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Pessoas com deficiência e a tal 'força de vontade'

Responsabilizar alguém pelas restrições que esse indivíduo enfrenta e atribuir dificuldades a preguiça ou desmotivação é uma violência disfarçada de preocupação que fere profundamente, agressão à autoestima, capacitismo que pode desencadear efeitos psicológicos negativos e perigosos.

6 mai 2026 - 11h42
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Confesso não ter mais energia para reagir ou contra-argumentar quando alguém me diz "você tem que fazer" - ... musculação, fisioterapia, natação, hidroterapia, pilates, ioga, alongamento, caminhada ... - para deixar de usar a bengala que me apoia porque, na avaliação dessas pessoas 'preocupadas', minhas deficiências são causadas exclusivamente pela minha 'falta de vontade' e reina uma convicção total de que essa é a solução definitiva para minhas dificuldades, a 'cura' final dos meus entraves.

Eu apenas meneio a cabeça e respiro profundamente, mas não respondo ou gasto palavras para explicar que essa segurança plena a respeito das minhas particularidades, na verdade, é uma conduta capacitista, agressão velada, violência maquiada de cuidado.

Pior quando isso vem de gente próxima, familiares, amigos de muitos anos, pessoas que me viram 'sem deficiência' e sem bengala, mas não absorvem a imagem de um recurso de acessibilidade como algo necessário para minha segurança.

Nesse julgamento, sou o único responsável por não ter força nem equilíbrio, pelas dificuldades respiratórias que a covid-19 provocou em mim, pelo cansaço constante que sinto, pelas dores que me consomem, por não ser mais uma pessoa.

Houve um tempo em que eu tentava fazer esses seres convictos compreenderem o que significa em detalhes ter deficiências, quais são as consequências da polineuropatia de Charcot-Marie-Tooth em meus músculos e as sequelas da ação do coronavírus, até mesmo apresentava a avaliação biopsicossocial da deficiência e como ela considera não apenas critérios médicos ou biológicos, mas também fatores psicológicos e socioambientais. Não faço mais isso porque é nítido como minhas palavras apenas atravessam o vazio.

Cheguei a pensar em como sou um estorvo desnecessário para este mundo de perfeições. Consegue imaginar o impacto mental dessa autoavaliação?

Precisei construir uma defesa psíquica para me proteger desses avanços porque comecei a acreditar nessas alegações e a buscar, com uma certa urgência, as práticas sugeridas que, na verdade, ameaçavam minha integridade e me colocavam em risco real de sofrer acidentes e precisar de atendimento de emergência.

Isso não significa que desisti da vida. É somente um caminho de autoconhecimento e autoproteção. Sou pessoa com deficiência desde o nascimento, mas minhas deficiências, embora totalmente presentes para mim, eram ocultas aos olhos leigos, mas houve uma ruptura e precisei agir.

Esse processo ainda não acabou.

Vamos em frente.

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Estadão
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