'Pátria Minha': de volta à Globoplay, novela teve cena polêmica que chegou à Justiça; relembre
Personagem de Tarcísio Meira tinha atitudes e falas racistas em cena com Alexandre Moreno; à época, ativistas fizeram críticas e até buscaram a Justiça para impedir exibição de cenas sobre o tema
Pátria Minha, novela das 8 exibida pela Globo entre 18 de julho de 1994 e 11 de março de 1995, pode ser assistida novamente na plataforma Globoplay a partir desta segunda-feira, 9. À época em que foi ao ar, uma cena de Raul, personagem de Tarcísio Meira (1935-2021), retratou de forma explícita o racismo entre um patrão e um empregado, gerando polêmica e críticas. Relembre abaixo.
A cena de racismo em Pátria Minha
Na cena, Raul (Tarcísio Meira) fez diversos comentários racistas durante cena em que acusa o jardineiro Kennedy (Alexandre Moreno) de roubá-lo. O personagem o chama de "negro insolente" e faz comentários que trazem preconceito explícito: "você pensa que eu acredito em crioulo? Vocês, Kennedy, quando não sujam na entrada, sujam na saída".
Após negar que tenha cometido o crime e tentar argumentar, Kennedy chora. No fim da cena, evoca uma traição de Teresa (Eva Wilma): "Não foi à toa que ela não aguentou e corneou o senhor. E já não foi sem tempo: ela devia ter corneado muito antes. Se houver Justiça nesse mundo, dr. Raul, a outra vai cornear também."
Raul expulsa Kennedy, que sai chorando, de seu quarto: "Negro sem vergonha. Vai se arrepender do dia em que nasceu. Negro!"
Sobre os bastidores, Alexandre Moreno afirmou à época: "Fiz a cena com muita vontade de ser representante dessa denúncia. Ao mesmo tempo, pintou um certo constrangimento por estar ouvindo aquelas coisas." O ator também ressaltou a reação de seu colega durante a gravação: "O Tarcísio ficou desesperado, sofreu. A gente não parava de se abraçar".
Repercussão de cena de racismo em Pátria Minha
Houve reação à novela, especialmente por conta da cena envolvendo Tarcísio Meira e Alexandre Moreno, por parte de grupos ligados a causas raciais. A advogada Vera Lucia Vassouras, de São Paulo, entrou com pedido de liminar (negado poucos dias depois) na 15ª Vara Cível da Capital pedindo a suspensão das cenas que contassem com "referências racistas". Segundo Vera, a novela atentaria "contra a honra e a imagem dos cidadãos negros no País".
O Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP) se manifestou, por meio do sociólogo Luiz Carlos dos Santos, um de seus coordenadores. "Não adianta os autores da novela dizerem que queriam denunciar o racismo com aquela cena absurda, porque o negro da novela não está discutindo nada, está quieto, é vítima sem voz", afirmou Santos.
Sueli Carneiro, então coordenadora executiva do Geledés, Instituto da Mulher Negra, também entrou com uma notificação judicial no Foro Cível contra a Globo por "veicular imagens arcaicas" dos negros.
'Imagens arcaicas e ultrapassadas'
"As cenas representam efetivamente o cotidiano que os negros enfrentam. A controvérsia está na imagem dos personagens negros da novela, que são estereotipados", afirmava. Sueli Carneiro chegou a ter um texto publicado no Estadão ( para ler a íntegra) à época. Confira um trecho abaixo:
"Essa atitude tão moderna da emissora e de seus autores de enfrentar o problema do racismo se apoia em imagens arcaicas e ultrapassadas dos negros, que até ao nível da historiografia oficial, estão sendo objeto de críticas e revisões. Impossível que os globais não o saibam.
Os personagens brancos da novela são ricos, pobres ou de classe média. Generosos, egoístas, progressistas, reacionários, ou seja, refletem a multiplicidade de situações e atitudes presentes na sociedade. Diferentemente, os personagens negros estão congelados num único estereótipo: são humildes, indefesos e servis."
'Críticas são injustas'
Gilberto Braga, autor de Pátria Minha, se disse "pasmo" com a reação negativa da cena e salientou que as acusações seriam precipitadas, por não esperarem o desenvolvimento da trama.
À época, afirmou que Rangel (Clementino Kelé), padrinho de Kennedy, confrontaria o racista Raul: "Essas cenas vão mostrar o confronto que os negros estão pedindo". Sobre as acusações de que em suas novelas os negros estariam sempre em condições sociais inferiores em relação aos brancos, Gilberto Braga respondia: "Essas críticas são injustas. Sou antirracista."
Cena de blitz também abordou racismo em Pátria Minha
Outra cena de Pátria Minha também abordou o racismo. Nela, três personagens são parados pela polícia. Kennedy é revistado, enquanto Alice (Cláudia Abreu) e Rodrigo (Fabio Assunção), que são brancos, não passam pelo mesmo tratamento.
"Eu te garanto que não vão parar a gente, não. Eu passo, por dia, no mínimo em uma blitz e nunca me pararam", diz o personagem de Assunção. Kennedy responde: "É, mas eu sou preto, né, Rodrigo? Não é a mesma coisa branco e preto em uma blitz, não. Pode apostar que eles vão mandar parar a gente porque eu estou aqui dentro".
Na sequência, um policial pede para que os três desçam do carro, mas revista apenas o personagem negro. Rodrigo e Alice questionam a abordagem, mas a autoridade pede que deixem o local.
Alice, revoltada, pensa em voltar para tirar satisfações, mas é demovida da ideia pelos amigos. "A gente vive em um País racista. Já está mudando, tanto é que virou crime", diz o personagem de Fabio Assunção.