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'Me tornei ídolo mais pela palestra do que pelos títulos', diz Zé Roberto

Ex-jogador afirma que identificação com o Palmeiras surgiu em preleção e lamenta fase da seleção brasileira

11 jan 2019
04h41
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O incansável Zé Roberto pensa em futebol o dia todo. Aos 44 anos, o agora assessor técnico da diretoria do Palmeiras concilia nas últimas semanas o trabalho no clube com a montagem do memorial particular sobre a carreira e os preparativos para no domingo participar de um jogo em sua homenagem. Em campo no Allianz Parque estará uma equipe formada pelos amigos do ex-jogador diante de um time de ídolos do Palmeiras.

Zé Roberto recebeu o Estado em sua casa para uma entrevista exclusiva em que lamentou a atuação da seleção na Copa do Mundo, defendeu Gabriel Jesus e se disse surpreso por ser idolatrado pelos palmeirenses.

Qual sua ansiedade para o jogo festivo de domingo?

Estou ansioso, com certeza. Não é sempre que você consegue reunir em um jogo como esse jogadores que estiveram comigo em outras épocas, além disso receber o carinho do torcedor, que sempre me apoiou, desde a minha chegada. É o clube que escolhi para encerrar a carreira, então para mim é motivo de muita alegria. Além da felicidade, fico ansioso também.

Você sente falta da carreira de jogador de futebol?

No início eu senti falta. A função que exerço no Palmeiras exige estar muito presente. Ajudo na transição da base para o profissional, então preciso ir muito aos jogos. Tive um ano corrido. Estou motivado em fazer o que faço no clube, ajudar a base, ser o elo no vestiário entre diretoria, comissão técnica e jogadores.

Tem sido muito complexo lidar com as categorias de base?

É muito diferente em comparação à minha época. Hoje tem muito mais recursos. Na minha época a Portuguesa teve de me tirar de casa e me colocar em um hotel para eu me alimentar melhor. Infelizmente, no Brasil, os garotos às vezes não se desenvolvem porque têm as coisas muito fáceis. Com 16 anos, se ele não está sendo aproveitado pelo treinador, já fala com o empresário, diz que não está contente, e vai para outro clube. Hoje os empresários estão praticamente dentro do clube e acompanhando muitos desses atletas.

A seleção brasileira é inferior às seleções europeias?

O Brasil já está há alguns anos mais atrás de outras seleções. Por mais que os jogadores da seleção estejam na Europa, o Brasil não conseguiu ter um time que tem cara de campeão. O Brasil está um patamar abaixo da França, Croácia e Espanha. Até mesmo o Tite, que era uma unanimidade, recebeu críticas depois da Copa.

Como o Brasil pode reagir?

O Brasil tem talentos. Agora começa a surgir uma nova safra de jogadores. Tomara que esse grupo seja mantido. Se o Tite conseguir juntar essas peças de uma nova geração, com os jogadores que o Brasil já tem, voltaremos a ser temidos.

Na última Copa o Gabriel Jesus, que foi seu colega de Palmeiras, saiu muito criticado. O que achou disso?

Da forma como fizeram algumas críticas sobre ele eu achei exagerada. Claro que um atacante da seleção não fazer um gol em uma Copa é de se estranhar, mas se você for olhar o lado tático, pelo papel do Gabriel Jesus dentro de campo seria muito difícil ele fazer um gol. Ele tinha que recompor, ajudar na marcação e, quando a seleção saía no contra-ataque, muitas vezes ele chegava tarde ou se cansava no segundo tempo. Se tivesse jogado na posição que estava acostumado, faria uma Copa melhor.

Você jogou por mais de uma década na Alemanha. O que achou do fracasso da seleção deles na Copa?

Não me surpreendeu muito. Por conhecer o futebol alemão e saber de algumas particularidades, imaginava que eles não iam longe. A Alemanha fez uma grande Copa no Brasil, mas depois alguns jogadores se despediram da seleção. Mantiveram jogadores que atuam há muitos anos e não deram muita chance para a renovação. A questão física acabou pesando. A Alemanha está tentando fazer uma renovação. Tem camisa, tradição, e com certeza vai fazer um time forte.

Você imaginou que se tornaria ídolo da torcida do Palmeiras?

Foi uma surpresa. Eu fiz parte de uma transformação do clube. Quando saio na rua, o torcedor do Palmeiras me cumprimenta e nem fala dos títulos, de eu ter sido o capitão na Copa do Brasil, ou da conquista do Brasileiro depois de 22 anos. O que mais comentam comigo é da preleção que fiz antes do nosso primeiro jogo, em 2015. Tem torcedor que me abraça e fala: "Quando você falou com aquela vontade aos companheiros, eu acreditei nas suas palavras". A minha palestra foi mais marcante do que os títulos.

Como jogador revelado pela Portuguesa, o que acha da situação atual do clube?

Tenho muito carinho pelo clube, por ter me projetado lá. A única vez que me procuraram foi para disputar o quadrangular das quatro Portuguesas, em janeiro do ano passado. Foi um momento especial. O que faço no Palmeiras consome muito de mim e meu compromisso hoje é com o Palemiras. Espero que a Portuguesa possa sair desse momento difícil. Tomara que torcedores juntem forças e possam se juntar para tentar ajudar o clube de alguma forma. É uma equipe que sempre revelou grandes jogadores. Ver a Portuguesa nessa situação é triste.

Estadão

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