Entrevista: O jogo que começou como animação desenhada à mão: Mac Reynolds conta como Last Flag ganhou vida
CEO e cofundador da Night Street Games, Mac Reynolds fala sobre a alma do estúdio e a conexão com o Brasil
Alguns projetos de videogames você consegue rastrear até uma planilha de viabilidade, enquanto outros projetos você rastreia até uma série de animações literalmente desenhadas à mão, junto com algumas músicas criadas por alguém que simplesmente precisava contar uma história. Last Flag é claramente o segundo tipo.
O shooter 5v5 da Night Street Games, estúdio fundado pelos irmãos Mac e Dan Reynolds, chegou ao PC em 14 de abril carregando uma identidade que poucos jogos do gênero têm: personagens com história própria, uma trilha sonora dos anos 1970 construída com instrumentos reais, e uma proposta que coloca o caos divertido acima da competitividade tradicional. Tudo isso nasceu de um universo que Dan criou antes mesmo de existir um jogo.
O Game On conversou com Mac Reynolds, CEO e cofundador da Night Street Games, sobre as escolhas criativas por trás de Last Flag, o processo de ouvir a comunidade durante o desenvolvimento e o carinho genuíno que o estúdio tem pelo Brasil. A conversa revela um estúdio que sabe exatamente o que quer fazer e tem clareza sobre o porquê.
Game On - O estúdio foi fundado pelos irmãos Reynolds, que vêm do mundo da música. Como essa origem influenciou as decisões criativas do Last Flag, seja na trilha sonora, no design dos personagens ou na identidade visual do jogo?
Mac Reynolds - Nunca tivemos a intenção de fazer um jogo baseado em música, mas no fim isso acabou sendo uma parte inevitável do nosso DNA. Normalmente, as pessoas não associam jogos de tiro a uma boa trilha sonora, e para nós isso é uma oportunidade perdida, considerando o poder da música em gerar emoção e conexão. Dan colaborou com o produtor indicado ao Grammy JT Daly, Dave Lowmiller, e até mesmo com nossos dubladores em alguns momentos para criar uma trilha sonora surpreendentemente rica, e acho que isso ajuda muito os jogadores a mergulharem no mundo maluco dos anos 1970 de Last Flag.
A música conecta de forma muito importante a identidade visual, a história e os personagens do jogo. Last Flag é um game show criado pelo magnata da mídia Victor Fex, e há algo de sinistro e um pouco sobrenatural em tudo o que acontece dentro e ao redor do programa. Quando você ouve o tema da Fex TV na sala de espera no início de cada partida ou a música de busca da bandeira enquanto procura seu esconderijo, a sensação é diferente da gerada em outros shooters. Além disso, todos os personagens são exagerados e têm identidades próprias: a música é essencial para ajudar o público a se conectar com eles.
Game On - Last Flag se passa num reality show de capture the flag. De onde veio essa ideia de embalar um jogo de tiro competitivo dentro de um formato de entretenimento televisivo?
Mac Reynolds - A história ganhou vida primeiro por meio de uma série de animações desenhadas à mão e músicas criadas pelo Dan. Com o tempo, esse mundo foi expandido para incluir todos os competidores e suas histórias, além de vários segredos que os jogadores podem descobrir ao explorar o jogo. Mas o núcleo da narrativa foi uma das primeiras coisas que o Dan criou e se manteve praticamente intacto ao longo dos anos.
Game On - O gênero de shooter sempre foi historicamente associado à competitividade intensa. Como a Night Street Games trabalhou para garantir que Last Flag fosse uma experiência genuinamente relaxante e divertida sem perder o que torna esse tipo de jogo interessante?
Mac Reynolds - Antes de mais nada, por ser fiel à sua inspiração, que é brincar de pega-bandeira ao ar livre quando criança. Isso faz com que o jogo seja mais um esconde-esconde do que um shooter tradicional, o que por si só já cria uma experiência caótica e divertida. A liberdade de definir seu próprio campo de batalha não só torna cada partida diferente, como também permite várias formas de contribuir para a vitória. Você pode não ser bom de tiro, mas pode ser excelente em encontrar bandeiras, se infiltrar furtivamente, farmar Cashbots ou capturar torres de radar vazias. Sempre existirá o desejo competitivo de vencer, mas esperamos que haja diversão e acessibilidade suficientes para que até perder seja divertido.
