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Democracia americana vive dilema

Quinta, 09 de novembro de 2000, 01h09min
Os aproximadamente 100 milhões de norte-americanos que foram às urnas na terça-feira para eleger o sucessor do presidente Bill Clinton deram cerca de 170.000 sufrágios de vantagem ao vice-presidente Albert Gore em relação a seu rival republicano, o governador do Texas, George W. Bush. Mas Bush, contando por antecipação com uma vitória na inacreditavelmente apertada eleição no Estado da Flórida, que ainda não foi determinada de forma definitiva, e certo de ter prevalecido na contagem dos votos do Colégio Eleitoral, que constitucionalmente define o pleito, proclamou sua vitória na tarde de hoje (08).

O resultado oficial da mais extraordinária eleição presidencial da história do país poderá ser conhecido hoje à noite, quase 48 horas depois do encerramento da votação, quando o vice-governador e secretário da Justiça da Flórida, o democrata Robert Butterworth, anunciará o resultado da recontagem dos votos.

Ela começou hoje em Tallahassee, a capital do Estado, sob os olhares vigilantes das delegações dos dois candidatos chefiadas por ex-secretários de Estado, o republicano James Baker e o democrata Warren Christopher.

"Não creio que os EUA estão diante de uma crise constitucional", disse Christopher, depois de reunir-se com Gore, em Nashiville, a caminho da Flórida. Numa breve declaração aos jornalistas, Gore disse que a eleição devia ser resolvida logo, mas sem julgamentos apressados, e prometeu respeitar o resultado, uma vez que este se torne claro.

Mas o presidente da campanha democrata, o ex-secretário de Comércio Bill Daley, não descartou a possibilidade de contestação judicial dos resultados. Fontes do Partido Democrata indicaram hoje à noite que havia forte pressão da base nessa direção.

Tal decisão poderia criar uma situação sem precedentes, na qual Gore se recusaria a reconhecer a derrota e agravaria o problema de legitimidade criado pela discrepância entre os resultados da votação popular e do Colégio Eleitoral.

Porta-vozes democratas disseram hoje que milhares de seus eleitores foram alvos de intimidação e denunciaram diversas irregularidades. Em Palm Beach, centenas deles queixaram-se da confusa cédula usada na votação. Elas aparentemente induziram centenas de idosos que pretendiam apoiar Gore a votar pelo candidato nanico Patrick Buchanan.

Nos Estados Unidos, é comum cada distrito fazer sua cédula porque, além de participar das votações nacionais e estaduais, os eleitores escolhem funcionários locais, como prefeitos, vereadores e xerifes, e se pronunciam sobre propostas submetidas a referendo.

A suspeita de que havia algo errado surgiu porque Buchanan, que vinha recebendo uma média de 400 votos por urna, obteve mais de 3.400 em Palm Beach, ou cerca de 20% de seus votos totais. O exame da cédula mostra que era fácil fazer confusão, pois, embora Gore figurasse como o segundo nome da cédula, o lugar para confirmar o voto no candidato democrata era o terceiro. "Era virtualmente impossível saber para quem você estava votando", disse Mark Hirsch, um executivo de 30 anos que apoiou o candidato do Partido Verde, Ralph Nader.

No início da noite de hoje, o governador da Flórida, Jeb Bush, irmão do candidato republicano, criticou os meios de comunicação por veicular "alegações de irregulariades". Ele desmentiu versão divulgada pelas agências de notícias segundo a qual uma urna teria sido encontrada numa escola ao sul de Miami, onde há forte concentração de eleitores democratas.

Ele disse que, para evitar aparência de conflito de interesses não participaria de nenhuma forma da recontagem, que segue regras estabelecidas em lei.

A primeira apuração dos quase 6 milhões de votos terminou com Bush à frente de Gore por meros 1.655 e provocou a recontagem automática exigida pelas leis locais sempre que a diferença entre o primeiro e o segundo colocados é menor do que 0,5% do total de sufrágios registrados.

"O povo norte-americano pronunciou-se, mas vai levar algum tempo para determinar exatamente o que ele disse", disse Clinton, resumindo a perplexidade do país diante de uma eleição que desmentiu praticamente quase todas as expectativas, viu Gore e depois Bush serem declarados vencedores da Flórida pelas redes de tevê num intervalado de algumas horas e chegou a estar decidida na madrugada de hoje, levando o próprio Gore a telefonar a Bush para conceder-lhe a vitória, antes de ser novamente dada como empatada e indefinida. "Nenhum norte-americano poderá mais dizer, seriamente, que seu voto não conta", afirmou o presidente.

As recontagens de votos nos EUA raramente produzem uma alteração significativa, capaz de mudar o primeiro resultado anunciado. Os primeiros seis distritos onde os votos começaram a ser recontados, ontem à tarde, revelaram uma diferença de apenas 36 votos a favor de Gore.

Militantes democratas alimentavam a esperança de que as urnas de uma área fortemente democrata da região de Miami, que aparentemente tinham desaparecido e foram localizadas hoje num bairro negro, contenham os sufrágios necessários para colocar o vice-presidente à frente e dar-lhe os 25 votos eleitorais da Flórida. Somados aos 260 que obteve nos Estados da Nova Inglaterra e do Meio-Oeste, mais os da Califórnia, Washington, Novo México e Havaí, eles colocariam o vice-presidente acima da maioria de 270.

A favor de Bush havia, no entanto, cerca de 2.000 votos por correspondência, na maioria solicitado por militares em serviço no exterior, que tendem a apoiar candidatos republicanos.

A votação para a Câmara dos Representantes e o Senado manteve o Congresso sob o controle dos republicanos, mas com maiorias mais apertadas do que já tinham antes, mostrou um país politicamente dividido ao meio, o que reduz a praticamente zero as chances de aprovação do programa de governo que Bush apresentou em sua campanha e aponta para quatro anos de possível estagnação e paralisia política.

O cientista político Sandy Masiel, do Colby College, disse hoje que acha improvável que o desencontro do voto popular com os resultados do Colégio Eleitoral - o terceiro nas 54 eleições presidênciais da história dos EUA - leve a uma reforma constitucional e a uma mudança do sistema de escolha do presidente para o voto direto, usado na maioria dos regimes republicanos. "Haverá muita discussão, mas nada mudará porque todos aceitaram a regra do jogo", disse ele.

"Se alguém chegasse a Hollywood com um roteiro de filme com o drama que vivemos esta noite, teria seu trabalho rejeitado e seria expulso da associação dos roteiristas por exagerar na ficção", disse no início da madrugada o produtor Rob Reiner, que viveu as muitas emoções da noite no comando da campanha de Gore, em Nashville.

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Agência Estado

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