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Guga quer fazer Avaí campeão do mundo
Sábado, 05 Maio de 2001, 23h41
Atualizada: Sábado, 05 Maio de 2001, 23h43

Florianópolis - O brasileiro Gustavo Kuerten ainda não sabe se vai disputar o torneio de Wimbledon. Segundo ele, é uma competição que "dá o mesmo prazer como há alguns anos".

Em entrevista para o Diário Catarinense, Guga falou sobre as contusões, namoros, e um plano para o futuro: fazer o Avaí, seu time de coração, campeão do mundo.

Diário Catarinense - Qual a verdadeira extensão da tua lesão no púbis?

Guga Kuerten - Não é algo extremamente delicado, mas também não é uma contratura que vai ficar dois ou três dias e eu volto a jogar e não vai me incomodar mais. Se deve ao fato de eu estar jogando bastante, de não ter tempo para me recuperar. O próprio movimento, a maneira que eu jogo, faz com que eu sinta mais esse tipo de lesão nas costas e na virilha. Quando estou jogando, a rotação da minha cintura é maior do que a dos demais jogadores. O meu estilo de jogo causa esse problema. Não posso deixar de jogar para não sentir dor, então, é uma coisa que eu tenho que estar sempre cuidando, com exercícios e fisioterapia.

Acho que até Roland Garros provavelmente eu volte a sentir dor durante alguns dias. Normalmente eu teria que parar um período um pouco maior, de duas semanas, no mínimo, para me recuperar da lesão. Mas, se parar uma semana, como fiz, e voltar, não vou comprometer a minha situação física. Só que, dali para frente vou ter que parar um tempo maior. Quem sabe depois de Roland Garros seja a melhor data para eu me recuperar, não totalmente, mas me deixar mais estável para poder trabalhar sem sentir dor.

DC - Seria o caso de não disputar Wimbledon?

Guga - Eu acho que seria a melhor data. Mesmo porque já não é mais um torneio especial para mim. Não é um campeonato que me faz sentir aquele prazer que eu tinha há alguns anos. A novidade de Wimbledon, para ver como é que é, um Grand Slam que antes eu assistia na televisão, Boris Becker, Stefan Edberg, enfim. Hoje em dia vou lá, é um torneio na grama, onde saio de uma temporada de saibro super cansativa, normalmente com vários jogos e tenho uma semana para descansar e começar a jogar na grama, onde a transição muito rápida de quadra faz o cara pegar no tranco. Me causa mais danos ao meu corpo, porque eu tenho que correr de outro modo, jogar diferente. Eu sinto muito mais se jogar uma semana na grama e sair para disputar outros campeonatos.

Para mim as vezes é difícil, como foi chegar ano passado lá, jogar bem até, mas chegar num ponto em que o meu corpo não agüentou mais e perder para um cara por 7/5, 6/2 e 6/2, um tenista que normalmente, se estivesse bem, não seria esse resultado. Então às vezes é meio frustrante, às vezes não faz bem física ou até mentalmente para descansar. Não estou vendo como uma coisa legal, como um objetivo. Não está me dando realmente vontade como eu sinto agora de jogar Roland Garros. Até porque eu me esforço muito mais para jogar na grama num nível bom do que vários caras. Então isso aí pode ser o principal fator para eu não ter essa vontade toda, e depois, porque é só aquele campeonato em toda a temporada que eu participo. Vários tenistas deixam de disputar, por exemplo, em Montecarlo. O Sampras e o Agassi não foram pelo menos a um campeonato. Prefiro deixar passar para poder ter um tempo a mais para mim, para ficar um pouco mais tranqüilo comigo, cuidar da parte física. Depois tem o ano todo. É só um campeonato, vai passar. Em 2000 eu fui até a terceira rodada, não chega a fazer diferença em pontos, não chega a mudar alguma coisa no meu ano.

DC - Bem sucedido, solteiro, bem de grana, talvez o melhor partido do Brasil, como está o assédio feminino?

Guga - Tá na boa, até porque eu tenho uma vida fora de todos os aspectos, não sou um cara que viajo para ficar num lugar só, viajo e fico uma semana em um, depois outra semana em outro. Não tenho muita facilidade para começar uma relação. Estou curtindo mais ficar de bem comigo, porque um namoro te faz pensar em outras coisas, então, a partir do momento em que eu sair com alguém vai ser para realmente me incentivar a produzir mais, para estar mais feliz durante o dia, curtindo mais jogar tênis. Não é impossível que possa acontecer, mas eu dificulto um pouco mais, porque o assédio é muito grande, cheio de meninas em cima.

DC - Mas e a Martina Hings, não tiveste nenhum affair?

