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O lado obscuro dos barra bravas com a política na Argentina

Organizada do River Plate pode estar ligada ao ataque ao ônibus do Boca Juniors no dia da decisão da Libertadores que acabou adiada

27 nov 2018
10h45
atualizado às 11h26
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A Justiça investiga a ligação entre a barra brava do River Plate e o ataque que o ônibus do Boca Juniors sofreu ao chegar no Monumental de Núñez, fato que desencadeou a suspensão da partida de volta da final da Libertadores. A investigação foi confirmada pelo Secretário de Segurança da Cidade de Buenos Aires, Marcelo D'Alessandro. Na sexta-feira passada, a polícia fez duas intervenções em casas ligadas à barra do River, onde apreendeu uma grande quantidade de dinheiro que pode vir da revenda de ingressos e 250 entradas que ainda estavam para ser vendidas.

JAVIER GONZALEZ TOLEDO / AFP
JAVIER GONZALEZ TOLEDO / AFP
Foto: LANCE!

Os barra bravas se tornaram um poder desafiador na Argentina. Conduzem parte do grande espetáculo do futebol sul-americano, mas por trás de suas canções, bandeiras e tambores, há aspectos ocultos como violência, territorialidade e apoio político em atos brutais. A pressão que exercem sobre os clube também é esmagadora, pedem dinheiro e ingressos para revender em troca de proteção e trabalhos ilegais.

Outra fonte de renda para os grupos é a venda de drogas, de tours ao estádio e uniformes oficiais. Ser barra brava se tornou praticamente um emprego. Alguns especialistas acreditam que isso é um reflexo de problemas comuns no país, como o desemprego, a corrupção ou a impunidade, mas também o crescimento do futebol como um dos principais fenômenos comerciais e populares.

Em 2017, Cristian Alvarez, líder da barra do Independiente, foi detido ao extorquir o atual treinador Ariel Holan. Antes, porém, conseguiu a saída de outro técnico, Antonio Mohamed, e até mesmo do presidente Javier Cantero, que iniciou uma luta contra os barras e não obteve sucesso. Hoje, o clube é dirigido pelo sindicalista Hugo Moyano, considerado por muitos "um barra do lado de fora".

"Quando um dirigente decide dar um basta, sempre acabava sendo expulso pelo sistema", disse Mariano Bergés, chefe da organização Salvemos al Futbol.

Torcedores do River atacaram ônibus do Boca perto do Estádio Monumental de Núñez (Frame: Reprodução/internet)
Torcedores do River atacaram ônibus do Boca perto do Estádio Monumental de Núñez (Frame: Reprodução/internet)
Foto: LANCE!

Interferência política

Em resposta à crise e devido a inúmeros confrontos entre barras rivais, desde 2013 o governo e a Associação Argentina de Futebol (AFA) tentam resolver o problema com medidas como a proibição do público visitante. No entanto, o fato continua a ser um problema no país. Alberto García, membro fundador da FAVIFA (Família das Vítimas da Violência no Futebol), acredita que a cumplicidade da polícia existe onde zonas são frequentemente liberadas, como no local do incidente envolvendo o ônibus do Boca Juniors.

Além dos clubes e da milícia, os grupos estão diretamente envolvidos com líderes políticos. O conluio com políticos se revelam durante eventos de campanha, quando os "capos" recebem dinheiro em troca de participação.

Em 2014, o diário "El Confidencial", informou sobre as relações dos barras com Cristina Fernández de Kirchner. A ex-presidenta seria responsável por dar um conjunto de radicais diretrizes para uma série de ações do governo: colocação de banners em seu nome e ataque aos grupos opositores, em troca da permissividade policial.

No livro "Barra brava para todos", Juan Manuel Lugones, diretor da Agência para Prevenção da Violência, entidade governamental da província de Buenos Aires, conta que quando trabalhou no Ministério do Interior, sob o comando de Nestor Kirchner, vários membros dos Borrachos del Tablón, barra do River, ocupavam cargos políticos.

