A direita à direita da direita: a crônica de um animal político imenso e global, mas ainda invisível para muitos
Parece impossível não ver ou não reconhecer a sua presença cada vez mais forte em diversos países - mas muita gente ainda nega a existência de um movimento globalmente articulado de ultradireita
O avanço global da ultradireita redefine o cenário político ao criar um terceiro polo que enfraquece a direita tradicional e corrói as democracias por dentro. Diferente do conservadorismo clássico, essa força atua em redes internacionais difusas, representadas por conferências e trocas de apoio mútuo entre líderes como Donald Trump, Viktor Orbán e a família Bolsonaro. O fenômeno rompe a polarização bipolar tradicional e impõe um modelo autoritário que ameaça as liberdades civis e o Estado de direito.
Cheguei a Portugal em setembro de 2020 em meio à pandemia e a uma campanha eleitoral. Vim a Lisboa para trabalhar como jornalista para a imprensa brasileira e para fazer um doutorado em Política Comparada. Meu primeiro foco de interesse foram os debates da campanha presidencial na televisão - que em Portugal é ainda mais importante para a formação da opinião política que no Brasil. Nos debates, tive uma surpresa positiva.
A esquerda em Portugal é representada pelo Partido Socialista (PS), e a direita pelo Partido Social Democrata (PSD). No sistema partidário lusitano, há uma semelhança com o Brasil quando se considera o contexto histórico. Depois da ditadura fascista apeada do poder na Revolução dos Cravos, em 1974, as novas legendas políticas tendiam à esquerda.
O PSD, assim, é um partido semelhante ao PSDB brasileiro. Nasceu social-democrata e migrou para a direita por questões de "mercado" eleitoral, já que o campo da esquerda foi dominado pelo Partido Socialista - nesta comparação algo simplificadora, o PS português equivale ao PT brasileiro.
Num primeiro momento fiquei bastante bem impressionado com os debates entre o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, de direita, que tentava a reeleição, e a principal representante da esquerda, Ana Gomes, quadro com extensa carreira diplomática internacional e atuação no Parlamento Europeu.
Ela defendia um projeto social-democrata clássico enquanto ele fazia o contraponto com uma visão mais liberal - ambos reproduzindo, em alto nível, o debate recorrente na maior parte dos países da União Europeia, o pedaço do mundo onde mais prosperou a ideia de um estado de bem-estar social.
Foi quando irrompeu no debate público português o deputado André Ventura, único representante parlamentar de um partido recém-fundado, o Chega. Ao contrário de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa, Ventura não tinha um projeto de país. Destoava de ambos na forma e no conteúdo. No conteúdo, dedicava-se a vociferar contra imigrantes e portugueses de origem cigana. Na forma, recusava-se a debater. Interrompia a todo momento seus interlocutores, transformando a conversa civilizada numa briga de rua, não raro descambando para ofensas pessoais.
Em 2020, o Chega acabara de ser fundado e, como se viu acima, tinha apenas um deputado. Hoje, em 2026, é o segundo maior partido da Assembleia da República, o parlamento português, com 60 representantes.
Ao ver André Ventura em 2020, tive a clareza de que estava diante de um novo animal político, que destoava da direita tradicional, representada pelo liberalismo culto e educado de Rebelo de Sousa. Vi esse animal crescer em Portugal, ao mesmo tempo que a espécie proliferava em vários lugares do mundo. Veio daí grande parte de minha motivação para escrever o livro "A direita à direita da direita", que acabo de lançar pela editora brasileira Faria e Silva.
Check lists de qualidade democrática
Do lado acadêmico, interessei-me pelo efeito dessa direita à direita da direita na qualidade das democracias. O conceito de qualidade democrática bebe na obra de Robert Dahl, autor clássico da ciência política que enxergou, de forma pioneira, o caráter múltiplo e complexo das democracias. Elas não se restringem apenas aos atores políticos em época de voto, mas pulsam igualmente nos períodos entre as eleições, através dos lobbies, das mobilizações da sociedade civil, do debate de ideias sobre políticas públicas nas universidades - e do escrutínio constante da imprensa livre, fundamental nas democracias.