Game On - Desde a revelação, o estúdio optou por colher feedback contínuo dos jogadores em vez de períodos beta tradicionais. O que essa abordagem mudou concretamente no jogo? Teve algum elemento que os jogadores salvaram ou descartaram que surpreendeu vocês?
Mac Reynolds - São muitas para listar aqui, mas o feedback dos jogadores foi absolutamente essencial no nosso processo de desenvolvimento. Claro, houve ajustes de balanceamento e coisas esperadas, mas também fizemos mudanças enormes por causa disso, como remover o sistema de resistência, com exceção de quando se está carregando a bandeira, ou adicionar regeneração passiva de vida.
Game On - Os personagens de Last Flag têm habilidades bastante distintas entre si. Como foi o processo de criar esse elenco e garantir que cada um tivesse uma identidade própria sem quebrar o equilíbrio do jogo?
Mac Reynolds - Temos a vantagem de não sermos um shooter tradicional em que todos avançam por um corredor ou disputam o mesmo ponto. É uma guerra assimétrica em um mapa grande, onde atirar bem não garante vitória. Isso significa que nossos personagens precisam ser úteis em diversas situações: esconder, encontrar, defender pontos, escoltar objetivos e muito mais. Assim, conseguimos focar em personagens que atendem a diferentes estilos de jogo, em vez de encaixá-los em funções rígidas. Alguns serão mais eficazes em certos contextos, mas todos podem contribuir em todas as fases da partida. Essa liberdade nos dá mais margem para balanceamento do que em jogos mais lineares.
Game On - Mac e Dan Reynolds têm uma conexão familiar com o Brasil. Isso influenciou o jogo de alguma forma, seja em elementos de design, personagens ou na forma como a comunidade brasileira foi considerada durante o desenvolvimento?
Mac Reynolds - Nossos playtesters brasileiros foram uma voz extremamente apaixonada na comunidade. Sem dúvida, ajudaram a moldar o jogo no que ele é hoje. Dan e eu compartilhamos um carinho pelo Brasil tanto por causa do nosso pai, que já morou lá, quanto pelas experiências de turnê no país. Foi muito legal poder incluir uma personagem brasileira no jogo, dublada em português do Brasil, independentemente de onde você esteja jogando, por uma desenvolvedora brasileira do nosso estúdio.
Game On - O que vocês esperam que os jogadores sintam nos primeiros minutos dentro do jogo, e o que vem por aí depois do lançamento?
Mac Reynolds - Espero que eles sintam imediatamente o amor e a alma que nossa equipe colocou no jogo. Da música às animações e designs únicos de cada personagem, conseguimos criar algo fiel à nossa visão, sem compromissos. Quero que sintam a adrenalina de encontrar a bandeira inimiga e levá-la de volta furtivamente, ou de invadir a base adversária e recuperar sua bandeira no último segundo. A longo prazo, esperamos que encontrem uma comunidade acolhedora e uma equipe dedicada. Temos muitos novos personagens, mapas e modos em desenvolvimento e queremos continuar surpreendendo os jogadores com conteúdos que façam o investimento de tempo e dinheiro valer muito a pena.
Conclusão
Poucas respostas numa entrevista revelam tanto sobre um estúdio quanto a de Mac sobre o Brasil. Não é o tipo de coisa que aparece num press release corporativo: é a lembrança do pai que morou no país, da desenvolvedora brasileira que dublou o personagem na própria língua, dos playtesters que gritaram mais alto e ajudaram a moldar o jogo. É o tipo de detalhe que transforma um shooter indie em algo que as pessoas sentem vontade de apoiar.
Last Flag está disponível agora para PC via Steam e Epic Games Store, com 20% de desconto até 21 de abril. Versões para PS5 e Xbox Series X|S chegam no próximo inverno.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.