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"Ninguém quer saber de pessoas com deficiência pretas e pobres"

Família atípica afirma ser ameaçada por vizinhos em conjunto habitacional e crítica indiferença de representantes da diversidade.

9 jun 2023 - 14h03
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Gabriela e Moisés.

Uma família atípica afirma ser ameaçada por vizinhos em um conjunto habitacional de Sorocaba (SP) e chama a atenção para a invisibilização de pessoas com deficiência pretas e pobres, além de criticar a indiferença de representantes da diversidade.

Gabriela, Moisés e o menino Beny, filho do casal, três pessoas negras e com deficiência, moravam em um apartamento no andar térreo do condomínio Jerivas, no bairro Carandá, mas tiveram que fugir do local no começo desta semana e estão abrigados na casa de amigos.

O problema começou com um pedido de compreensão sobre as características da família. Gabriela Pereira dos Santos, de 36 anos, e Moisés dos Santos Silva, de 30, são autistas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade). O diagnóstico do marido ainda não está confirmado e pode incluir dislexia. Benyamin Luiz, de 8 anos, tem síndrome de Down, é autista e surdo.

"O conjunto tem regras sobre barulho, espaço para brincar, fumódromo e o horário certo para todas essas atividades, mas uma família específica não respeita nada, fumam até maconha na frente da nossa janela. Então, com toda educação, sempre pedimos para entenderem como isso dificulta muito nossa rotina. Fico desregulada, meu filho entra em crise", explica Gabriela.

"São cinco anos nessa situação, fizemos uma reclamação formal à sindica, esses vizinhos nos xingam, gritam de propósito na nossa janela. Chamamos a polícia várias vezes, a viatura vem, todos mentem e, depois que os policiais vão embora, recomeça a baderna", conta. "Em nosso prédio vivem outras pessoas com deficiência, inclusive autistas, e eu ainda preciso dar apoio a esses moradores", comenta Gabriela, que atua na divulgação de informações sobre diversidade e inclusão, participa de eventos, faz palestras e narra essa rotina no perfil @familiaafroatipica no Instagram.

Nesta semana, a família conseguiu registrar dois boletins de ocorrência pela Internet. Um deles indica os nomes de vizinhos que teriam feito as ameaças. Gabriela diz que filmou as intimidações mais recentes, publicou nas redes e incluiu esses vídeos no registro.

O outro boletim trata especificamente de um casal. Segundo Gabriela, um homem que se apresenta como "presidente" do conjunto habitacional e a esposa dele incentivam as ameaças e participam das intimidações.

"Foram as calúnias e as difamações desse casal que nos expulsaram do condomínio. Fiz o vídeo. Ela diz que espanco meu filho e que escuta isso da casa dela. Por isso, pedi relatórios a todos que cuidam do Beny para comprovar a mentira dela e também pedi depoimento às famílias que me indicam como referência de mãe para dar suporte a crianças com deficiência", ressalta Gabriela.

Invisibilidade e indiferença - Gabriela afirma se sentir abandonada pela mesma rede de pessoas com deficiência que costuma apoiar. "Perceba que ninguém quer saber de pessoas com deficiência pretas e pobres", desabafa.

"Não estou bem, tento entender tudo isso. Estou paralisada e revoltada por sempre fazer o certo e sofrer a vida toda. Cadê os movimentos sociais, de direitos humanos? Quem nos ajuda é tão pobre quanto nós. Há cinco dias que só falo sobre nossa situação e ninguém que eu já ajudei com meu trabalho me estendeu a mão. Somente o líder de um quilombo de pessoas com deficiência me procurou. O resto está mais preocupado com as celebridades, se pardo é preto. Cadê o povo que levanta bandeira do autismo?", questiona Gabriela.

O blog Vencer Limites tem cópias de todos os vídeos e documentos mencionados, mas esses arquivos não foram divulgados aqui por questões de segurança.

Não foi possível fazer contato com outros moradores do conjunto habitacional citado.

Gabriela, Beny e Moisés têm deficiências.

Estadão
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