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Brasil

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Com homenagem ao samba, Lavagem da Madeleine faz 'o show continuar' em Paris, apesar da mudança de local

O Brasil e a Bahia desembarcaram em Paris neste domingo (13) para celebrar a 25ª edição da Lavagem da Igreja da Madeleine, que homenageou o samba, como uma das "mais importantes expressões da identidade cultural brasileira". Realizada anualmente desde 2002 na capital francesa, a festividade já faz parte do calendário oficial da prefeitura parisiense. A cantora baiana Mariene de Castro foi a grande estrela a se apresentar este ano.

13 set 2026 - 15h42
(atualizado às 16h48)
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Resumo
A 25ª edição da Lavagem da Madeleine reuniu milhares de pessoas em Paris, com shows de Mariene de Castro e Jau e presença do padrinho Vincent Cassel. Apesar de a igreja barrar o acesso às escadarias de última hora — gerando críticas de intolerância —, a tradicional lavagem com água de cheiro pelas baianas ocorreu na praça em frente ao templo. O cortejo celebrou a resiliência da cultura afro-brasileira, contou com atos políticos pró-Lula e teve planos de expansão internacional anunciados.

Renan Tolentino, da RFI, em Paris

Idealizador do evento, o artista Robertinho Chaves celebrou a "resiliência" do evento, apesar da mudança de última hora, que impediu o acesso do cortejo à escadaria da igreja, onde habitualmente ocorre a tradicional lavagem feita pelas baianas.

"Esse ano o evento foi marcado por muita emoção, mas também pela resistência. Infelizmente não pudemos subir a escadaria para lavar (os degraus da Madeleine), como no passado. Mas fizemos a lavagem acontecer, a nossa resistência venceu. É uma alegria estar com todo mundo aqui celebrando a 25ª edição, com o apoio do Brasil, da Embratur e da prefeitura de Paris. Foi tudo muito emocionante. Mariene (de Castro) arrasou, Jau arrasou… e a festa continua", comemorou.

Diante do crescimento da festa, Robertinho projeta os próximos passos, com planos de expandir ainda mais as fronteiras de uma das maiores celebrações culturais brasileiras no exterior.

"A Lavagem para mim é um filho que cresceu e está ficando adulto, e agora está pronto para desbravar o mundo. Começou pequenininha, mas hoje já está em Portugal e queremos ir para a Nigéria", contou Robertinho.

Responsável pela parte religiosa, o babalorixá Pai Pote, de Santo Amaro (BA), destaca a diversidade da lavagem, que atrai diferentes tipos de público, entre brasileiros e estrangeiros, há mais de duas décadas.

"Foi tudo maravilhoso. Como sempre, é um evento do 'povão' negro, da resistência da mulher, contra a homofobia, contra o racismo e a intolerância religiosa e todo tipo de discriminação. Axé para todos!", disse o líder religioso.

"Amor histórico"

Padrinho da Lavagem da Madeleine, o ator francês Vincent Cassel marcou presença nesta 25ª edição
Padrinho da Lavagem da Madeleine, o ator francês Vincent Cassel marcou presença nesta 25ª edição
Foto: RFI

Padrinho do evento, ao lado da apresentadora carioca Cristina Cordula, o ator francês Vincent Cassel marcou presença nesta 25ª edição. Em entrevista à RFI, ele destacou "o amor entre o Brasil e a França", expresso por meio da Lavagem da Madeleine.

"Sejam bem-vindos aqui nesta festa maravilhosa, o maior evento brasileiro na Europa. Tenho muito orgulho de fazer parte disso como padrinho, já há sete anos", disse o artista, que tem uma forte ligação com o Brasil.

"É um evento sempre lindo… olha o sorriso no rosto das pessoas! É maravilhoso. O amor entre o Brasil e a França é uma coisa histórica", resumiu Vincent Cassel.

"O show tem que continuar"

Inspirada na centenária lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, a edição de 2026 do evento não pôde repetir a tradição de décadas. Isso porque, este ano, o cortejo não teve acesso liberado às escadarias da Madeleine para fazer a lavagem.

