Dorival Júnior e o tempo do futebol: um "cronos" que todos fingem entender
Em três anos, técnico experimenta a overdose da máxima de Otto Glória e faz pensar sobre a dinâmica do futebol no Brasil
A trajetória recente de Dorival Júnior reflete a volatilidade extrema do futebol brasileiro. Em um curto intervalo de três anos, o técnico passou por glórias e demissões no São Paulo, Seleção Brasileira e Corinthians, evidenciando como a exigência por resultados imediatos atropela processos de trabalho. Essa constante instabilidade, impulsionada pelo imediatismo de dirigentes e torcida, impede a maturação dos projetos esportivos e submete os profissionais a uma desgastante montanha-russa emocional.
Os acontecimentos no futebol se sucedem em tal velocidade que o tempo parece ter outra dimensão. Penso nesse furor temporal do universo da bola, em especial no Brasil, e a degradação que ele causa na mentalidade coletiva ao observar o caso de Dorival Júnior. Mesmo em um ofício tão volátil quanto o de treinador de futebol, o que ele viveu recentemente não parece caber no chamado cronos (khronos) da mitologia grega, o deus do tempo cronológico.
Há pouco mais de três anos, em 24 de setembro de 2024, Dorival levou o São Paulo ao título inédito da Copa do Brasil. De lá para cá, em 36 meses, viveu venturas e desventuras em série. Em janeiro de 2024, seduzido por proposta da CBF, deixou o clube do Morumbi para comandar a Seleção Brasileira no ano anterior à Copa do Mundo. Em sua mensagem de despedida, ao citar sonho e desafio, escreveu: "Peço que todos entendam".
Compreensão é artigo raro no futebol, meu caro!
O "cronos do futebol", de linguagem e linearidade peculiares, não tem compreensão. Em março de 2025, após 16 jogos, Dorival tombou sem realizar o sonho de nove em cada dez treinadores do país (generalizar é sempre impreciso). O Mundial não passou de miragem. No fim do mês seguinte, assumiu outro gigante paulista, o Corinthians, onde terminou o ano prestigiado ao conquistar a Copa do Brasil pela quarta vez, igualando Felipão como o técnico mais vencedor do torneio. No início de 2026, faturou a Supercopa do Brasil ao derrotar o poderoso Flamengo. Mas, apenas 64 dias depois, perdeu o emprego após ficar nove partidas sem vencer. O ócio durou pouco. Em maio, o São Paulo anunciou o retorno do técnico de 64 anos. Ufa!
Com mais de três décadas de carreira, Dorival vem experimentando em overdose a máxima de Otto Glória (1917 - 1986), segundo a qual os treinadores vão de bestas a bestiais subitamente, de acordo com os resultados. Não é difícil especular sobre os efeitos psíquicos de uma vida profissional tão agitada, em que èxtases e decepções se revezam tão rapidamente. Com pouco mais de quatro meses de sua terceira passagem pelo São Paulo, Dorival tem mostrado cada vez mais autoimolação nas entrevistas. É como se não precisasse edulcorar mais nada diante do acúmulo de vivências intensas. Quando a equipe acumulou dez jogos sem vencer no Campeonato Brasileliro, assumiu diversas vezes a responsabilidade, dizendo estar em débito com a torcida, sem apontar as inúmeras dificuldades que clube e contexto impõem, de salários atrasados e limitações de elenco.
Roteiro vivido por Dorival faz refletir até em ambiente que normalizou as demissões
A falta de estabilidade no cargo faz parte do ecossistema do futebol brasileiro. A ponto de um caso como o da longevidade de Abel Ferreira, há quase seis anos no comando do Palmeiras, não ter paralelo na elite nas últimas duas décadas. Ainda assim, a trajetória recente de Dorival Júnior desperta uma reflexão especial. Como pode um ambiente assim dar alguma medida da qualidade de um treinador? Mesmo que ele tenha carreira extensa e com conquistas nada banais. A falta de convicção dos dirigentes, que facilmente cedem ao populismo para resguardar a própria pele, e a resistência já cultural de conviver com os altos e baixos de resultados sem considerar a demissão como resposta, impedem noções mais claras de competências e maturação de trabalho.
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