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Brasil atrai russos em busca de um segundo passaporte

22 set 2026 - 21h00
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Resumo
Diante das sanções internacionais pela guerra na Ucrânia e de restrições na Argentina, cresce o número de russos que buscam o Brasil para o nascimento de filhos. O país atrai pelo direito de cidadania imediata ao bebê e pela facilitação de passaporte aos pais, permitindo viagens sem visto pelo mundo. Embora as autoridades tenham intensificado a fiscalização de documentos e comprovantes de residência, especialmente em polos como Florianópolis, não há registros de deportações em massa de gestantes.

Com cidadania automática para nascidos no país, Brasil ganha espaço entre famílias russas que procuram alternativas diante das restrições internacionais.Julia e Dmitri (nomes alterados por motivos de segurança) viajaram neste verão da Rússia até o Brasil para que sua filha nascesse aqui. "Na fronteira, é claro que não dissemos que eu estava grávida", conta Julia à DW. Naquele momento, ela já estava na 32ª semana de gestação. Mais tarde, a filha do casal nasceu em uma clínica particular em Santos, no litoral paulista. Agora, a família prepara a documentação necessária para que a criança obtenha um passaporte brasileiro. No Brasil, toda pessoa nascida no país recebe a cidadania brasileira.

Uma mulher grávida em um hospital no Rio de Janeiro
Uma mulher grávida em um hospital no Rio de Janeiro
Foto: DW / Deutsche Welle

"Alcançamos nosso objetivo mínimo", afirma Dmitri. "Com um passaporte brasileiro, nossa filha pode viajar sem visto para quase todos os países do mundo. Ela não precisará solicitar um visto Schengen caro e demorado. Queremos que ela possa decidir sozinha onde estudar, trabalhar ou viver." Segundo ele, no início de agosto, um colega de trabalho também viajou ao Brasil com a esposa grávida para que o filho do casal nascesse aqui.

Segundo o casal, nas primeiras seis semanas eles gastaram o equivalente a cerca de 10 mil euros (quase R$ 60 mil), incluindo vários dias de tratamento da filha em uma unidade de terapia intensiva. Para realizar a viagem, Dmitri pediu demissão de seu emprego em um banco. Após retornar a Moscou, espera conseguir uma nova colocação. O casal, porém, pretende voltar à Rússia apenas dentro de alguns meses, quando toda a documentação da filha estiver pronta. Outras famílias russas optam por permanecer definitivamente no Brasil.

Russos conseguem passaportes brasileiros

Representantes de iniciativas de apoio e advogados que auxiliam cidadãos russos no Brasil relataram à DW um aumento no fluxo de migrantes russos para o país. O Brasil ganhou importância especialmente após a invasão russa da Ucrânia em 2022 e as restrições de entrada impostas por países ocidentais a cidadãos russos.

Essa tendência se intensificou com o endurecimento das regras de imigração na Argentina, que até então era um dos principais destinos do chamado turismo de nascimento. Desde 2025, o acesso gratuito ao sistema de saúde para pessoas sem autorização de residência permanente foi reduzido. Além disso, os controles sobre o verdadeiro motivo da entrada no país foram reforçados. Quem busca a cidadania argentina por meio do nascimento de um filho agora precisa comprovar residência legal por pelo menos dois anos.

Os efeitos aparecem nas estatísticas: em 2023, os russos apresentaram mais de 7 mil pedidos de residência, um número recorde. Em meados de 2025, segundo o portal russo de notícias RBC, esse número havia caído para apenas 1.821.

Ao mesmo tempo, cresce o número de cidadãos russos que obtêm passaportes brasileiros. Em 2024, foram emitidos 477 passaportes para russos. Em 2025, o número já havia chegado a 613. Mais da metade dos novos cidadãos eram mulheres. Até o fim de maio de 2026, 166 passaportes brasileiros haviam sido concedidos a cidadãos russos, quase 60% deles para mulheres.

