Fernão Lara Mesquita
Cuba não é um Estado policial no padrão dos que conhecemos na Europa do Leste. Não há um Nelson Mandela em suas prisões, pronto para tomar o poder quando Fidel desaparecer. Se houve um dia, o velho barbudo já se livrou de todos eles. Tolera-se, por exemplo, a pregação da Igreja, nos templos ou nas "casas de orações" (residências particulares onde os fiéis se reunem, na falta das igrejas). "Os cubanos precisam parar de ter medo", era o tema do sermão de uma missa assistida numa igreja de Havana. Aplica-se, na verdade, um sistema de "tolerância zero" nesse campo, tratando de "torcer o pepino de pequenino"; de prevenir o surgimento de qualquer resistência mais organizada.
Há dissidentes com endereço conhecido, que mandam faxes para embaixadas; que podem dar seu recado, desde que ajam isoladamente e que não despontem - ou muito menos se proponham - como alternativa de poder. Mas qualquer reunião que fizerem, os participantes serão chamados, no dia seguinte, a polícia, para uma pequena seção de intimidação verbal.
Não deixam que a coisa comece, enfim.
A emigração consentida é outra das válvulas de escape que Fidel, inteligentemente, criou e manteve por anos seguidos. Os descontentes simplesmente podem sair. Os Estados Unidos sorteiam, anualmente, 20 mil vistos de entrada para cubanos (junto com os greencards). E há 500 mil cubanos (5% da população da ilha, o que dá idéia do tamanho do descontentamento existente, ainda que silencioso) na fila para esse sorteio.
O que não se tolera é qualquer tipo de oposição que mantenha ligações ou se refira à "conexão Miami". Aí passa-se a ser um traidor da pátria, que é coisa diferente de um opositor. Nesse sentido, foi providencial o episódio Elián, que Fidel soube capitalizar com refinamentos de esperteza, e que acabou resultando na desqualificação dos cubanos de Miami como alternativa de poder perante a opinião pública da ilha.
Cuba vive uma guerra virtual com os Estados Unidos. E esta é a grande salvação de Fidel. O recheio permanente de seus discursos; a desculpa para todos os seus fracassos. Se os americanos quisessem realmente derrubá-lo, o melhor que teriam a fazer é suspender o embargo. Aparentemente, aliás, isso não está longe de acontecer. É até provavel que, logo, logo, o mundo comece a ver Fidel pondo dificuldades à consecussão desse passo, em vez dos americanos.
Apesar de não manterem relações oficiais, a "representação dos interesses norte-americanos" na ilha ocupa um enorme prédio na avenida principal de Havana, muito maior que o de todas as demais embaixadas estrangeiras, e delegações cada vez maiores de empresários dos EUA visitam a ilha, para especular sobre as futuras oportunidades.
Quanto a Miami, resta saber se algum cubano de lá pensa ainda, seriamente, em se apresentar como alternativa de poder. Os que estão lá, salvo raras exceções em vias de desaparecimento, são hoje americanos de segunda ou terceira geração.
O mesmo problema, aliás, se apresenta na própria Cuba: 87% da população da ilha ou não tinha nascido ou tinha menos de 10 anos quando aconteceu la revolución. O que conhecem dela, portanto, são slogans, discursos e fantasias distantes. Estão muito mais interessados nas novelas da Globo (El Ré del Ganado monopoliza, neste momento, as atenções do país).
Nas ruas, provocados, alguns cubanos atacam figuras como a de Raúl Castro, o "primeiro irmão", desde os primeiros dias o homem das armas, das guerras e da repressão; ou criticam pontualmente episódios relativamente recentes, como o fuzilamento, em 89, do general Ochoa (herói das campanhas da África, que comandou o próprio pelotão que o matou). Mas a queixa geral é contra a pobreza generalizada, o tamanho dos salários, a falta de perspectivas e, sobretudo, a falta de liberdade de movimento (que sempre surge relacionada à conversa sobre as novelas, que remete à conversa sobre o Brasil, à vontade de conhecer este país tan parecido a nosotros...e à impossibilidade de fazê-lo).
"Sucessão" é uma palavra absolutamente proibida. Ninguém fala no assunto de maneira nenhuma. E Fidel é o único membro do governo com direito a aparecer na mídia. A relação dos cubanos com ele parece ser a de filhos com pais, dividida entre amor e ódio, agradecimento e cobrança.
Fidel, que aparece cada vez menos nas ruas ou mesmo na mídia, experimenta no poder uma nova geração de ministros que também não estiveram na Sierra Maestra, como o vice Carlos Lage, "pai das reformas", e a maioria dos demais envolvidos com áreas com responsabilidade na economia. Nenhum, porém, desponta como alternativa de poder, embora se saiba que quase todos eles, nos fins de semana, viajam pelo interior de Cuba, mantendo contatos, conversando com la gente de uma forma que se parece muito com as técnicas de campanha eleitoral que se conhecem por aqui.
Nada explícito, porém. Nada que passe de uma pequena roda de ouvintes.
Na longuíssima entrevista que deu para Federico Mayor, ex-diretor da Unesco, impressa em brochuras à venda em bancas de jornais de Cuba, Fidel, que completa 74 anos no dia 13 de agosto, responde de modo enigmático e terminativo às perguntas sobre sucessão: "El problema no se presenta"...