O local está em obras. Entretanto, segundo a organização, essa informação não foi apresentada como justificativa para a alteração, comunicada dias antes pelo pároco da Igreja da Madeleine, Monsenhor Patrick Chauvet.

Artistas e participantes lamentaram a mudança, ao mesmo tempo em que se mostraram dispostos a fazer o "show continuar", faça chuva ou faça sol.

"Foi muito desrespeitoso. Eles poderiam ter dito antes, mas avisaram em cima da hora. E até agora não sabemos o porquê, uma vez que esse é um movimento tão bonito, sincrético e respeitoso", opina a baiana Ana, de 57 anos, quevive na Bélgica. Esta é a quarta vez que ela marca presença na festividade em Paris, junto com as amigas.

"Como eu sou da Bahia, é bom relembrar o que acontece em Salvador, na lavagem das escadarias do Senhor do Bonfim, da qual eu participo todos os anos também", acrescenta.

Inspirada na centenária lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, o evento em Paris reuniu multidão pelas ruas da capital francesa.
Inspirada na centenária lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador, o evento em Paris reuniu multidão pelas ruas da capital francesa.
Foto: RFI

Pai Pote, por sua vez, acredita que a mudança, comunicada em cima da hora, "mostra o racismo e a intolerância contra o povo negro". "Mas estamos felizes em ter prosseguido com a lavagem (...) Não muda nada para nós", assegura.

Como de costume, o cortejo com milhares de pessoas saiu da Praça de la République, no centro da capital francesa, percorrendo quase 4 km até a Igreja da Madeleine, no 8⁠º distrito. Além de Mariene de Castro, os músicos Jau, Gildaa e Lorena Pires também se apresentaram ao longo do percurso.

O evento se encerrou com a tradicional lavagem, dessa vez na praça em frente à igreja da Madeleine, feita pelas baianas com a bênção de Pai Pote. Durante o ritual, foi jogada água de cheiro, com pétalas de flores, no público e no solo da praça. Em seguida, completando o ciclo, tudo é varrido pelas baianas, que vieram até Paris para fazer "o amor continuar", enquanto o povo pedia "bis", como diz um trecho do samba "O show tem que continuar", do grupo Fundo de Quintal. 

Manifestações políticas

Parte do público aproveitou a Lavagem da Madeleine para se manifestar politicamente. Durante o cortejo, grupo de militantes portava cartazes em apoio ao presidente Lula (PT).
Parte do público aproveitou a Lavagem da Madeleine para se manifestar politicamente. Durante o cortejo, grupo de militantes portava cartazes em apoio ao presidente Lula (PT).
Foto: RFI

Parte do público aproveitou a Lavagem da Madeleine também para se manifestar politicamente. Durante o cortejo, um grupo de militantes portava cartazes e bandeiras em apoio ao presidente Lula (PT), candidato nas eleições presidenciais de outubro.

"O evento é aberto para todos se manifestarem, para a paz. Então, todos os anos fazemos essa manifestação política aqui (...) para mostrar aos franceses e reunir os brasileiros de Paris que apoiam a candidatura do Lula à presidência", disse Mabel, mineira que vive há 50 anos na França.

Espaço de pesquisa

Presente no evento deste ano, a pesquisadora Louyse Gerardo, que faz doutorado na Universidade do Minho, em Portugal, estuda tanto a Lavagem da Madeleine, em Paris, quanto a da Igreja de Santo Antônio, em Lisboa, feita pelos mesmos organizadores.

Ela conta que o objetivo do trabalho é comparar as duas festividades com a que acontece em Salvador, para compreender como territórios estrangeiros recebem essas expressões culturais brasileiras.

"A pesquisa que eu faço é justamente para entender esse espaço que é criado enquanto a gente tem esses cortejos em contextos fora do Brasil. O objetivo é comparar o evento que acontece aqui, em Paris, com o que acontece em Lisboa, e perceber como essa cultura é recebida em espaços estrangeiros, como de certa forma isso foi para o Brasil e retornou para a Europa repaginado", explica.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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