Fernão Lara Mesquita
É impossível, sobretudo para um brasileiro, não simpatizar com o povo cubano. Somos parecidos demais em coisas demais para evitá-lo. A explicação está no componente negro da mistura de sangue cubano, idêntica à nossa, proveniente dos iorubás. A natural propensão para a alegria, a comida, a música, a ingenuidade e a ânsia de divertir-se tocam imediatamente. O elemento distintivo está no componente ibérico - o toque espanhol é nitidamente diferente do toque português - e na ausência de outras misturas introduzidas pela imigração em massa que houve aqui. Mas o que fundamentalmente nos distingue é tudo quanto se vê em Cuba que compõe a marca registrada dos regimes dos quais a ilha de Fidel é o último sobrevivente, e que me trouxe à memória o que tinha visto anos antes na China. O que há de mais chocante neles é a forma direta e despudoradamente explícita como negam, na prática, a essência de seu discurso, sem levar em conta nem sequer a delicadeza de evitar recriar os ícones fundamentais que levaram às revoluções que criaram esses regimes. Algo só imaginável para quem nunca teve de se preocupar com nenhum tipo de oposição.
Os momentos de abertura e transição, como este por que Cuba começa a passar, tornam isso chocantemente visível. Onde mais encontrar os riquixás (bicicletas com bagageiros onde um homem ao sol puxa dois passageiros à sombra, por dois ou três dólares)? Só os vi na China e em Cuba. Em que outro país pode-se ver os nacionais aceitando passivamente ter sua entrada proibida em estabelecimentos comerciais, restaurantes, hotéis, dentro de sua própria cidade? Pense-se numa placa, escrita ou subentendida, em qualquer lugar do Brasil, dizendo "proibido para brasileiros"... Onde mais o governo se apropria de mais de 90% do que um trabalhador ganha com seu suor, sem que isso seja contestado? O que é preciso ter passado para suportar isso passivamente ou, até, ver essa situação como um avanço?
O povo cubano se defronta diariamente, e o tempo todo, com as provas de que o melhor que há em seu país não é para ele. É barrado na porta. Não tem direito às mesuras que se fazem aos turistas. Os melhores produtos vendidos no país não podem ser comprados com a moeda com que é pago. Não tem acesso, nem sequer para ver, aos melhores cantos do país. Ouviu por 50 anos que o inferno são os estrangeiros e o símbolo do demônio é o dólar, mas aprende no cotidiano que sua sobrevivência depende estritamente de ambos. Mendiga um dólar com a sofreguidão de quem compra um passe para tudo que se possa ambicionar. Mais que isso, como quem sabe que disso depende a sua sobrevivência. E como tem pouco demais, entrega muito por muito pouco...
Um cubano não pode comprar o que quiser, mesmo que consiga guardar dinheiro para tanto. Tudo que vai além dos gêneros de primeira necessidade e dos bens de consumo imediato está sujeito a uma autorização para a compra, além do simples pagamento. Nenhum cubano pode ir a centros turísticos como Varadero ou Cayo Largo, que atraem gente de todo o mundo, a menos que trabalhe num dos hotéis da área. E sair do país, só se for para sempre.
Que efeitos vai provocar esse conflito entre discurso e realidade, ninguém pode afirmar. Mas os exemplos anteriores estão aí, para nos permitir imaginar. Por baixo do discurso oficial, de tom moralista, prospera uma moral muito mais elástica, pautada pela necessidade e não pela escolha ou pela ética. Povo e governo vivem, juntos, essa grande mentira, que faz prosperar a cultura daninha da pequena corrupção, preparando o terreno para o surgimento de um quadro parecido com o de dissolução que tomou conta da União Soviética depois da queda do Muro de Berlim.
Assim, apesar de toda a angústia deste fim de milênio, marcado pela insegurança geral no Ocidente, não posso deixar de agradecer a sorte que tive de ter podido viver num país onde, bem ou mal, a alternância no poder tem nos obrigado a ir fazendo a nossa parte do caminho, a ir aprendendo a garantir o respeito por cada interesse em jogo numa sociedade, e obrigado nossos governantes a encontrar os limites para as suas melhores intenções, cujo lugar mais adequado, Cuba confirma, é o inferno. Não posso deixar de agradecer a sorte de não ter de começar do zero tão tarde, como os cubanos terão de começar, um dia.