Djamila critica discurso que ignora desigualdades no empreendedorismo: "não é sobre capacidade"
Após aula magna no Pacto das Pretas 2025, em São Paulo, a filósofa conversou brevemente com o Terra
Escritora, filósofa e professora universitária, Djamila Ribeiro construiu uma trajetória que une ativismo, produção intelectual e atuação concreta contra o racismo e o sexismo. Autora de best-sellers como Pequeno Manual Antirracista (2019) e Lugar de Fala (2017), ela já vendeu mais de 1 milhão de exemplares e tornou-se referência mundial no debate sobre equidade racial e de gênero.
Em sua participação no Pacto das Pretas 2025 Etapa São Paulo, através de uma aula magna sobre reconstrução econômica, inovação e políticas públicas, Djamila abordou as raízes do empreendedorismo negro. Segundo ela, é urgente romper com a visão neoliberal que transforma o “empreenda e vire CEO” em solução mágica e descolada da realidade. “Mulheres negras empreendem, muitas vezes, por necessidade, por não ter um emprego formal. E são também as que mais enfrentam barreiras de acesso a crédito e à formalização”, afirmou ao Terra.
A filósofa também critica o discurso meritocrático, que ignora diferenças histórias, como a escravidão e exclusão social da população negra. “Não é sobre capacidade, porque isso nós temos, é sobre partir do mesmo lugar de oportunidade”, resume. “Não dá para esperar que pessoas diferentes, com históricos de séculos de desigualdade, tenham os mesmos resultados. O mérito só pode ser avaliado quando todos partem das mesmas condições”.
Ainda em 2025, Djamila entrará para a história ao se tornar a primeira brasileira a lecionar no Programa Dr. Martin Luther King Jr., do prestigiado MIT (Massachusetts Institute of Technology), nos Estados Unidos. A iniciativa, que homenageia a luta por justiça social, consolida seu reconhecimento internacional. Durante a aula magna, ela relembrou sua trajetória ao ser ao ser a “primeira da minha família a ter acesso ao ensino superior graças às políticas públicas de educação e isso mudou todo o ciclo da minha família. [...] Eu vou dar aula no MIT, e celebro essa oportunidade, mas sempre me lembro de ter 28 anos e estar começando a faculdade com uma filha pequena em casa”.
Djamila também coordena a coleção e o espaço Feminismos Plurais, dedicado a facilitar o acesso a formações diversas, além de oferecer apoio jurídico, psicológico e odontológico gratuito para mulheres em situação de vulnerabilidade.
Pacto das Pretas 2025
Em sua quarta edição em São Paulo, o evento passou pela primeira vez pelo Rio de Janeiro, no dia 18 de julho, e aterrissa no dia 1 de agosto em Recife. O evento, que é gratuito e aberto ao público, surge como um movimento coletivo para incluir e evidenciar a presença de mulheres pretas em posições de liderança e com poder de decisão.
Promovido pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial, o encontro reuniu lideranças femininas de grandes empresas, como Ifood e AMBEV, mas também incluiu pequenas empreendedoras como a ilustradora Bruna Bandeira, da Imagine e Desenhe, que, em entrevista, destacou a importância da “arte como meio de conexão entre mulheres pretas”.
Já a embaixadora do evento, e também escritora, Grazi Mendes, falou sobre a necessidade deste tipo de coletivo para viabilizar mudanças favoráveis a população negra baseadas em dados personalizados. “A realidade brasileira é muito diferente de outros países, como os Estados Unidos, então trazemos números para pensar em progresso sem deixar de fora quase 60% da população, porque pensar em questões raciais no Brasil, é pensar no futuro do país”, afirmou ao Terra.
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