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É hora de ser mãe?

A decisão de ter filhos pode ser difícil para algumas mulheres. Para especialistas, toda escolha implica perdas - o importante é estar consciente delas

7 mai 2022 05h10
| atualizado às 14h29
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Ter ou não ter filhos? Se para uns a resposta para essa pergunta pode vir de forma clara e imediata, para outros, ela pode representar uma questão complexa. Escolher ter um filho é uma grande decisão - talvez uma das mais importantes da vida -, mas nem sempre é fácil tomá-la.

"Quando eu penso no futuro, me imagino com mais pessoas na minha família, provavelmente, filho(s), mas estou em um momento da vida tão gostoso, que gostaria de prolongá-lo", diz a empresária Ana Emilia Greca Schmidt, de 36 anos. Casada há 7 anos, ela conta que desde então a cobrança para ter filhos vem sendo cada vez maior. Entre as frases que mais escuta estão: "Quem vai cuidar de você quando ficar velha?", "É um amor tão grande que você precisa conhecer", "Nossa, como você é egoísta", "Tem certeza de que não irá se arrepender?", "Ah, mas você leva tanto jeito com criança...", "Tá na hora de congelar seus óvulos, você já não é mais menina e a probabilidade de o bebê nascer com a síndrome x, y, z é maior".

A mãe da empresária engravidou com 36 anos, o que era considerado tarde para os padrões da época, e isso sempre a tranquilizou. Mas agora que chegou à mesma idade, as dúvidas se intensificaram. "Vejo a convivência que minha mãe e meus sogros têm comigo e com meu marido e adoraria ter essa relação um dia. Ao mesmo tempo, convivo com diversas mães que reclamam sobre como suas rotinas mudaram, o quanto gostariam de voltar a ter a vida de antes e fico com muito medo de ter filhos e me sentir como elas. Aí penso, será que vale a pena?"

Aos 36 anos, Ana Emília tem dúvidas se quer ter filhos ou não: "Será que vale a pena?"
Aos 36 anos, Ana Emília tem dúvidas se quer ter filhos ou não: "Será que vale a pena?"
Foto: Reprodução/Instagram

Além disso, seu maior receio em ser mãe é deixar de ser ela mesma, de passar a ser a pessoa que só vive para o outro, que deixa de ser feliz para se doar. "Sei que relações saudáveis envolvem doação dos dois lados, mas esse é um ponto que me incomoda", relata.

A história de Ana Emilia é apenas uma amostra das preocupações que afligem muitas mulheres que convivem com a dúvida sobre ter ou não filhos. A terapeuta Ann Davidman é especializada em auxiliar pessoas que estão nesse processo. Em seu livro Motherhood - Is It For Me? (Maternidade - Isso É para Mim?, em tradução livre), revela que muitos de seus clientes dizem se sentir como os únicos que não conseguem tomar uma decisão. "Eu os aviso imediatamente: vocês não estão sozinhos. Nossa sociedade permite pouco espaço para ambivalência em torno da questão."

Ela avalia que isso acontece porque vivemos em um mundo pró-natalista, no qual a mensagem tácita é que todos deveriam querer ter filhos. "Embora o crescente número de mulheres que estão optando por não ter filhos rejeite essa noção, as vozes mais altas desse grupo tendem a articular uma decisão segura de não ter crianças. No entanto, para muitas pessoas é difícil saber o que elas realmente querem. E às vezes pode parecer que todos os outros chegaram a uma resposta com facilidade. Muitos supõem que chegará um momento para cada um de nós quando 'simplesmente saberemos'. Mesmo que seja o caso de alguns, é um mito pensar que é assim para todos", enfatiza.

Transformação

A indecisão também fez parte da vida de Mariana Dufloth, de 33 anos, terapeuta educacional e mãe da Helena, de 3 anos. "Por muito tempo eu acreditava que filhos eram sinônimo de desgaste, algo que apenas dava gasto e dor de cabeça, não conseguia ver que também tem um lado extremamente enriquecedor. A mudança veio com o amadurecimento. Além disso, ser pai era um desejo inegociável do meu marido, manifestado desde que nos conhecemos. Logo, se eu escolhesse me casar com ele, sabia que precisaria abrir essa porta."

Mariana conta que a gravidez não foi algo pensado, "simplesmente permiti que acontecesse e fui vivendo, me entregando às etapas", recorda. Hoje em dia, ela avalia que não tinha a menor ideia da transformação que um filho traria. "A maternidade é um portal, a gente nunca mais volta. Nem para o corpo, nem para a cabeça, nem para o estilo de vida, nada. É uma mudança definitiva, o que não significa que é ruim", explica.

Segundo ela, a maternidade é uma transformação. "É uma outra vida, completamente diferente, você se transforma de maneiras que nunca cogitou, vê o mundo com outras lentes. Pode ser desesperador e maravilhoso", admite Mariana.

Mas como saber se quero ter filhos? "Não há planilhas de prós e contras que vá dar conta de sustentar uma decisão como essa. Apenas o exame cuidadoso do desejo", avalia Fernanda Lopes, psicanalista com formação em Psicanálise da Parentalidade e da Perinatalidade pelo Instituto Gerar. Para quem está em dúvida, ela sugere que se dê a oportunidade de refletir mais, lembrando que cada escolha traz uma renúncia, sempre com perdas e ganhos.