Passaportes brasileiros também para os pais

Muitas famílias têm objetivos mais amplos. Isso porque os pais de uma criança nascida no Brasil podem solicitar autorização de residência e, sob determinadas condições, obter a cidadania brasileira após apenas um ano.

Esse foi o caminho seguido por Jana (nome alterado) e seu marido em 2023.

"Os acontecimentos de 2022 tiveram, sim, alguma influência, mas a ideia de dar à luz no exterior surgiu antes", conta ela à DW. "Muitas coisas podem acontecer na Rússia. Eu sempre quis ter um segundo passaporte e que meu filho nascesse em outro país. Quando engravidei sem planejar, só precisávamos decidir qual país escolher."

Jana deu à luz seu filho em um hospital público em Florianópolis (SC). Depois disso, a família viveu cerca de três anos no Brasil.

"Era importante para nós conseguir passaportes para nós e para nosso filho. Gostei muito da vida aqui e aprendi português", afirma. Jana e o marido são empresários e dizem viver há anos como "nômades digitais" em diferentes países.

Hoje, ela tenta manter a ligação do filho com o Brasil.

"Lemos livros em português e falamos muito sobre o Brasil. Quero que ele possa viajar sem vistos e permaneça aberto ao mundo."

Florianópolis já é considerada um dos principais centros da comunidade russa no Brasil. Segundo autoridades locais de saúde, no primeiro semestre de 2026, 119 mulheres russas procuraram atendimento ou orientação relacionada à gravidez na cidade. Em todo o ano de 2025, foram 136.

Autoridades intensificam os controles

Entrar no Brasil com o objetivo de dar à luz não é algo explicitamente permitido nem proibido por lei, explica um advogado que preferiu permanecer anônimo. Muitas gestantes entram como turistas e não informam na fronteira o verdadeiro motivo da viagem. Independentemente de sua situação migratória, elas podem utilizar gratuitamente hospitais públicos e outras instituições de saúde.

Em torno dessa tendência, desenvolveu-se um mercado próprio de serviços. Muitas vezes, russos que chegaram recentemente ao país oferecem intermediação de moradia, atendimento médico e apoio em procedimentos burocráticos. Os preços variam de alguns milhares de dólares para a organização de documentos até mais de 10 mil dólares por pacotes completos, incluindo busca de moradia, organização da clínica e acompanhamento por intérpretes ou doulas.

Prestadores desses serviços, advogados e voluntários relatam, porém, controles mais rigorosos por parte das autoridades brasileiras, especialmente em cidades com grandes comunidades russas, como Florianópolis.

"A polícia agora verifica com mais atenção se as pessoas realmente vivem nos endereços informados", relata um jurista. Houve casos em que endereços falsos foram fornecidos para acelerar a obtenção de permissões de residência. Além disso, a documentação exigida para autorizações de residência temporária e permanente aumentou.

Segundo apuração da DW, não há indícios de que cidadãos russos estejam tendo a entrada no Brasil negada em massa.

Debate sobre supostas deportações

No fim de julho, o canal russo no Telegram Baza, posteriormente citado por outros veículos de comunicação, informou sobre uma suposta "deportação" de russas grávidas do Brasil. Foram mencionados dez casos. Questionada pela DW, a Polícia Federal brasileira negou a informação.

A autoridade afirmou que decisões sobre recusa de entrada são sempre tomadas individualmente. A base para essas decisões são as circunstâncias específicas de cada caso e as regras em vigor. A gravidez não desempenha nenhum papel nesse processo. O que é analisado são a validade dos documentos de viagem, o motivo declarado da visita e a comprovação de recursos financeiros suficientes.

A DW conseguiu localizar apenas um caso documentado. Nele, uma cidadã russa grávida teve inicialmente sua entrada negada. Após a intervenção de um advogado e uma decisão judicial, ela acabou autorizada a entrar no país. Conforme os documentos do processo, os agentes de fronteira tinham dúvidas sobre a capacidade dela de financiar sua permanência no Brasil. Ela própria não respondeu aos contatos da DW.

A DW não encontrou provas que sustentassem a alegação de que houve numerosos casos semelhantes.

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