Chronicles of Mystara: Quando Dungeons & Dragons reinou nos fliperamas
Com Tower of Doom e Shadow Over Mystara, a Capcom transportou as aventuras fantásticas do RPG de mesa para a jogabilidade frenética dos arca
Muito antes de virar um fenômeno global com a série Stranger Things e as lives do Critical Role na Twitch, Dungeons & Dragons já era uma influência poderosa entre os desenvolvedores de jogos eletrônicos - tanto que não só inspirou praticamente todos os RPGs digitais mas também teve sua cota de jogos eletrônicos oficiais desde a década de 1980. E se hoje o maior RPG do mundo tem no premiado Baldur’s Gate 3 seu maior representante entre os videogames, em meados dos anos 90, os jogos que apresentaram D&D para uma geração de jogadores estavam onde ninguém esperava: nos barulhentos salões dos fliperamas.
Você jogou Dungeons & Dragons: Tower of Doom e Shadow Over Mystara? Esses dois games foram desenvolvidos pela Capcom após o estúdio japonês levar elementos de D&D para o jogo de pancadaria The King of Dragons. Mas enquanto aquele arcade se inspirava bastante no RPG de mesa norte-americano, Tower of Doom era um produto oficial e licenciado, que usava cenários, personagens e criaturas vindas diretamente das páginas dos livros de regras publicados pela TSR.
Para garantir a fidelidade do primeiro jogo dessa parceria entre Capcom e TSR, um dos produtores da Capcom nos EUA, Alex Jimenez, pegou o projeto e adaptou para uma campanha de Dungeons & Dragons que ele jogava com seus amigos. As anotações de Jimenez e seus jogadores foram enviadas de volta para o Japão, e usadas pelos desenvolvedores do game para adaptar e ajustar as missões e encontros. O resultado foi uma das adaptações mais memoráveis do RPG de mesa para os videogames.
Conheça - ou relembre - Dungeons & Dragons: Tower of Doom no vídeo abaixo:
Tower of Doom usa elementos do chamado “Basic D&D”, a caixa básica e simplificada de Dungeons & Dragons que era distribuída pela TSR, com quatro classes de personagem: Guerreiro, Clérigo, Anão e Elfo. Sim, anão e elfo eram classes e não raças como nas edições seguintes. O game traz várias magias e monstros famosos de D&D e se passa no mundo de Mystara, um cenário oficial do RPG que inclusive foi lançado aqui no Brasil, no suplemento Karameikos: Terra de Aventuras, quando a Abril Jovem distribuiu Advanced Dungeons & Dragons por aqui, no primeiro “booom!” do RPG de mesa no país.
Lançado em 1994, Dungeons & Dragons: Tower of Doom foi um sucesso e mostrou que os frequentadores dos arcades tinham interesse em jogos mais complexos, com múltiplas rotas alternativas para avançar e jogabilidade mais intrincada do que o clássico avançar para a frente e socar todo mundo que aparece, como era regra nos jogos de beat ‘n ups, gênero que dominava os fliperamas desde o final dos anos 1980.
O sucesso foi o bastante para a Capcom encomendar uma continuação, Shadow Over Mystara, que chegou aos arcades em 1996 e é até hoje, um jogo excelente. Confira no vídeo abaixo e mate saudades desse clássico do fliperama:
Em Shadow Over Mystara, a Capcom optou por expandir e melhorar tudo o que tinha de bom em Tower of Doom, adotando as classes de personagem de Advanced Dungeons & Dragons. Assim, eram seis personagens diferentes para escolher, cada um com seu próprio estilo de jogo, magias, armaduras e evoluções. Cada personagem tinha um conjunto de sprites alternativo, como uma ‘segunda skin’, o que permitia ter dois heróis da mesma classe no grupo que comportava até quatro jogadores. Inclusive, o mago e o clérigo tinham algumas magias diferentes, dependendo da skin escolhida.
Outra novidade eram os golpes especiais, executados com combinações de comandos e movimentos, bem ao estilo de Street Fighter II, que já reinava nos arcades quando Shadow Over Mystara foi lançado.
A arte do jogo ganhou uma baita evolução, tanto pelo domínio que as placas de arcade da Capcom tinham na hora de entregar animação em pixel art, quanto pelo traço da artista Kinu Nishimura, que conseguiu encontrar um meio termo entre o visual ocidental típico de D&D e o traço ao estilo anime que estava se consolidando nos jogos da produtora japonesa naquela época. Shadow Over Mystara foi um dos últimos jogos de pancadaria 2D lançados pela Capcom nos fliperamas, seguido apenas por Battle Circuit.
Tanto Tower of Doom quanto Shadow Over Mystara ficaram quase restritos aos fliperamas. Os games saíram numa coletânea no Sega Saturn em 1997, a Dungeons & Dragons Collection, que só foi lançada no Japão. O console não teve uma vida muito longa no ocidente, infelizmente. Levariam muitos anos para essa dobradinha de sucesso voltar aos consoles e computadores domésticos, na coletânea Dungeons & Dragons: Chronicles of Mystara, lançada para PC, PlayStation 3 e Xbox 360 em 2013.
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