Guga - Isso é como eu te falei, são coisas que surgem no ar, mas não chegam a me irritar. É até engraçado algumas vezes. A Hings mesmo eu não chegava nem a dizer bom dia para ela. A gente nunca se vê e quando isto acontece é cada um jogando, meio na loucura. Ainda mais que o Magnus Norman, que estava namorando com ela, é um cara muito grande e forte (risos), se eu me meter com ela, o cara me vendo todo o dia vai me encher de porrada (pausa e mais risos). Esse lado aí eu não grilo, não tenho encanação. Falaram da Williams uma época, da Hings, da Kournikova, mas é uma coisa que não me tira do sério, fico rindo muitas vezes, a raça aí, me enchendo o saco (risos). Eu levo na boa...

DC - Essa vida dura do circuito, longe de casa, como é voltar para Florianópolis? Guga - Quando estou na Ilha, que é onde eu busco encher o tanque, calibrar as minhas energias, convivo o máximo com meus amigos. Isto é muito importante para mim, porque quanto mais longe eu vou, mais eu fico suscetível a algumas situações ruins, como a inveja. Eu passo por alguns momentos perigosos, então aqui eu convivo com amigos de 10, 15 anos, que me deixam mais tranqüilo. Tenho mais confiança nos caras, daí eu fico mais seguro, saio à noite com eles. Quando eu saio da quadra, que desvio a atenção do treino, consigo relaxar, não precisa de nada muito específico, é pegar onda, me reunir na casa de alguém como a gente está aqui hoje, bater um papo, trocar uma idéia, fazer um sonzinho.

DC - O que tu carregas na raqueteira?

Guga - Quando viajo tenho bastante coisas daqui de Floripa, da raça. Na minha raqueteira não tem nada de especial, porque eu viajo com pouca raquete, três, quatro no máximo, as vezes eu ando com duas, a raça não acredita (risos), mas são as minhas da sorte. Depois tem discos do Dazaranha, Iriê, Mary Black, porque é uma forma de eu me lembrar de Floripa, onde eu vivo os meus dias legais e onde eu curto a minha vida.

DC - Tu já pensaste em construir uma quadra rápida, para treinar sossegado?

Guga - Eu até penso em construir algumas quadras, porque está cada vez mais complicado poder fazer um treino quando eu precisar de duas, três horas, quando vou precisar de mais concentração. Então viria bem uma quadra, não só rápida, com acesso para que eu possa jogar sem precisar sair. Hoje, de repente, encontrar um lugar que eu possa construir algumas quadras para mim, para bater uma bola, como hoje eu tenho uma piscina em casa, equipamentos de musculação, para fazer exercícios, é fundamental. Foi a melhor coisa que eu fiz, eu posso ir ali a qualquer dia, em qualquer horário, é algo que eu preciso, porque eu não tenho data, não tenho dia, feriado, então quanto mais tranqüilidade melhor.

DC - Avaiano rachado, já pensou em investir no clube do coração? Guga - Hoje eu só invisto na minha carreira. Na verdade só penso no tênis. Acho que no futuro vou querer fazer outras coisas, ter um bar, um restaurante. Mais à frente, porque só me preocupo com a minha carreira. Depois vou ter tempo para eu fazer o Avaí campeão do mundo, com uma diretoria boa.

DC - Como é que tu vês o tênis no país, tem alguém para destacar?

Guga - A gente tem sempre jogadores talentosos, mas não vi nenhuma mudança. O Brasil está na primeira divisão da Davis, mas não vejo um trabalho voltado para outros atletas, a Federação Catarinense está com alguma idéias novas, o pessoal está começando um trabalho. Tem uns jogadores que podem estourar como eu, o Flávio Saretta, um cara que joga bem para caramba, tem ainda o Fininho (Fernando Meligeni) e o Simão (Alexandre Simoni), mas todos em função de trabalhos individuais.

DC - E o visual, vai manter o cabelo curto?

Guga - Estou tentando encontrar um cabelo bonito (pausa para uma gargalhada), mas vai demorar uns 25 anos. Meu cabelo ruim aqui tá predominando. Mas eu tenho mais a ver com o jeito desajeitado, mais desencanado, com o cabelo despenteado...

Para você, quais são os maiores tenistas?

Considero o Sampras e o Agassi fora do padrão normal. Não dá para comparar qualquer jogador com eles. Top mundiais como Sampras, Agassi, ou no passado Connors e Borg, são especiais, porque foram além, são gênios. Aos 17 anos já estavam ganhando um Grand Slam, então se eles quiserem jogar até os 35 anos, vão ter essa possibilidade. Por um ponto eles são privilegiados de poderem jogar um maior número de torneios na superfície que mais gostam, nas quadras rápidas.

O Pete Sampras e o Andre Agassi não são caras para a gente tirar muita base e comparar com outros. Digamos então que em um ou dois anos eles vão estar satisfeitos, não vão mais querer competir. Daí o ranking vai ficar mais equilibrado. Acho que está cheio de jogadores que estão praticamente no mesmo nível hoje em dia. Tem no mínimo uns 15 jogadores que podem brigar pelo primeiro lugar.

Agência RBS


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