Bindilatti e Davidson: experiência e superação no bobsled brasileiro nos Jogos de Milão-Cortina 2026
O bobsled brasileiro chega ao maior palco do esporte mundial, os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026, sustentado por dois pilares fundamentais: experiência e resiliência. Edson Bindilatti e Davidson de Souza representam mais do que a busca por resultados - são símbolos de uma modalidade construída com sacrifício, identidade e espírito coletivo.
Luciana Quaresma, especial para a RFI em Milão
Quando a convocação olímpica foi confirmada, Bindilatti sentiu o impacto de quem já percorreu esse caminho diversas vezes. Aos 46 anos, ele vai disputar sua sexta edição de Jogos Olímpicos, um feito raro no esporte brasileiro - ainda mais em uma modalidade de inverno.
"Passa um filme na cabeça. Representar o Brasil é um prazer imenso, e ter essa oportunidade pela sexta vez é algo para poucos", afirma.
Mais do que a longevidade, chama atenção a forma como ele chega a este ciclo olímpico. Em plena alta performance, Bindilatti garante estar na melhor condição da carreira.
"Eu sempre me preparei para os Jogos Olímpicos, mas especificamente para esse, chego melhor do que nos outros. Isso prova que idade é apenas um número."
Liderança dentro e fora do trenó
Hoje, Bindilatti exerce um papel central no time. Ao longo dos anos, acumulou conhecimento técnico e estratégico que transformou sua função: além de atleta, tornou-se mentor das novas gerações.
"Antes, até aprender como mexer no trenó, fazer ajustes, pilotar, era muito mais difícil. Hoje, pela nossa expertise, os atletas aprendem muito mais rápido. Eu consigo ajudar não só na parte física e técnica, mas também na mental", explica.
Essa liderança se reflete na formação do futuro da equipe. Um dos exemplos é Gustavo Ferreira, jovem atleta convocado para acompanhar o grupo em Milão-Cortina, já pensando no ciclo olímpico de 2030.
"A ideia é ele sentir o peso de um Jogos Olímpicos agora, para chegar muito mais maduro no próximo ciclo."
Davidson: a batalha interior e a identidade brasileira
Do outro lado do trenó, Davidson de Souza , conhecido como Boka, chega a mais uma Olimpíada com a bagagem de quem conhece o bobsled em seus limites físicos, mentais e emocionais. São 12 anos dedicados à modalidade, marcados por transições, quedas e reconstruções.
No imaginário do atleta, a cena da largada se repete como um ritual: o corpo em tensão máxima, a explosão muscular antes da descida. "Nada está acabado", resume.
Vindo do atletismo, Davidson faz parte da geração que ajudou a construir o bobsled brasileiro a partir da migração de atletas de esportes individuais para uma modalidade coletiva, que exige precisão absoluta e confiança mútua.
"O bobsled me fez crescer muito como pessoa. Conviver com o time, treinar, viajar e viver juntos ensina coisas que vão além do esporte", afirma.
Um acidente, um retorno e a vaga olímpica
A classificação para Milão-Cortina carrega um peso especial para Davidson. Um ano antes da convocação, ele sofreu um grave acidente, no qual fraturou o fêmur e rompeu quatro músculos da perna. A lesão quase encerrou sua trajetória no esporte.
O retorno exigiu resiliência diária, física e mental. "Foi uma trajetória gigantesca até chegar aqui."
Mesmo com passaporte canadense, Davidson não abre mão da própria identidade. "Eu sou brasileiro e vou morrer brasileiro. Representar o Brasil é uma honra imensa."
Velocidade, risco e controle mental
No bobsled, as descidas podem chegar a 150 km/h. Quedas e acidentes fazem parte da modalidade, mas não interferem no foco da equipe.
"O nível mental que a gente tem hoje é muito alto. Nada nos tira do foco", garante Davidson.
Treinos e competições em St. Moritz, na Suíça, consolidaram a confiança do grupo para enfrentar qualquer cenário em Cortina d'Ampezzo.
Para Bindilatti, o suporte familiar é a base que sustenta a carreira. Casado e pai de duas crianças - uma filha de 7 anos e um filho de 10 -, ele admite que a distância pesa, mas é compensada pela parceria e pela tecnologia.
"O que me move é o amor e o suporte da minha família. Isso me permite fazer o que me propus da melhor forma possível."
Pensando no legado, ele também idealizou um centro de treinamento de bobsled e skeleton no Brasil, com foco no alto rendimento e no impacto social. O projeto chegou a iniciar obras em São Caetano, mas hoje aguarda recursos para ser concluído.
"É uma forma de devolver tudo o que o esporte me deu, formando novos atletas e dando oportunidades."
Fora das pistas, cultura e música
O bobsled também moldou a identidade de Davidson fora da pista. Artista e compositor, ele é o autor do hino do bobsled brasileiro, criado a partir das vivências com o time. A música segue presente na preparação dos atletas até hoje.
"Saber que isso motiva alguém a se dedicar um pouco mais é sensacional", diz ele.
Às vésperas de Milão-Cortina 2026, Edson Bindilatti e Davidson de Souza representam gerações, histórias e trajetórias distintas, unidas por um mesmo propósito: levar o Brasil ao gelo com dignidade, competitividade e identidade.
Entre experiência e superação, liderança e pertencimento, o bobsled brasileiro chega à Olimpíada sustentado por atletas que transformaram um esporte improvável em projeto de vida - e em símbolo de resiliência olímpica.