'Janela tremia', diz ex-São Paulo após rescindir com clube ucraniano por causa da guerra
Brasileiro, com filho pequeno, conta que passou noites ouvindo explosões e mísseis de dentro do quarto
O meia Talles Costa, formado nas categorias de base do São Paulo, deixou o Brasil em 2023, rumo a Ucrânia. Com sua esposa grávida, a decisão foi difícil, mas promessas de estrutura convenceram.
A cidade Zhytomyr, em que jogava pelo clube Polissya, não era o ponto central da guerra, mas sendo 140km da capital Kiev era possível escutar os acontecimentos.
"Teve um período na cidade que a gente começava a ouvir explosões. Como a capital fica a uma hora e meia daqui, passam drones, shahed, mísseis balísticos aqui em cima, sabe? Escutava o barulho. Já atacaram uma usina de eletricidade a um quilômetro daqui. Estava tomando café no clube e escutei, do nada minha esposa liga falando que explodiu ali do lado e tal. Aquele nervosismo. O clube adiou o treino e falou para as famílias que quisessem podiam ir para o clube porque era mais seguro. Ficamos três dias no clube até tudo se acalmar", contou o jogador ao ge.
Com mais experiência, o time tinha bunker e alertas para avisar os jogadores. "O bunker do clube, eu diria que é o vestiário, na verdade, porque ele fica embaixo. É bem estruturado. Lembro de uma vez que eles mandaram mensagem no grupo do nosso do time, falando: não ignorem os alertas dessa noite. Eles nunca tinham enviado uma mensagem dessa. Falei: vai acontecer alguma coisa. E era a época que a Rússia estava atacando forte. Fui deitar já com separado uma bolsa, passaporte. Tocou a sirene, desci para o bunker do clube."
Com um filho de dois anos, Talles viu que o que prometeram para ele não estava sendo cumprido, o que deixava a família com medo. "Passaram muita segurança pra gente. Eu vi a estrutura do clube. Sempre deixei claro essa questão familiar, da minha esposa grávida. Foi muito difícil para a gente, porque viemos com uma expectativa de que seria exatamente como foi combinado, só que não foi. Foi combinado que eu teria todo o suporte necessário aqui para que ela ganhasse o meu filho aqui. O clube tem uma estrutura muito boa, mas eles não tinham ainda toda essa experiência de como tratar os estrangeiros na parte extracampo."
Cansado de noites mal dormidas e o receio diário, o meia decidiu deixar o time. As conversas foram longas, cerca de duas semanas, mas quando o clube liberou o jogador a janela de transferências já havia encerrado. Agora, Talles precisa esperar até o meio do ano, próxima janela, para acertar com outro clube.
"Primeiramente, quero um país que não tenha guerra. Isso daí, certeza. As janelas estão fechadas, não concordei com a forma que aconteceu aqui no clube. Penso em voltar para o Brasil, para a minha família, e manter os trabalhos que eu venho fazendo individualmente, me preparando. E esperando ver qual vai ser esse meu próximo passo."
O mais importante para Talles agora é ficar perto da família, recuperar-se dos aflitos na Ucrânia e treinar enquanto não consegue outro clube.
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