Nesse contexto, autores como Larry Diamond e Leonard Morlino criaram, no início deste século, "check-lists" de qualidade democrática. A partir deles surgiram institutos como o V-Dem, sigla para "Varieties of Democracy", think tank sediado em Gotemburgo, na Suécia, que congrega uma rede de especialistas internacionais em várias áreas da política.
Esses institutos - vale mencionar também a Freedom House americana e a área de inteligência da revista britânica The Economist - medem a saúde das democracias não apenas pela lisura do processo eleitoral, mas também pela vibração da sociedade civil, pela livre circulação do conhecimento, pela solidez do Estado de direito e pela liberdade de imprensa, entre outros quesitos.
Usando essa metodologia, é possível afirmar que a democracia se deteriorou em vários lugares onde a direita à direita da direita triunfou eleitoralmente. Isso ocorreu nos Estados Unidos de Donald Trump, na Polônia de Andrzej Duda e no Brasil de Jair Bolsonaro. Na Hungria de Viktor Orbán e na Índia de Narendra Modi, dois casos citados no livro, essa deterioração levou o paciente à UTI.
A Hungria, país-modelo de Steve Bannon, que já foi guru de Donald Trump, deixou de ser considerada um regime de liberdade, assim como a Índia de Narendra Modi. O V-Dem rebaixou aquela que já foi a maior democracia do mundo em número de eleitores ao status de "autocracia eleitoral" - pelo fato de, entre outras coisas, um jornalista poder ser preso por criticar o governo.
A literatura acadêmica já criou uma conceituação - um "nome científico"? - para este elefante que vem quebrando os cristais da democracia. Uma das principais características da direita à direita da direita é constituir partidos e disputar eleições. Uma vez no poder, os eleitos, em muitos casos, corroem a democracia por dentro, como vimos acima e como os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostraram no livro "Como as democracias morrem". Outro cientista político, o holandês Cas Mudde, propôs uma nomenclatura que se tornou corrente nas universidades. Ele propõe três categorias: "direita radical", "extrema-direita" e "ultradireita".
Em seu livro "The Far-Right Today" - Mudde define cada uma dessas categorias. A extrema-direita, segundo ele, "rechaça a essência da democracia, ou seja, a soberania popular e o princípio da maioria". Já a direita radical "aceita a essência da democracia, mas se opõe a elementos fundamentais da democracia liberal - de maneira muito especial aos direitos das minorias, ao estado de direito e à separação dos poderes". As duas seriam subdivisões da "ultradireita", o nome mais usado no âmbito acadêmico para nomear a direita à direita da direita.
O nome "ultradireita" é ainda mais adequado na medida em que há interpolação entre essas duas subdivisões. Quando corta verbas de educação inclusiva e de organizações defensoras dos direitos LGBTQIA+, como fez na Hungria, Viktor Orbán está seguindo o figurino da direita radical, atentando contra o aspecto "liberal" da democracia - aquele que leva em consideração os direitos individuais fundamentais. Quando muda as regras eleitorais para permanecer no poder indefinidamente, Orbán ataca "a soberania popular e o princípio da maioria" - ou seja, os aspectos propriamente "democráticos" dos regimes de liberdade.
A observação jornalística me ajudou a rechear esses conceitos com os ossos e a carne da vida real. Como correspondente da imprensa brasileira, cobri a única visita de Estado de Jair Bolsonaro a um país da União Europeia - a Hungria. Estive num congresso de partidos da ultradireita em Portugal, em que ouvi de líderes europeus que Portugal deveria seguir o exemplo do rei Dom Afonso e "expulsar os invasores islâmicos vindos de Marrocos". Tive também a oportunidade de assistir a um comício do Vox, partido da ultradireita espanhola, numa arena de touros em Múrcia - onde ouvi do líder Santiago Abascal que a ditadura franquista não era tão ruim quanto o governo do PSOE, representante da esquerda no país.
O terceiro lado da divisão política
Dessa combinação entre observação acadêmica e observação jornalística cheguei a duas hipóteses principais. A primeira é que, em vários países democráticos, a política já não se divide em dois lados, mas em três - esquerda, direita e ultradireita.
