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A pressa do motoboy é antiga — o algoritmo só piorou (muito) as coisas

Antes dos aplicativos, pesquisas já descreviam metas rígidas acelerando motociclistas. Hoje, a pressão vem do algoritmo aumentando o número de acidentes

24 set 2026 - 18h00
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Resumo
Pesquisas mostram que a lógica dos aplicativos de entrega piorou a rotina dos motoboys, gerando acidentes e adoecimento mental ao estimular velocidade por meio de bônus e vigilância constante. Embora a Lei 12.436/2011 proíba incentivos que aumentem a velocidade, plataformas mantêm desafios de produtividade, alegando serem apenas intermediadoras. Diante do impacto na saúde pública e na Previdência, empresas adotam medidas de segurança, enquanto o governo debate a regulamentação do setor.

Baixar um aplicativo móvel era tão complicado que ganhou meia página de instruções n'O Estado de S. Paulo de 19 de dezembro de 2005, quando bancos introduziram seus primeiros apps no Brasil. Nessa mesma época, três pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais já estavam publicando um trabalho sobre por que motociclistas profissionais se acidentavam.

O resultado é o que ela chama de pauperização: "O entregador é impelido a fazer a maior quantidade de entregas que for possível, no menor tempo, e aceitando todas as solicitações encaminhadas pela empresa-plataforma digital, ainda que em condições inseguras, para auferir uma renda mínima."

Sobre a camada de jogo que as plataformas acrescentam a isso, ela observa que as bonificações costumam aparecer nas piores horas. "Muitas destas 'promoções' criadas pelas empresas ocorrem em períodos de chuva ou em momentos festivos."

Um estudo ergonômico da mesma equipe, feito em Salvador, registrou a frase de um entregador sobre esse ponto: "o mais cruel é que o dia em que mais chove é também o dia em que se ganha mais".

Isso sem contar o monitoramento contínuo, diz a pesquisadora: "a hipervigilância com ferramentas de geolocalização, por si só, é um potente acelerador do trabalho".

Lei que parece ignorada

Existe desde 2011 uma legislação federal desenhada exatamente contra esse modelo.

É a Lei 12.436, que veda a empresas e tomadores de serviço de motociclistas "estabelecer práticas que estimulem o aumento de velocidade" e lista três delas: oferecer prêmios por cumprimento de metas por número de entregas; prometer ao consumidor a dispensa de pagamento se o produto atrasar; e estabelecer competição entre motociclistas para elevar o número de entregas.

A multa vai de R$ 300 a R$ 3.000, aplicada sempre no grau máximo em caso de reincidência ou de simulação para fraudar a lei.

O texto já foi usado na Justiça em 2016, quando o Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais determinou que uma rede de pizzarias de Belo Horizonte parasse de remunerar entregadores pelo número de entregas, por entender que a prática estimula o aumento de velocidade.

Mesmo assim, diferentes empresas de delivery oferecem "desafios" com frequência ao motoentregador brasileiro: são bônus de até R$ 500, concedidos mediante o cumprimento de determinados números de viagens e de entregas em certo tempo. Argumenta-se, porém, que a mera intermediação do serviço é diferente do serviço de motofrete, tratado pela lei federal.

A Uber contesta desde 2019 a correlação entre aplicativos de entrega e o aumento de acidentes com motociclistas. Naquele ano, quando a Prefeitura de São Paulo negociou o fim dos bônus por número de entregas, iFood e Loggi aderiram; Uber Eats e Rappi, não. A companhia afirmou então que seguiria investindo em tecnologia em benefício de usuários, motoristas e entregadores parceiros.

Foi a primeira plataforma a aderir ao programa municipal de monitoramento de direção segura do Rio de Janeiro: segundo a empresa e a prefeitura, os acidentes com seus motociclistas caíram 24% nos três primeiros meses, e 53% dos monitorados melhoraram o comportamento ao volante. A companhia também diz destinar R$ 50 milhões a pontos de apoio para descanso, dois deles já abertos na capital fluminense.

Em carta conjunta, Uber e 99 dizem defender uma regulamentação "com regras modernas e equilibradas, capaz de enfrentar os desafios da segurança viária sem abrir mão dessa alternativa que amplia o acesso à mobilidade e gera renda para milhares de famílias".

Já o iFood diz promover o programa Direção Segura, lançado em Porto Alegre em outubro de 2025 e estendido ao Rio neste ano, que usa telemetria para comparar a velocidade do entregador com o limite de cada via e converte o resultado em nota.

Essa nota passou a integrar o Score do iFood — o mesmo sistema que distribui os pedidos. Quem dirige bem recebe mais entregas; quem apresenta comportamento de risco tem a oferta reduzida até melhorar os indicadores. Segundo a companhia, os comportamentos de risco caíram 59% entre os participantes.

A empresa mantém ainda o Anjos de Capacete, que desde 2020 treina entregadores em primeiros socorros, e planeja chegar a 72 pontos de apoio em 20 cidades até o fim deste ano.

Em outras palavras, a aceleração é uma ação privada, mas com resgate coletivo, do SUS. Quem não contribuiu com a Previdência enquanto estava na rua tampouco recebe dela quando sai — e a conta desce para o sistema público de saúde e para a própria família.

Outro braço da mesma pesquisa, publicado no International Archives of Occupational and Environmental Health, ainda encontrou 25,6% de entregadores com diagnóstico médico de ansiedade, depressão ou síndrome do pânico. Trabalhar em ritmo acelerado apareceu associado a 55% mais transtornos mentais.

De fatores como esses vêm as críticas de gestores públicos, classificando esse modelo como um que, ao gerar renda sem gerar contribuição transfere, à Seguridade Social custo que nasceu privado.

O governo federal começou a mexer nisso em março, ao anunciar que as plataformas passarão a informar ao consumidor quanto do valor pago fica com o aplicativo e quanto vai para o trabalhador, além de prever pontos de apoio para descanso e criar um comitê interministerial de monitoramento.

A regulamentação mais ampla, o PLP 152/2025, segue emperrada na Câmara: o relator, deputado Augusto Coutinho, defende piso de R$ 8,50 por entrega de até quatro quilômetros de moto, o governo quer R$ 10, e o ministro Guilherme Boulos classificou a última versão do parecer como retrocesso.

Estadão
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