesquisador, trata-se de um desempenho que não era registrado no país desde 1994.

Questionado sobre a reeleição de políticos envolvidos em denúncias de corrupção, desvio de recursos públicos e lavagem de dinheiro, como no caso Master, Estrada rejeita a ideia de que o tema tenha deixado de influenciar o comportamento dos eleitores. Para ele, a corrupção continua sendo um fator importante na política brasileira, mas sua capacidade de influenciar o voto varia de acordo com a identidade política do eleitor.

"Quando o escândalo de corrupção chega ao bolsonarismo, isso não tem uma variável realmente forte para explicar o voto", afirmou. Já quando as denúncias atingem adversários políticos, especialmente ligados ao PT, o impacto tende a ser maior. "Quando é na oposição ao Partido dos Trabalhadores, aí sim essa corrupção tem um resultado prático", concluiu.

Apesar da vantagem obtida por Flávio Bolsonaro no primeiro turno e do fortalecimento do bolsonarismo no Congresso, Estrada não considera a eleição decidida. Segundo ele, Lula ainda dispõe de reservas de votos entre os eleitores dos candidatos derrotados que não se identificam com a direita bolsonarista, além dos milhões de brasileiros que se abstiveram. Para o cientista político, a capacidade de mobilizar esse eleitorado será determinante para o resultado do segundo turno.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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