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30 anos depois: por que os EUA indiciaram o ex-presidente cubano Raúl Castro?

Os supostos crimes cometidos por ele teriam ocorrido nos anos 90, mas as acusações só foram apresentadas agora

22 mai 2026 - 10h12
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Depois de uma semana de especulações, o Departamento de Justiça dos EUA indiciou oficialmente Raúl Castro, ex-presidente de Cuba, de 94 anos.

As acusações estão relacionadas a um incidente ocorrido em 1996, no qual as forças armadas cubanas teriam abatido dois aviões civis desarmados operados pela organização Irmãos ao Resgate (Brothers to the Rescue, no original em inglês).

A notícia surge em meio à crescente pressão dos EUA sobre a debilitada República de Cuba para que mude seu sistema de governo após 67 anos de regime revolucionário.

Então, por que os Estados Unidos agiram agora, e o que acontecerá a seguir?

Quem é Raúl Castro?

Raúl Castro é o irmão mais novo do líder revolucionário cubano, Fidel Castro. Ele se juntou ao movimento de Fidel para derrubar o ditador aliado dos EUA, Fulgencio Batista, a partir de 1952. Participou do ataque ao Quartel de Moncada em 26 de julho de 1953, tornando-se membro fundador do movimento guerrilheiro M-26-7, a principal organização da revolução cubana.

Em 1958, ascendeu ao posto de comandante da Segunda Frente Oriental. Ele chamou a atenção de Washington em junho daquele ano, quando sequestrou um grupo de 50 fuzileiros navais dos EUA para impedir a continuação do bombardeio aéreo contra suas tropas e os moradores locais.

Esse foi um momento decisivo em que Raúl se tornou mais do que o irmão de Fidel - ele era agora um líder fundamental da revolução.

No final de 1958, o exército de Raúl Castro havia libertado grande parte do leste de Cuba do regime de Batista e começou a marchar sobre Havana para concluir a revolução.

A partir de janeiro de 1959, Raúl Castro tornou-se ministro da Defesa, numa época em que os combates ainda estavam em curso. Durante décadas, ele foi o rosto das Forças Armadas de Cuba e da defesa da ilha.

Quando, em abril de 1961, um grupo de 1.400 exilados cubanos, apoiado pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), atacou Cuba na Baía dos Porcos, as forças armadas de Castro garantiram uma notória vitória contra os exilados e os EUA.

Ele também ascendeu nas fileiras civis e partidárias em Cuba. A partir de 1976, ele atuou como vice-presidente e, em seguida, sucedeu seu irmão, já idoso, como presidente a partir de 2008, cargo que ocuparia até 2019.

Raúl Castro permaneceu à frente do Partido Comunista até 2021 e ainda é visto como uma figura influente na política cubana. Raúl é um militar, um político e, acima de tudo, um revolucionário que derrubou um aliado fundamental dos Estados Unidos e resistiu à pressão americana por décadas.

Cuba, no entanto, é um Estado autoritário que não tolera dissidência. Em 2003, o governo de Fidel Castro, do qual Raúl Castro fazia parte, deteve dezenas de defensores da democracia num evento apelidado de "primavera negra". Um dos detidos, José Daniel Ferrer, fundador da União Patriótica de Cuba, apelou aos EUA para que se aliassem às forças da oposição em 2025.

Do que Raúl Castro é acusado?

Cuba está sujeita a um bloqueio e embargo econômico dos EUA desde 1960. Também esteve sujeita a um embargo pelos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA), que inclui quase todos os países do Hemisfério Ocidental, entre 1964 e 2009.

A sobrevivência econômica de Cuba sempre dependeu do apoio de uma grande nação disposta a fornecer-lhe combustível.

Durante a Guerra Fria, essa nação era a União Soviética, cujo colapso em 1991 foi devastador para Cuba e seu governo. O "Período Especial" que se seguiu a 1991 foi marcado por escassez de combustível, queda na produção de alimentos, agitação social e emigração em grande escala de Cuba.

Dezenas de milhares de cubanos lotaram embarcações precárias na esperança de se juntar a outros exilados na Flórida. O governo Clinton nos EUA acabou por permitir a migração em massa, e a Guarda Costeira dos EUA ajudava regularmente a resgatar cubanos em perigo. Apesar disso, dezenas de pessoas se afogaram no mar.

Um grupo de exilados cubanos, liderado pelo autoproclamado "veterano da Baía dos Porcos" José Basulto, realizou voos de reconhecimento e informou a Guarda Costeira sobre a localização de cubanos em perigo.

Mas os voos tinham outros motivos. Em várias ocasiões, os aviões invadiram o espaço aéreo cubano, ignoraram advertências e lançaram panfletos de propaganda destinados a desencadear atividades antigovernamentais.

Documentos tornados públicos por William LeoGrande e Peter Kornbluh, autores de um livro sobre o tema, revelam que os EUA sabiam dessas operações e temiam que Cuba acabasse abatendo os aviões, criando um incidente internacional.

Em 24 de fevereiro de 1996, as forças armadas cubanas de fato derrubaram dois aviões, matando todas as quatro pessoas a bordo.

Agora, 30 anos depois, o Departamento de Justiça dos EUA alega que Raúl Castro, então ministro da Defesa, e outras seis pessoas são criminalmente responsáveis pelos assassinatos dos quatro homens, três dos quais eram cidadãos americanos.

O procurador federal do Distrito Sul da Flórida, Jason A Reding Quiñones, afirmou que "o passar do tempo não apaga o assassinato".

Por que os EUA estão agindo agora?

Cuba está novamente sofrendo com um bloqueio dos EUA, desta vez iniciado após a destituição de seu garantidor de combustível, o presidente venezuelano Nicolás Maduro em janeiro.

A nova presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, foi pressionada a suspender os envios de petróleo para a ilha, assim como o México e outros parceiros regionais, sob a ameaça de tarifas devastadoras.

Cuba declarou na última quinta-feira que não tinha nenhum combustível ou diesel restante. Enquanto isso, as condições humanitárias pioram. A Anistia Internacional relatou em 2025 que a maioria dos cubanos estava com dificuldades para encontrar alimentos e medicamentos.

Em uma visita histórica nos últimos dias, o diretor da CIA, John Ratcliffe, conversou com membros do governo cubano, em um sinal de uma possível mudança de regime.

O presidente Donald Trump também destacou suas motivações em relação a Cuba nesta semana, dizendo que "para muitas pessoas, isso será uma das coisas mais importantes; elas esperam por esse momento há 65 anos".

Os cubano-americanos vêm, de fato, pressionando pela destituição dos Castro desde a década de 1960.

O secretário de Estado Marco Rubio, ele próprio um cubano-americano, comemorou o Dia da Independência de Cuba de 1902 transmitindo a seguinte mensagem ao povo cubano, em espanhol:

E quero dizer a vocês que nós, nos EUA, estamos nos oferecendo para ajudá-los não apenas a aliviar a crise atual, mas também a construir um futuro melhor.

A mensagem condenou o governo cubano e Raúl Castro como corruptos. Ele pediu uma mudança de regime, referindo-se ao atual presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

A acusação contra Castro vai além da justiça para um único homem. Trata-se da política cubano-americana na Flórida e do potencial iminente de uma mudança de regime em Cuba, o principal adversário regional dos Estados Unidos nos últimos 67 anos.

The Conversation
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Foto: The Conversation

James Trapani não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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