Pablo Pérez, capitão do Boca, ficou ferido após ataques ao ônibus da equipe nos arredores do Monumental
Pablo Pérez, capitão do Boca, ficou ferido após ataques ao ônibus da equipe nos arredores do Monumental
Foto: Divulgação/Twitter / LANCE!

Barra bravas em Copa do Mundo

A história se inicia em 1978, no Mundial sediado pelo país. A realização da Copa do Mundo estava ameaçada, o governo se reuniu com os barras e pediu para que não houvesse violência nos estádios, para que a imagem do futebol nacional não fosse manchada. Em troca, eles receberiam passe livre em todos os estádios onde o campeonato fosse disputado. O acordo foi selado e é mantido até hoje. Em todo Mundial realizado, o governo argentino envia uma barra brava para apoiar a seleção nacional e banca todos os custos. Na Copa da Russia, a torcida escolhida foi a La Doce, do Boca Juniors.

Em 1982, no Mundial da Espanha, começou o chamado "silêncio operativo" com a participação de várias barras e do presidente da AFA, Julio Humberto Grondona. Embora alguns hinchas permanecessem fiéis à ideologia peronista, a grande maioria estava alienada pela repressão ilegal que a ditadura havia iniciado em 1976.

A Argentina jogaria como uma das seleções mais prestigiadas, tendo Maradona como uma das estrelas. O risco para a ditadura era que em cada jogo da seleção houvesse manifestações de exilados denunciando a situação do país e pedindo o retorno à democracia. Os barras seriam enviados para dissuadir os manifestantes pacifistas ou anti-ditaduras com total repressão.

Porém, no mesmo ano, a Argentina iniciou a reconquista das Ilha Malvinas, o que gerou guerra contra a Inglaterra e impediu a viagem. "Tudo estava pronto, tivemos até nossos passaportes sem ter que ir ao Departamento Central de Polícia, mas por causa da guerra não poderíamos viajar", reconheceu na revista Huella de San Martín, Alberto Apollonio, um dos líderes da barra do Chacarita.

Torcedores do River Plate entram em confronto com policiais da tropa de choque após adiamento do jogo contra o Boca Juniors
24/11/2018
REUTERS/Alberto Raggio
Torcedores do River Plate entram em confronto com policiais da tropa de choque após adiamento do jogo contra o Boca Juniors 24/11/2018 REUTERS/Alberto Raggio
Foto: Reuters

Já em 1986, na Copa do México, Carlos Bilardo reconheceu ter investido e apoiado a ida das barras ao campeonato. O treinador considerou como fundamental o apoio da torcida. Além dele, a barra do Boca recebeu aval do presidente do clube, Julio Alegre. Eles não imaginavam o que viria pela frente. Uma das cenas que marcou o torneio é uma bandeira da Inglaterra sendo queimada atrás do gol de Pumpido, goleiro da Argentina.

Os barras armaram uma emboscada contra os hooligans ingleses, que perderam bandeiras, equipamentos e muitos foram hospitalizados. Foi o primeiro confronto com a Inglaterra após a Guerra das Malvinas, e os grupos viveram como se fosse a segunda parte daquela batalha, assim como atualmente, usando o futebol como reação à violencia.

Na Copa da África, em 2010, 37 representantes dos barras foram deportados devido a distúrbios nos dois primeiros jogos da seleção argentina. Além disso, outros trinta pertencentes ao grupo viajaram no mesmo avião que Julio Grondona, presidente da AFA. Quatro anos antes, o presidente do River Plate, José María Aguilar, designou vários membros da barra Los Borrachos del Tablón como supostos funcionários do clube, o que permitiu que eles lavassem o dinheiro que recebiam.

Hoje, a história recebeu mais um capítulo. O que era para ser o maior evento do futebol sul-americano, se tornou um palco de revanche para uma barra brava denunciada. A segurança pública perdeu o controle e o máximo que fazem nesses caso é punir o clube com partidas de portão fechado.

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