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70% dos brasileiros acreditam que homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com mulheres, aponta estudo

Pesquisa mostra ainda que 43% dos brasileiros acreditam que a promoção da igualdade das mulheres foi tão longe a ponto de homens serem hoje discriminados.

7 mar 2026 - 14h27
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Grupo de mulheres levantando cartazes durante manifestação contra o feminicídio em dezembro de 2025.
Grupo de mulheres levantando cartazes durante manifestação contra o feminicídio em dezembro de 2025.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com as mulheres. Essa é a opinião de 70% dos brasileiros que responderam a uma pesquisa que investigou a opinião sobre questões de gênero em 29 países.

O índice de concordância com essa visão no Brasil ficou bem acima da média global, de 46%, e foi o mais alto dentre todos os países do levantamento, ao lado da Índia, também com 70%, seguidos por Malásia (68%) e Indonésia (64%).

Mas o Brasil aparece em primeiro no ranking deste ponto porque, entre os brasileiros, o percentual dos que discordam foi de 21%, menor do que entre os 27% registrados entre os indianos.

Quando os resultados são separados entre homens e mulheres, há praticamente um empate, com um nível de concordância ligeiramente maior entre as mulheres, de 71%, enquanto 69% dos homens disseram o mesmo.

Ao mesmo tempo, a maioria dos participantes brasileiros da pesquisa (52%) avaliam que a igualdade de direitos entre homens e mulheres "já avançou o suficiente" no país, um aumento de dez pontos percentuais em relação a um levantamento anterior realizado em 2019.

A pesquisa mostra ainda que 43% dos brasileiros acreditam que a promoção da igualdade das mulheres foi tão longe a ponto de homens serem hoje discriminados. Essa opinião é mais comum entre homens (50%), mas uma parcela relevante das mulheres (36%) compartilha dela.

Entre os brasileiros, aponta o levantamento, 38% se identificam como feministas — 30% entre os homens e 47% entre as mulheres.

Para Catarina de Almeida Santos, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero da Universidade de Brasília (UnB), esses dados ilustram uma reação conservadora ao maior debate sobre igualdade de gênero e dos direitos mulheres no Brasil.

"Quanto mais as mulheres abrem a boca, mais tem uma reação mais violenta", diz Santos.

"O debate crescer não significa que a gente avançou objetivamente. Você debate mais, mas não significa que na prática a gente fez isso."

Mulheres durante manifestação segurando uma faixa "Feminismo é revolução"
Mulheres durante manifestação segurando uma faixa "Feminismo é revolução"
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Beatriz Besen, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, chama atenção para o fato de que o Brasil aparece no levantamento ao lado de Índia, Malásia e Indonésia — países onde as transformações nas relações de gênero foram rápidas e concentradas no tempo, diferentemente de países europeus onde essas mudanças ocorreram de forma mais gradual ao longo do século 20.

"Isso faz com que novos valores convivam com estruturas normativas mais antigas", diz Besen.

"Discursos que afirmam uma assimetria ou injustiça dirigida aos homens tendem a encontrar maior ressonância social."

Para a pesquisadora Letícia Oliveira, que estuda o conservadorismo no Brasil, o empate entre homens e mulheres no Brasil reflete a penetração de um discurso antifeminista que não chegou só pelos homens.

"A gente teve, ao mesmo tempo, o discurso misógino voltado para homens e o discurso antifeminista voltado para as mulheres", diz Oliveira.

O conservadorismo da geração Z

O levantamento do King's College também mostrou que, globalmente, os homens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) têm visões sobre papéis de gênero mais conservadoras do que a geração dos baby boomers (1945 a 1965).

Segundo o levantamento, feito com 23 mil pessoas, 31% dos homens da geração Z concordam que "a esposa deve obedecer ao marido" — contra 13% dos boomers.

Um terço acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões do casal, ante 17% dos boomers.

Cerca de um em cada quatro acredita que "uma mulher não deveria parecer independente demais ou autossuficiente" — o dobro do percentual entre os mais velhos.

E 59% sentem que os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade de gênero, contra 45% dos boomers.

Ao mesmo tempo, 41% dos homens da geração Z dizem achar mulheres com carreiras de sucesso mais atraentes — percentual bem maior do que entre os boomers, que ficam em 27%. Querem, ao mesmo tempo, uma companheira realizada e submissa.

Para Catarina Santos, da UnB, a contradição se desfaz quando se entende o que está por trás da atração.

"Ela é atraente, porque ela tem um cargo, inclusive para me servir melhor. Ela vai cozinhar, vai lavar minha roupa e ainda vai prover para mim", diz Santos.

"Isso não significa que ela é livre. Ela pode trabalhar, contanto que a última palavra sobre o que ela vai fazer passe pela decisão dos homens."

