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Consulesa da França pede revisão de tratamentos às minorias

Alexandra é formada em ciências políticas e participou, no Rio de Janeiro, do debate Charlie Hebdo – Terrorismo e Liberdade

30 jan 2015 - 09h02
(atualizado às 09h19)
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Alexandra Baldeh Loras está no Rio de Janeiro
Alexandra Baldeh Loras está no Rio de Janeiro
Foto: Facebook / Reprodução

A consulesa da França no Brasil, Alexandra Baldeh Loras, disse na quinta-feira à Agência Brasil que é preciso que os valores de liberdade, igualdade e fraternidade defendidos por seus compatriotas sejam estendidos às minorias que vivem em seu país e são também francesas. De origem judaica e muçulmana, Alexandra é formada em ciências políticas e participou, no Rio de Janeiro, do debate Charlie Hebdo – Terrorismo e Liberdade, promovido pelo Centro  Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

O que deixou a consulesa perplexa e angustiada no recente ataque ao jornal Charlie Hebdo, em Paris, quando 12 pessoas foram mortas na redação, foi o fato de que os criminosos eram também franceses. “Foi muito visceral ver minha pátria ser atacada internamente, pelos próprios franceses. Porque o terrorismo não é só de extremistas. Os irmãos (Said e Chérif) Kouachi (que assumiram o crime em nome de um grupo extremista) ficaram quatro meses no Iêmen para ser treinados, mas viveram  décadas na França. Então, a  identidade profunda deles é francesa”, destacou.

Para Alexandra, a real motivação dos irmãos Kouachi não foi a caricatura do profeta Maomé, mas o desejo de lutar por uma causa para curar uma ferida ainda maior, que é a da identidade, e o fato de eles não se sentirem franceses.

Alexandra considerou acertada a decisão do presidente François Hollande de destinar 500 milhões de euros para a luta antiterrorista, mas adiantou que o problema não está sendo tratado na raiz. “Temos que entender por que alguns dos nossos filhos franceses querem ir para esse lado escuro do terrorismo”. Como cidadã francesa, “negra, de origem judaica e muçulmana, e como jornalista também”, ela disse ter percebido que a ética jornalística não está em prática atualmente. “Não há mais jornalismo de investigação, subjetivo e que olhe todo o painel da diversidade de opiniões. Hoje, o que temos que fazer é produzir conteúdo para vender anúncio. Não verificamos mais informações”, criticou.

A consulesa da França disse que embora ame seu país e os valores de abertura, tolerância e amor, vê que ainda existem preconceitos e discriminações em relação às minorias das quais ela mesma faz parte. “Nasci em um gueto parisiense, e embora esteja hoje na elite, conheço os dois lados. Tenho um irmão que caiu no crack e uma irmã que é faxineira. Por isso, convivo e conheço o que são os dois lados. O problema é que as mídias não nos deixam falar”, disse ela.

Alexandra relatou que apesar de  casada com um diplomata, mesmo portando passaporte diplomático, ela  tem que abrir a mala nos aeroportos por onde passa, devido ao preconceito em relação à cor de sua pele. “É muito ofensivo”. Uma solução, segundo ela, seria uma mudança na Constituição da França, que prega liberdade, igualdade e fraternidade para todos, quando, na prática, isso não acontece. “Não podemos dividir as pessoas por etnias ou minorias. É uma coisa velada”. Destacou também que as pessoas que fazem as leis são, em sua maioria, homens, brancos, da elite, que “não convivem com a realidade”.

É preciso abrir o debate, segundo ela, com participação de todos os segmentos da sociedade para evitar o incitamento ao ódio social. Na avaliação da consulesa, os franceses estão repetindo hoje o que fizeram com os judeus na 2ª Guerra Mundial, “quando excluímos uma parte da população e mandamos para os campos de extermínio. Isso também é um tabu para a França”. O país tem que assumir o seu passado de 400 anos de escravidão e 300 anos de colonização, “que são a riqueza da França hoje”. Lembrou que esses povos lutaram para que a França se tornasse um país livre e, depois, árabes e africanos ajudaram a reconstruir a França, “e hoje não queremos ver a figura da França multicultural, multirracial, que é uma coisa maravilhosa” - lamentou.

Ela defendeu que se coloque nos livros escolares do ensino nacional as grandes figuras de negros, árabes, judeus, que ajudaram a história da França, para mostrar que todas as etnias trouxeram coisas boas para este mundo. Argumentou que em um mundo onde, no máximo, 30% são brancos, já não dá mais para escutar bobagens, como as que relatam que as coisas maravilhosas foram feitas somente por brancos.

Mesmo que perca a posição de consulesa, ela garantiu que não ficará quieta, e prometeu ser porta-voz das minorias. Disse  que não quer fazer política, mas somente compartilhar a sua experiência como francesa, como descendente de minorias, de imigrantes, “mas também francesa”. Sustentou que ainda existe apartheid social e racial na França. “É muito difícil você se desenvolver como ser humano quando vê só escravidão, colonização e, pelas mídias, só violência, apontando que você é violento, indesejável na França”, comentou.

Alexandra acrescentou que a Justiça praticada na França não é a mesma para quem comete corrupção - para branco, negro ou descendente de imigrantes. Esse conjunto de fatores acaba contribuindo para levar os jovens para o terrorismo contra os próprios franceses - sentenciou.

Agência Brasil Agência Brasil
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