Embora existam partidos de esquerda radical - uma esquerda à esquerda da esquerda - ela é eleitoralmente inexpressiva na maior parte dos países que estudei. A divisão em três vale para Portugal (PS, PSD e Chega), Espanha (PSOE, PP e Vox), Alemanha (SPD, CDU e AfD) - e até para o parlamento europeu, onde a ultradireita se ramificou em três grupos e já disputa ombro a ombro com os dois partidos majoritários que representam a direita e a esquerda tradicionais.
Ficou claro também que, quando a ultradireita cresce, a primeira vítima é a direita tradicional. No Brasil, onde seus representantes durante muito tempo estiveram no PSDB, ela foi esmagada pelo bolsonarismo, o representante da direita à direita da direita no país. Da mesma forma, a ala moderada do Partido Republicano dos Estados Unidos foi aniquilada pelo trumpismo.
Não à toa, líderes de partidos da direita tradicional europeia lutam para não cometer os mesmos erros das direitas brasileira e americana. É o caso de Friedrich Merz, o chanceler democrata-cristão da Alemanha, que reforçou a importância de isolar cada vez mais o partido AfD, depois que a sigla de ultradireita conquistou vitórias eleitorais em províncias localizadas na antiga Alemanha Oriental.
A segunda hipótese é que pertencer a "clubes" políticos - no que seria uma "internacional da ultradireita" - é um fator de identidade importante desses líderes e partidos. Não se trata de um movimento com coordenação central, e sim um associativismo de atores políticos com agendas regionais que, apesar das diferenças, se reconhecem como semelhantes, da mesma forma que um elefante reconhece outro elefante.
O tema da imigração é central na ultradireita europeia, enquanto a questão da segurança pública é recorrente na América do Sul. Isso não impede que políticos dos dois continentes, mesmo com plataformas muito diferentes, construam uma rede de apoio, endossando-se mutuamente em períodos eleitorais através de "reels" postados em suas contas de Instagram.
Eduardo Bolsonaro: chanceler da ultradireita brasileira
O principal "clube" da ultradireita é a CPAC, Conferência de Ação Política Conservadora, o braço ideológico do trumpismo. Por presidir a maior economia do planeta, Donald Trump é o líder natural da direita à direita da direita, o homem do qual todos querem se aproximar.
Não à toa, vários dos representantes da ultradireita europeia estiveram na posse do presidente americano - evento onde não foi ninguém da direita tradicional, deixando clara a clivagem entre os dois campos. A CPAC tem "sucursais" regionais. Na Europa a reunião anual do grupo costumava ser na Hungria de Viktor Orbán - há dúvidas sobre o que ocorrerá depois da derrota do autocrata neste ano de 2026. Na América do Sul as reuniões costumavam ser organizadas por Eduardo Bolsonaro, uma espécie de chanceler da ultradireita brasileira.
Um exemplo recente de como pertencer ao "clube" é um elemento de identidade importante vem ocorrendo na campanha eleitoral brasileira de 2026. No discurso de lançamento de sua candidatura, Flávio Bolsonaro falou de três eixos centrais de sua campanha. O primeiro seria o projeto "Treva", inspirado na construção frenética de presídios pelo ditador salvadorenho Nayib Bukele. O segundo seria o "tesouraço", um corte de verbas inspirado na "motosserra" de Javier Milei. O terceiro seria a adesão ao "Escudo das Américas", projeto de combate ao crime na América Latina liderado por Donald Trump. Em resumo, o projeto de Flávio para o Brasil tem a ver com ideias defendidas por outros integrantes do "clube".
É inegável que a proliferação de líderes e partidos de ultradireita em várias democracias ocidentais é um dos principais fatos políticos de nosso tempo, e merece ser estudado com afinco. No livro "A direita à direita da direita" apresento algumas hipóteses e caminhos de estudo. Acima de tudo, proponho que se trata de um campo com perfil próprio e totalmente diferente da direita democrática - e que, portanto, não pode ser visto como simétrico da esquerda democrática. A ideia de "polarização" entre esquerda e ultradireita, difundida em vários países, é, além de clichê, essencialmente falsa e danosa para o debate democrático.
João Gabriel de Lima acaba de lançar o livro "A direita à direita da direita", sobre o crescimento dos partidos de extrema-direita em Portugal, no Brasil e no mundo, e de onde as informações para este artigo foram extraídas.
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