20 anos de Okami: A obra-prima que nasceu do fim de um estúdio
Um clássico que superou o fracasso comercial e transformou seu próprio fim em legado
No panteão dos grandes clássicos, existem jogos que definem gêneros e jogos que transcendem a própria mídia. Okami pertence ao segundo grupo. Lançado originalmente para o PlayStation 2 em abril de 2006, o título da Clover Studio e da Capcom completa duas décadas carregando um dos legados mais agridoces da indústria: o de ser um triunfo artístico absoluto que, ironicamente, selou o destino de seus criadores ao falhar onde a indústria costuma ser mais implacável: nas vendas.
Relembrar Okami hoje não é apenas um exercício de nostalgia, mas uma reflexão sobre como o mercado muitas vezes demora a entender o que é verdadeiramente genial.
Um pincel, uma deusa e uma ideia diferente
A Clover Studio, um braço da Capcom que fervilhava com talentos como Shinji Mikami (Resident Evil) e Hideki Kamiya (Devil May Cry), tinha uma missão clara: criar algo novo. E eles entregaram uma lenda.
Okami não queria apenas contar uma história — queria ser uma pintura em movimento. Inspirado na estética tradicional japonesa, com traços que remetem ao Sumi-e, o jogo colocava o jogador no papel de Amaterasu, a deusa do sol em forma de loba branca, em uma jornada para restaurar a cor e a vida a um mundo consumido pelas trevas de Orochi.
A Capcom poderia ter apostado em algo mais seguro. Mas Okami era o oposto disso: um jogo contemplativo, que trocava urgência por atmosfera, combate frenético por expressão artística. O Celestial Brush, sua principal mecânica, transformava cada ação em um gesto criativo — desenhar era, literalmente, jogar. Era um jogo que pedia tempo. E isso, em 2006, já era um risco.
O fracasso que ninguém viu chegar
Apesar da aclamação quase unânime da crítica, Okami teve um desempenho comercial decepcionante no PlayStation 2. Em uma era dominada por grandes franquias de ação e títulos de apelo mais imediato, sua proposta parecia deslocada — sofisticada demais para o grande público, e tranquila demais para competir com os gigantes da época.
O resultado foi drástico. O baixo desempenho comercial de Okami, somado a outros títulos experimentais como God Hand, levou a Capcom a fechar a Clover Studio em 2007. Daquelas cinzas, como muitos já sabem, nasceria a PlatinumGames (Bayonetta, Vanquish, Nier: Automata).
Mas o estrago estava feito: um dos estúdios mais criativos da história deixava de existir justamente após entregar sua obra-prima. E Okami viraria uma daquelas obras que todo mundo respeita, mas que poucos jogaram.
A Fênix do nanquim
O tempo, porém, foi um juiz melhor. O que não foi compreendido em 2006 tornou-se cult nos anos seguintes e começou a encontrar seu público. Através de relançamentos para Wii, PS3 e as versões HD para as plataformas modernas, uma legião de fãs finalmente abraçou a loba Amaterasu.
Mais do que um resgate do esquecimento, o jogo foi redescoberto sob outro olhar. Um olhar menos apressado, mais disposto a absorver o que ele realmente tinha a oferecer. A narrativa, antes vista como lenta, passou a ser compreendida como deliberada. O ritmo contemplativo se transformou em identidade. E aquilo que parecia “diferente demais” passou a ser visto como coragem criativa.
E o que parecia um sonho impossível para os fãs finalmente se materializou no final de 2024: durante o The Game Awards, a Capcom confirmou oficialmente que uma sequência direta de Okami está em desenvolvimento. O anúncio trouxe um peso emocional gigantesco, especialmente com o retorno de Hideki Kamiya na direção, agora liderando seu novo estúdio, o Clovers Inc. (em parceria com a M-TWO e a Machine Head Works).
Embora os detalhes ainda sejam escassos, sabemos que o jogo está sendo construído na poderosa RE Engine para capturar a estética Sumi-e com uma fidelidade técnica sem precedentes.
Para Kamiya, que recentemente celebrou os 20 anos da franquia reforçando que está colocando "sangue, suor e lágrimas" no projeto, esta não é apenas uma continuação; é o cumprimento de uma promessa de décadas para uma comunidade que nunca deixou a chama da loba Amaterasu se apagar.
Vinte anos depois, Okami permanece como um lembrete de que a indústria de games é, acima de tudo, uma forma de arte.
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