A machosfera e o algoritmo

Um homem em frente a um computador
Um homem em frente a um computador
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Para entender por que essa virada acontece justamente na geração que cresceu com smartphone na mão, é preciso olhar para o ambiente onde esses jovens se socializam, dizem as especialistas ouvidas pela reportagem.

Letícia Oliveira acompanha casos de radicalização de adolescentes e trabalha com professores para identificar sinais de alerta.

Ela descreve um caminho que se repete: o menino chega à adolescência sem perspectiva clara de futuro, de trabalho, de família, de estabilidade, não encontra espaço para falar sobre isso com adultos, vai buscar pertencimento online e cai em grupos onde o discurso misógino já está instalado.

"A adolescência é a fase onde você está se descobrindo, já não vai mais pela cabeça dos seus pais", diz Oliveira.

"Você entra na internet para conversar com seus pares. E aí a gente vai para os fóruns, para os grupos de Discord, para os grupos gamers — e nesses espaços eles começam a ter acesso a grupos da machosfera que tratam mulheres como seres inferiores."

Santos aponta que as plataformas têm papel ativo nisso. "A rede é uma ferramenta utilizada para manter os privilégios. A quem o algoritmo vai servir? Se a gente pega a internet, que em tese era uma ferramenta muito mais democrática, a gente está descobrindo que não é verdade."

Besen aponta que, nos últimos anos, esse discurso deixou as margens. "Consolidou-se um ecossistema relativamente amplo de produção antifeminista dentro das direitas radicais", diz ela.

"Isso inclui redes online, produção editorial e influenciadores ligados a movimentos masculinistas que interpretam as transformações de gênero pela chave da injustiça."

Oliveira reforça a dimensão econômica do fenômeno. "As plataformas perceberam que conteúdo de ódio gera engajamento. Isso começa a dar dinheiro", diz.

"A gente tem, de 2010 para cá, movimentos que estavam nas franjas da sociedade virando mainstream."

No Instagram, influenciadoras consolidaram audiências com conteúdo que questiona o feminismo ou promove papéis tradicionais de gênero. A maioria não se nomeia antifeminista. Seu discurso é calcado em conselhos sobre espiritualidade, estética e relacionamento.

No cenário político, o antifeminismo é defendido por lideranças como a deputada federal Ana Campagnolo (PL-SC) e a senadora Damares Alves (PL-DF), que formam suas bases políticas em movimentos anti-aborto e cristãos conservadores.

Santos observa que as mulheres que se destacam nesse ecossistema seguem um padrão: "As mulheres que a política permite, que a igreja permite que se destaquem, são aquelas que vão pregar o que eles estão defendendo."

'Fantasia de uma vida mais simples'

A ex-primeira-ministra australiana Julia Gillard, que hoje preside o Global Institute for Women's Leadership no King's College London, chama atenção para a popularidade do movimento em prol de que mulheres assumam papeis tradicionais em seus relacionamentos. Aquelas que defendem esse modelo de vida se intitulam tradwifes (esposas tradicionais, em inglês).

Para Gillard, o apelo dessa proposta não é necessariamente um desejo real de voltar ao passado ou resgatar um modo de vida tradicional, mas o cansaço de navegar um mundo que ainda não resolveu a equação do trabalho e da família para as mulheres.

Em entrevista à BBC, ela disse que pesquisas com jovens que consomem esse tipo de conteúdo mostram que elas não querem, de fato, ser tradwives, é uma fantasia sobre tirar dos próprios ombros todas as dificuldades de conciliar trabalho e vida familiar.

A pesquisa do King's College sugere que essa tensão é real e atravessa gêneros. Entre os homens Gen Z, 21% acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos masculinos contra 8% dos boomers. A pressão pelo papel de provedor não desapareceu; ela convive, de forma contraditória, com um mundo onde as mulheres trabalham, estudam e, em muitos lares brasileiros, sustentam a família sozinhas.

Gillard também aponta o que chama de "jogo de soma zero": a percepção de que mais direitos para as mulheres significam automaticamente menos para os homens. "Nós permitimos que essa impressão se instalasse. E ela é falsa."

Beatriz Besen aponta que a sensação de sobrecarga aparece como elemento transversal nas percepções sobre papéis de gênero.

"Para muitas mulheres, ela se expressa na dupla jornada e na persistência das responsabilidades de cuidado. Para parte dos homens, aparece a percepção de que continuam sendo cobrados por papéis tradicionais de provisão em um contexto econômico mais instável", diz a pesquisadora.

"A questão que permanece é como tornar visíveis as raízes estruturais dessa sensação de pressão, evitando que a solução se traduza no apoio à manutenção dos papéis de gênero tradicionais."

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