A 140 quilômetros por hora, um furgão blindado Mercedez Benz transitava pelas avenidas de Lima, rompendo a tranqüilidade da madrugada da capital peruana. A bordo, estavam o presidente peruano, Alberto Fujimori, dois assessores, um segurança e uma outra pessoa que não foi identificada. O veículo era seguido por outros três furgões lotados de agentes de segurança que tentavam fechar um carro que conduzia jornalistas da Radioprogramas de Perú (RPP) e evitar a perseguição.O veículo de Fujimori partiu surpreendentemente da Casa de Pizarro, sede do governo, por volta da 1h (3h de Brasília). Cerca de 15 minutos depois, chegou ao quartel-general do Exército, conhecido como "Pentagonito", no distrito limenho de San Borja. Os repórteres da RPP só chegaram ao local depois que o veículo presidencial já tinha entrado no quartel. Quando o carro saiu, os jornalistas não conseguiram identificar Fujimori entre seus ocupantes, gerando a especulação de que o presidente passou a noite no quartel.
Quando o dia amanheceu, nenhum político ou assessor comentou a visita do presidente aos chefes militares na calada da noite nem confirmou ou desmentiu que Fujimori tivesse passado a noite no quartel, mas o fato lançou mais nuvens negras no sombrio cenário atual da política peruana. Justamente no momento em que começavam a surgir indicações de que uma solução negociada para a crise política era iminente, o fantasma de uma aventura militar voltava a rondar o país.
"Apesar das especulações, não acho possível que Fujimori tenha ido ao Pentagonito para urdir alguma quartelada", disse à Agência Estado uma fonte diplomática latino-americana em Lima. "Se houvesse alguma possibilidade de um golpe de Estado, ela seria desfechado contra Fujimori e não por ele. Além disso, há três fatores que desestimulam as previsões de que haja um golpe de Estado em marcha", prosseguiu.
"Primeiro: o momento mais propício para que os militares desfechassem um golpe já passou. O timing ideal seria no sábado ou no Domingo, quando o país estava mais ou menos convulsionado pelo anúncio de Fujimori de que se afastaria do poder depois de novas eleições. Segundo: o Peru é hoje um país extremamente dependente de investimentos estrangeiros e os militares têm plena consciência de que uma aventura golpista não duraria mais do que 24 horas. E terceiro: as forças militares não estão tão coesas a ponto de levar um golpe de Estado adiante", enumerou a fonte.
Antes da incursão de Fujimori pela madrugada, começava a tomar forma jurídica sua proposta de realizar novas eleições gerais. O ministro da Justiça, Alberto Bustamente, assinalou que as regras para a nova votação poderiam ser estabelecidas por meio de reformas constitucionais a serem enviadas ao Congresso. Pela fórmula, as eleições poderiam realizar-se em março e o novo presidente tomaria posse em 28 de julho. Bustamante ressaltou, contudo, que não estava fazendo um anúncio pessoal, mas sim expressando sua opinião.
A Constituição peruana de 1995 não prevê a convocação de novas eleições por parte do presidente da república e, também por força da Carta, emendas constitucionais só passam a vigorar na Legislatura do Congresso seguinte àquela que as aprova. Assim o mandato dos atuais congressistas tem de ser reduzido para terminar em dezembro ou janeiro, para que as eleições se realizem na Legislatura seguinte. A proposta de Bustamente foi bem recebida por setores importantes da sociedade peruana, como a Defensoria do Povo, presidida por Jorge Santistevan, a Igreja Católica, representantes da Organização de Estados Americanos (OEA) e alguns membros da oposição.
O prazo, entre seis e sete meses para a votação, daria tempo para que os partidos se organizem, os organismos da Justiça eleitoral renovem sua direção e a eleição se torne tecnicamente viável. Apesar do principal líder da oposição, Alejandro Toledo, estar exigindo eleições em quatro meses, a votação em março ou abril pode ser aceitável.
Enquanto se acendiam as fracas luzes de uma saída negociada para o que já vem sendo considerada a pior crise política do Peru desde o "autogolpe" de 1992, continuava o mistério sobre o paradeiro do ex-chefe do Serviço de Inteligência Nacional (SIN) Vladimiro Montesinos. Bustamante declarou saber que ele estava em Lima e não estava detido nem na base militar de Las Palmas, no bairro de Chorrilhos, nem em nenhuma outra instalação da polícia ou das Forças Armadas.
Hoje, em entrevista coletiva, o líder do partido Frente Independente Moralizadora (FIM), Fernando Oliveira - responsável pela divulgação da fita de vídeo que mostra Montesinos subornando um congressista da oposição, Alberto Kouri - negou versões de que a gravação tivesse chegado até suas mãos por meio de militares, membros do governo inimigos do ex-chefe do SIN ou por ação de agentes da CIA, a agência de espionagem dos EUA. Ele qualificou de "ridícula" a informação de que a agência de espionagem americana estava envolvida no episódio.
O segundo vice-presidente da república, Ricardo Marques, afirmou na manhã de hoje ter conhecimento de que membros do Executivo pediram às Forças Armadas que emitissem um comunicado tranqüilizando a sociedade civil. Mas até a noite de hoje, os oficiais mantinham silêncio sobre a situação política.
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(em espanhol)
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