Pressões

A premência do tempo pode deixar tudo mais dramático, uma vez que a fertilidade feminina começa a cair aos 35 anos, embora os avanços na ciência e a possibilidade de adoção reduzam um pouco a angústia da dúvida. Já a pressão social pela procriação faz parte de uma herança patriarcal que restringe a mulher à função materna. "Da mulher é esperada a maternidade. E se ela não acontecer por limitações físicas, há compreensão, mas se ela não acontecer porque não há desejo, tem e sobra muito julgamento", esclarece a educadora parental Lia Vasconcelos. Ou seja, para além de ter de lidar com sua própria dúvida, a mulher ainda se vê com medo do julgamento alheio.

Então, o quanto querer ser mãe é um desejo genuíno e o quanto é um cumprimento de uma expectativa? Para a especialista, a única maneira de descobrir é olhando para dentro e tentando entender o que é seu e o que é imposição da sociedade. "É um processo difícil e doloroso. As coisas se misturam e é complexo fazer uma dissociação de até onde vai meu desejo e o espaço que a pressão social ocupa dentro da gente", observa.

Lua Barros, educadora parental, fundadora da Rede Amparo e especialista em inteligência emocional, ensina que nossos desejos são construções sociais. "Desejamos coisas a partir do nosso contexto, do que vemos, ouvimos, sentimos. É tolo pensar que 'ser mãe' escapa disso. O que precisamos entender é que ser mãe muda a maneira como a sociedade percebe e julga a mulher, então, essa decisão ganha contornos políticos sobre os quais não pensamos antes de termos filhos. Ou até pensamos, mas não dimensionamos", afirma.

Entre os muitos fatores que devem ser levados em consideração na hora de decidir, ela indica que vale pensar sobre rede de apoio e quem são as pessoas que podem cuidar da mãe, e não da criança, no primeiro momento da chegada. Outro ponto importante é dialogar com o parceiro ou parceira sobre o que cada um pensa a respeito da responsabilidade de ter filhos.

Como se preparar

"Para a maternidade, prepara-se vivendo-a. Não há outra maneira", enfatiza Lia Vasconcelos. A educadora não acredita que seja possível 'se preparar' para a maternidade porque ela é 'um portal'. "Cada mãe/família encontrará uma realidade diferente depois dessa travessia", revela.

Mas é preciso ter em mente a necessidade de estar aberta ao novo, ao descontrole e à transformação, já que as vidas pré e pós-maternidade não são as mesmas. "Tem muita mulher que muda de carreira depois que vira mãe, por exemplo, e isso diz muito sobre como a maternidade mexe com as estruturas mais internas que temos. O que sai dessa vivência é próprio de cada processo", assegura.

Segundo ela, saber como será a gestação, o parto e a amamentação é a parte mais tranquila, já há muita informação e cursos disponíveis. "O desafio está em entender que a maternidade trará enorme desconforto porque é como um terremoto interno. E acho que as pessoas não têm a dimensão desse chacoalhão quando resolvem ter filhos. E esse processo não é bom nem ruim necessariamente, só é diferente para cada um", destaca.

Lua Barros avalia que as mulheres contemporâneas sofrem justamente por essa premissa: é preciso estar pronta. "Mas ser mãe é um constante processo de recomeço e isso é muito potente", declara. Ainda assim, ela acha válido ler sobre feminismo, ancestralidade, entender por que o parto se tornou um evento tão medicalizado.

"Vale se conhecer com mais profundidade. Vale reafirmar e cuidar das amizades e das relações com a família de origem, se for possível, porque o retorno para esse ninho de onde viemos é quase inevitável. E, principalmente, vale entender como foi a nossa própria infância, porque é aí que estão os maiores gargalos quando nos tornamos pais e mães", atesta.

Na opinião de Mariana Dufloth, é muito importante estudar sobre desenvolvimento humano, disciplina positiva, funcionamento do cérebro... "Até para fazer um bolo caseiro a gente procura receita, vê vídeo no YouTube, se prepara e acha que educar outra pessoa vai ser instintivo e natural. Não é", adverte. "Informação é valiosa demais na hora de tomar decisões, lidar com comportamentos difíceis, responder a cada pergunta. Foi procurando essas respostas que encontrei um caminho leve e que funciona de verdade."

COMO DECIDIR

Especialista em Terapia de Família pela UFRJ, a psicóloga Daniele Lopes sugere reflexões para ajudar na tomada de decisão.

  • Faça um "estágio"

Cuide de um bebê por algumas horas em diferentes momentos. Após viver a experiência e observar a dinâmica da família com a criança, refaça essa pergunta a si mesmo - imaginando que esse estágio que você vivenciou por um curto período durará anos em sua vida.

  • Objetivos

Antes de ter filhos, faça uma lista de tudo que deseja fazer sem eles, desde uma obra em casa até um mochilão pelo mundo. Visto que, após tê-los, alguns projetos terão de ser adiados.

  • Use o tempo a seu favor

?Se tem dúvidas, espere até os 30 anos. "O tempo lhe trará maturidade para criar e lidar com a situação de uma forma melhor do que alguém muito jovem."

  • Filho não salva relação

A chegada de um filho impacta na liberdade do casal. Não caia nessa armadilha.

Estadão
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