MotoGP: Paolo Simoncelli critica tratamento dado à Moto2 e Moto3: “Estão se tornando invisíveis”
O dono da Sic58 critica a perda de espaço e visibilidade da Moto2 e Moto3 e alerta para os impactos na história do motociclismo
Após o GP de Aragão, Paolo Simoncelli, fundador e proprietário da equipe de Moto3, Sic58, comentou sobre as mudanças no tratamento com as categorias “de base” no mundial de motovelocidade.
Anteriormente, Moto2 e Moto3 eram consideradas categorias mundiais e quem as conquistava levava o título de campeão mundial. Porém, após a Liberty Media adquirir os direitos do mundial de motovelocidade, a situação mudou e apenas os títulos da categoria rainha passaram a ser considerados mundiais.
O italiano, que fundou a equipe em homenagem ao seu falecido filho, Marco Simoncelli, campeão nas categorias de 125cc e 250cc, refletiu em seu blog sobre o impacto das alterações no paddock, afirmando que a redução da visibilidade a essas categorias podem diminuir a história do esporte como um todo.
“A14, 02h45. Estamos voltando de Aragão, os outros no carro estão cochilando enquanto eu continuo dirigindo, cercado pelas luzes da cidade e pelos meus pensamentos…”
“A pergunta é a mesma há algum tempo: por que as pessoas continuam tentando, de todas as maneiras possíveis, arruinar um espetáculo tão puro e simples? Desmembrá-lo e contar apenas metade da história, como se tivessem que vender às pessoas apenas metade do que realmente acontece. Não consigo entender.”
“Talvez seja porque sou de outra época, um velho baby boomer, um daqueles que ainda acreditam, ou melhor… ainda se emocionam ao pensar nas antigas lendas. Em personalidades como Nieto, Pons, Biaggi… que fizeram a história deste esporte e ainda são a sua espinha dorsal hoje.”
Simoncelli realça a importância de categorias como Moto2 e Moto3 no caminho para a MotoGP:
“Hoje, quando penso em como queremos ensinar este esporte às crianças, fazendo-as acreditar que o MotoGP é a única coisa que realmente importa, isso me faz sorrir.”
“Sem dúvida, um título de campeão mundial conquistado na categoria principal tem um valor diferente e maior do que um conquistado nas categorias 250 ou 125. Mas, se começarmos a desvalorizar esses títulos, esses pilotos, essas categorias, o que realmente restará da história deste esporte?”
Paolo também destacou a emoção presente e a importância de saber televisioná-las, criticando a gestão da transmissão da etapa por não focar no mais impressionante: a disputa.
"Primeiro, você tira espaço das categorias menores, depois tira valor dos seus campeões... se continuar tirando, você corre o risco de perder peças importantes da história."
“Neste fim de semana, as corridas de Moto2 e Moto3 foram, mais uma vez, incrivelmente emocionantes. Corridas de verdade, com disputas acirradas e pilotos arriscando tudo até a última curva.”
“E, no entanto, o que fez o diretor de TV (da Moto3)? Mostrou apenas os quatro primeiros colocados, mesmo quando nada acontecia na frente. Enquanto isso, os seis ou sete pilotos a apenas três segundos de distância travavam batalhas épicas.”
O italiano ressaltou o tratamento inferior que as categorias vêm recebendo e, consequentemente, a invisibilidade que podem ter tanto do público, quanto de investidores.
“Parece que estão tentando esconder a parte mais emocionante dessas categorias. Moto2 e Moto3 estão se tornando cada vez mais invisíveis. Menos atenção, menos espaço nas redes sociais, menos narrativa… Como algo que deveria ser deixado de lado.”
"Talvez um pouco mais de apoio financeiro fosse suficiente para permitir que as equipes de Moto2 e Moto3 crescessem e alcançassem o nível da MotoGP. Porque, se realmente queremos um bom espetáculo, todos devem ter as melhores condições possíveis para que ele aconteça."
Paolo ressaltou que o risco está presente nas três categorias, além de comentar que a programação do final de semana não inclui apenas a classe rainha.
“Às vezes nos esquecemos de uma coisa: são categorias inferiores, sim, mas isso não significa que corram menos riscos na pista.
"Esses caras arriscam tudo, com motos velozes, muitas vezes com pouca margem para erro, e com o desejo, a fome e até um pouco de imprudência que, nessa idade, te levam além dos limites."
Não é surpresa a vontade da Liberty em aproximar o espetáculo da MotoGP ao da Fórmula 1. Porém, antes das mudanças é necessário entender o tipo de público que acompanha a motovelocidade, sendo ele diferente dos fãs de F1. Simoncelli também destacou essa questão:
"Eu me pergunto como podemos sequer pensar em alcançar os números da Fórmula 1, mostrando ao público apenas uma corrida de MotoGP de 40 minutos. As pessoas não vêm a eventos apenas para assistir à MotoGP."
"Eles vêm PELO MOTOCICLISMO, por tudo o que acontece durante um fim de semana de corrida. Pelos pilotos, pelas categorias, pelas histórias, pelas batalhas que muitas vezes não estão na primeira parte da classificação, mas que são exatamente o que faz as pessoas se apaixonarem por este esporte."
O dono da Sic58 criticou a diferença de tratamento no paddock, destacando o afastamento das demais categorias e comparando a situação com a separação de classes no Titanic.
"No entanto, continuamos avançando rumo a uma reformulação do paddock onde, repetidamente, as categorias Moto2 e Moto3 ficam isoladas do restante do paddock, como vítimas da peste. Daqui a pouco teremos banheiros separados. Como a primeira e a terceira classe do Titanic. Só esperamos que alguém se lembre que, no fim, no Titanic, todos afundaram."
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