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Ataques de colonos esvaziam aldeias da Cisjordânia

24 jan 2026 - 14h35
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Expansão dos assentamentos israelenses acompanha crescimento da violência contra palestinos desde outubro de 2023. Segundo Israel, agressões por parte de extremistas aumentaram 27% em 2025.Para Jamila Rashid, Ras Ein el-Auja, uma aldeia palestino-beduína no sul do Vale do Jordão, foi o lar da sua família por décadas. Mas no início de janeiro ela se viu forçada a tomar a decisão de partir, na esteira do aumento da violência por parte dos colonos israelenses contra palestinos e seus bens na Cisjordânia.

"A perseguição se tornou insuportável", disse Rashid, uma jovem mãe. "Não há mais segurança. Sofremos há três anos, mas agora as provocações aumentaram."

Segundo as Forças de Defesa de Israel (FDI) e o Shin Bet, a agência de segurança interna israelense, os ataques por colonos extremistas contra palestinos e forças israelenses aumentaram 27% em 2025 em comparação com o ano anterior. A violência cresce desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023.

Desde janeiro daquele ano, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) documentou mais de 700 famílias palestinas cujo deslocamento esteve ligado à violência de colonos na Cisjordânia.

As mais afetadas são as comunidades beduínas e pastoris na Área C, que representa 60% da Cisjordânia e está sob total controle administrativo e de segurança de Israel. Segundo o grupo israelense de direitos humanos B'Tselem, ao menos 44 comunidades foram completamente expulsas desde o início da guerra em Gaza.

Rotina de violência

A situação em Ras Ein el-Auja começou a se deteriorar no fim de dezembro de 2025, quando colonos israelenses estabeleceram um posto avançado ilegal dentro da aldeia. Eles araram a terra com tratores e bloquearam uma estrada que levava a um dos lados da comunidade.

O morador local Salameh Qa'abna havia testemunhado vários ataques e tentativas de se aproximar da comunidade nos últimos anos. Mas, quando os colonos montaram o pequeno posto avançado a apenas algumas dezenas de metros de sua casa e família, qualquer sensação remanescente de segurança desapareceu rapidamente.

"Eles nos impediram de usar a estrada e bloquearam os tanques de água", disse Qa'abna, olhando para o posto avançado próximo, onde havia dois colonos. "À noite, vários deles se aproximaram das nossas áreas de moradia. As crianças ficaram apavoradas."

Cerca de 130 pessoas foram forçadas a desmontar suas casas e deixar a aldeia no início deste mês devido aos ataques contínuos dos colonos à comunidade.

Rashid e sua jovem família agora se juntarão a elas. "Isso é humilhante, é doloroso", disse ela. "Existe algo mais difícil do que demolir sua própria casa com as próprias mãos? E nem sabemos para onde iremos."

Padrão na Cisjordânia

Muitos outros também estavam empacotando seus pertences naquele dia frio, ensolarado, de inverno no Vale do Jordão, em meio aos balidos de cabras, ovelhas e burros.

Os animais são a principal fonte de subsistência da aldeia, mas a maioria deles havia sido confinada aos currais ao longo de semanas, porque se tornara perigoso demais deixá-los pastar.

Agora, alguns estavam sendo carregados em pequenas caminhonetes e levados embora, enquanto jovens de Ramallah ajudavam os moradores a desmontar os currais e as casas.

Outro morador, Mohammed Abu Fadi, observava tudo com descrença, ainda incerto se partiria ou ficaria. "Todos os dias e noites, eles vêm com cavalos e nos assediam. Tudo isso afeta as crianças, os animais e até os pássaros", disse.

O padrão se repetiu em várias outras comunidades palestinas, como nas vizinhas Muarrajat e Mughayyir al-Deir. Ali também, colonos instalaram postos avançados no centro das aldeias, intensificaram seus ataques e expulsaram as pessoas em pouco tempo.

Assentamentos em expansão

De acordo com o grupo de vigilância antiassentamentos Peace Now (Paz Agora, em tradução livre), há 149 assentamentos espalhados pela Cisjordânia, além de 224 pequenos postos avançados e fazendas não autorizados.

Os assentamentos são ilegais segundo o direito internacional, o que Israel contesta. A expansão dos assentamentos tem sido promovida por governos israelenses sucessivos desde a guerra de 1967.

Sob o atual governo, colonos foram nomeados para cargos importantes. Recentemente, foi anunciado o estabelecimento ou a legalização de 19 novos assentamentos, bem como a implementação de um plano considerado controverso, conhecido como E1, para dividir a Cisjordânia em duas.

A maior parte da comunidade internacional, incluindo a Alemanha, vê o crescente número de assentamentos como obstáculo para a eventual criação de um Estado palestino.

"Presença protetora"

Em Ras Ein el-Auja, um jovem colono israelense guiava seu rebanho de ovelhas pela aldeia, seguido de perto por ativistas internacionais e israelenses dos chamados "grupos de presença protetora".

Essas são pessoas que permanecem na aldeia 24 horas por dia, todos os dias, para proteger a comunidade de ataques. Mas, da sua base em uma pequena colina, há pouco que pudessem fazer.

"No momento, só podemos protegê-los enquanto estão empacotando e ajudá-los a deixar este lugar com segurança", disse Neta Ben Porat, ativista da ONG antiassentamentos Looking the Occupation in the Eye (Olhando a ocupação nos olhos, em tradução livre).

Nos últimos dias, disse ela, colonos israelenses levaram vários rebanhos de ovelhas e cabras para a aldeia. "Os moradores não conseguem dormir, não conseguem descansar, precisam estar alertas o tempo todo. Muitos decidiram que não podiam viver assim e resolveram partir."

FDI dizem que aumentaram a segurança

Parte dos palestinos e dos ativistas antiassentamentos argumentam que o governo israelense deixa esses ataques sem controle e que há pouca responsabilização para os perpetradores.

Em março de 2025, colonos israelenses roubaram rebanhos de ovelhas e cabras durante a noite de vários agricultores da aldeia, ferindo e matando violentamente alguns dos animais antes de levá-los para um posto avançado agrícola ilegal.

Apesar de fornecer provas do paradeiro dos animais, pedidos feitos à polícia e ao exército não foram atendidos nem resultaram na devolução dos animais.

Quando questionadas pela DW sobre o que estavam fazendo para proteger os moradores, as FDI disseram em comunicado que haviam aumentado recentemente a presença de soldados e que estavam cientes dos incidentes.

"Soldados das FDI entram na área de acordo com chamadas e necessidades operacionais, visando prevenir atritos entre populações e manter a ordem e a segurança na área", disseram as FDI, acrescentando que "soldados que se deparam com incidentes de violação da lei por cidadãos israelenses, ou atos dirigidos contra palestinos ou seus bens, são obrigados a intervir e, se necessário, deter ou prender os suspeitos até que a polícia chegue ao local."

Em Ras Ein el-Auja, Rashid, Qa'abna e outros parentes levariam suas famílias para um lugar seguro. Da noite para o dia, tanto os habitantes quanto seus animais desapareceram de um dos lados da aldeia. Apenas as estruturas esqueléticas das cabanas permaneceram como testemunho das pessoas que haviam vivido ali.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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