Brasil e Angola ampliam parceria no agronegócio
Área de 800 mil hectares para receber empresas brasileiras do agronegócio e investimentos para transformar potencial agrícola em produção foram destaques no Fórum do Agronegócio Angola-Brasil 2026
Transformar o enorme potencial agrícola de Angola em produção, empregos, segurança alimentar e exportações foi o principal objetivo do Fórum do Agronegócio Angola-Brasil 2026, realizado em Luanda. O encontro reuniu mais de 1.300 inscritos, com mais de 700 participantes presenciais, entre autoridades, empresários, investidores, pesquisadores e representantes dos dois países.
Organizado pelo LIDE Angola, o fórum marcou o lançamento oficial da entidade no país e sinalizou uma nova etapa nas relações bilaterais: a passagem de uma cooperação historicamente concentrada em pesquisa e formação para uma agenda voltada a investimentos produtivos, tecnologia, financiamento e desenvolvimento de cadeias de valor.
Entre as principais autoridades estiveram o ministro da Agricultura e Florestas de Angola, Isaac dos Anjos; o fundador do LIDE Global e ex-governador de São Paulo, João Doria; a ex-ministra da Agricultura e senadora brasileira Kátia Abreu; o ex-ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior Luís Fernando Furlan; o ex-secretário de Agricultura e Abastecimento de São Paulo Francisco Maturro; o especialista Roberto Gianetti da Fonseca; o presidente do LIDE Angola, Venceslau Andrade; e a embaixadora do Brasil em Angola, Eugênia Barthelmess.
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Angola quer atrair produtores e empresas brasileiras
Durante a abertura, Isaac dos Anjos apresentou a dimensão do potencial agrícola angolano. O país possui cerca de 36 milhões de hectares de terras aráveis, mas apenas aproximadamente 6 milhões são atualmente trabalhados pelas famílias, enquanto o setor empresarial ainda utiliza menos de 1 milhão de hectares.
Com uma população de cerca de 36 milhões de habitantes — 62% com menos de 24 anos —, Angola vê a agricultura como uma das principais alternativas para diversificar sua economia e reduzir a dependência do petróleo.
O ministro revelou que o governo colocou à disposição de potenciais investidores brasileiros uma área de aproximadamente 800 mil hectares para levantamento, ordenamento e avaliação de projetos agrícolas integrados às comunidades locais.
Também foi apresentado o Projeto Terralunda, na província da Lunda Norte, que prevê o desenvolvimento de cerca de 20 mil hectares entre 2027 e 2030, com investimento estimado em US$ 83,2 milhões.
A meta é atrair empresas interessadas em produzir, industrializar e exportar a partir de Angola.
Brasil oferece experiência em tecnologia e produção
A senadora Kátia Abreu destacou que o Brasil passou por uma transformação semelhante. Na década de 1970, o país dependia fortemente da importação de alimentos, mas avançou com a combinação de pesquisa agropecuária, crédito rural, assistência técnica e políticas públicas.
Para ela, a experiência da Embrapa é um dos principais exemplos que podem ser adaptados à realidade angolana.
Kátia defendeu ainda a criação de vitrines tecnológicas para demonstrar aos produtores, na prática, a produtividade e a rentabilidade de diferentes culturas.
Entre as oportunidades citadas estão soja, milho, arroz, algodão, mandioca, fruticultura, suinocultura, avicultura e pecuária, além de projetos de irrigação.
A senadora também ressaltou que grandes investimentos precisam estar conectados a fornecedores locais e à agricultura familiar, criando cadeias produtivas capazes de gerar emprego e renda.
Financiamento e segurança jurídica são desafios
Um dos principais debates do fórum envolveu o acesso ao crédito.
Os participantes defenderam que Angola precisa criar mecanismos capazes de oferecer financiamento de longo prazo, capital de giro, segurança jurídica e previsibilidade para produtores e investidores.
Isaac dos Anjos afirmou que a agricultura não pode ser financiada como uma atividade industrial convencional, pois possui ciclos específicos e depende do momento correto para plantar, cuidar e colher.
Outro ponto destacado foi o mercado interno. Segundo o ministro, Angola gasta aproximadamente US$ 1,4 bilhão por ano com a importação de alimentos. Esse valor representa, na avaliação do governo, um enorme mercado potencial para a produção nacional.
Relação bilateral entra em nova fase
João Doria destacou os laços históricos entre os dois países e afirmou que Brasil e Angola são mais do que parceiros comerciais: são países ligados por profundas relações históricas e culturais.
Para o fundador do LIDE Global, a cooperação agrícola pode contribuir não apenas para o desenvolvimento dos dois países, mas também para ampliar a oferta global de alimentos.
Durante o encontro, também foi assinado um memorando de e
ntendimento entre o LIDE Angola e a Câmara de Comércio Angola-Brasil, representados por Venceslau Andrade e Raimundo Lima.
O acordo busca aproximar empresas, investidores e instituições e criar novas oportunidades de negócios.
Pesquisa e inovação como pilares
A cooperação entre Brasil e Angola na agricultura possui décadas de história. Os países mantêm acordos desde 1980 e ampliaram a parceria técnica em agricultura e pecuária a partir de 2003.
Em 2025, um novo projeto envolvendo Angola, Brasil e Embrapa, com investimento previsto de aproximadamente US$ 1,94 milhão, passou a priorizar a formação de pesquisadores e técnicos angolanos e o fortalecimento das instituições locais de pesquisa.
A estratégia agora é utilizar esse conhecimento para apoiar também o setor privado.
O desafio é transformar potencial em negócios
O Fórum do Agronegócio Angola-Brasil mostrou que existe uma convergência de interesses entre os dois países.
Angola oferece terra, água, mercado consumidor, população jovem e localização estratégica no continente africano. O Brasil possui experiência em agricultura tropical, pesquisa, tecnologia, produção em escala, agroindústria e exportações.
O desafio, agora, é transformar essas vantagens em projetos concretos.
A mensagem que saiu de Luanda é que a nova fase da relação Brasil-Angola no agronegócio deverá ser medida menos pelo número de acordos assinados e mais pela capacidade de gerar investimentos, produção, empregos, industrialização, segurança alimentar e exportações.
Para os participantes, a agricultura pode ser um dos principais motores da transformação econômica de Angola — e o Brasil aparece como um dos parceiros estratégicos para acelerar esse processo.
*Por Sandra Jassa.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Perfil Brasil.
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