'Transição energética não pode beneficiar só a quem pode comprar carro elétrico', diz CEO da Motiva
Miguel Setas defende que a mobilidade, a energia e praticamente toda a economia podem migrar para a descarbonização; mas, para isso, será preciso uma verdadeira coalizão nacional
Miguel Setas, um português que há 18 anos vive no Brasil e se diz orgulhoso de viver em um país que tem a Amazônia — que precisa ficar em pé — em seu território, cita até Eduardo Galeano, escritor uruguaio já falecido, para ilustrar como a utopia de se viver em um planeta saudável é importante em tempos de crise climática. Os sinais, segundo o CEO da Motiva (ex-CCR), estão todos sobre a mesa, até para os mais céticos.
Além de falar sobre o futuro da mobilidade brasileira, em um cenário em que o poder público está com vários planos para ser ofertado, em parceria, para o setor privado, Setas tem uma visão estratégica definida sobre como a mobilidade, a energia e praticamente toda a economia nacional podem migrar para a descarbonização. Nada será feito, defende o executivo, sem uma coalizão verdadeira entre os setores da sociedade nacional.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Para vocês que atuam em mobilidade e infraestrutura, como trilhos, aeroportos e rodovias, como a sustentabilidade está presente no dia a dia da Motiva? É uma prioridade?
Sem dúvida. Hoje mesmo, antes de vir aqui, tivemos uma reunião de nosso Comitê de Sustentabilidade, revisando toda a nossa estratégia em cinco dimensões. Primeiro, redução da pegada ambiental, focando nas emissões dos transportes e no consumo de energia elétrica, para mitigar o risco climático. Segundo, o impacto social, pois atendemos milhões de pessoas por dia nos metrôs, rodovias e aeroportos, e temos o compromisso de contribuir para uma sociedade mais equilibrada, com investimentos sociais planejados de cerca de R$ 750 milhões até 2035. Terceiro, a cadeia de valor: queremos que nossos fornecedores e parceiros adotem práticas sustentáveis. Quarto, valorização das pessoas, focando em diversidade e representatividade, especialmente de grupos menos representados em cargos de liderança. E quinto, segurança e integridade: transportar pessoas em segurança e manter uma cultura ética sólida são prioridades fundamentais.
Como a Motiva está agindo na descarbonização?
Um exemplo simples é a eletrificação da frota: nossos guinchos e veículos de manutenção já estão gradualmente se tornando elétricos, especialmente com as novas concessões em São Paulo e Paraná. Ainda não há veículos pesados elétricos no mercado, mas estamos começando com equipamentos leves e compramos 11 guinchos elétricos para uma das concessões novas. Outro ponto é a energia elétrica consumida nos transportes: antecipamos para 2024 o uso de 100% de energia renovável. Temos um acordo com a Neoenergia, da qual somos sócios em uma usina eólica no Piauí, que abastece 60% do nosso consumo. Além disso, fomos pioneiros na compra de créditos de carbono na B3, comprando 67 mil toneladas vinculadas a projetos de gestão florestal na Mata Atlântica, em parceria com o grupo Votorantim.
Falando da cadeia produtiva, como engajar os fornecedores e parceiros nessa jornada da sustentabilidade?
Isso é fundamental, pois grande parte das emissões está no chamado escopo 3 — a cadeia de valor. É preciso que todos adotem frotas com energia renovável, reciclagem e práticas sustentáveis. Um exemplo prático é a reutilização do asfalto: hoje já reutilizamos 25-30% do asfalto usado, o que reduz significativamente emissões, e temos projetos para aumentar isso próximo de 100%.
Com a COP-30 acontecendo no Brasil, como você percebe o engajamento do setor privado, especialmente na infraestrutura?
Tivemos uma experiência marcante: fomos chamados pelo presidente da COP, embaixador André Correia do Lago, para apresentar propostas do setor de transportes como um todo. Juntamos 50 entidades em uma coalizão envolvendo rodoviário, ferroviário, aeroportuário, hidroviário e mobilidade urbana, para construir recomendações para o governo. Esse trabalho resultou num relatório com três alavancas principais para a descarbonização: mudança do mix modal (reduzir o rodoviário de 55% para cerca de 35-40% da carga, aumentando ferroviário e hidroviário), aumento do uso de biocombustíveis, dobrando sua participação, e a eletrificação progressiva das frotas, especialmente nos modais onde é viável.
Dentro do negócio de vocês, há planos para a adaptação já sendo trilhados?
Estamos trabalhando na elaboração de cerca de 5 mil planos de resiliência climática, que contemplam medidas específicas para cada quilômetro de rodovias, trilhos e aeroportos. Isso inclui reforço de taludes, elevação de trechos sujeitos a alagamentos, plantio de vegetação para evitar erosão e outras ações para garantir a integridade da infraestrutura e a segurança dos usuários.
Por quê o transporte pesado de longa distância ainda é um desafio para eletrificação?
Isso se deve à tecnologia: as baterias ainda não permitem autonomia para longas distâncias, e os veículos elétricos pesados não estão disponíveis comercialmente. Por isso, há a alternativa do chamado Power to X, o uso de hidrogênio verde, por exemplo, para descarbonizar o transporte pesado. O Brasil tem potencial enorme para isso, pois nossa matriz energética é 90-95% renovável, o que garante que o hidrogênio seja verdadeiramente verde e competitivo.
E sobre o consumo local versus exportação do hidrogênio verde?
O consumo interno é crucial. O hidrogênio pode ser armazenado em forma de amônia, usada na agricultura, um mercado interno forte no Brasil. A exportação de hidrogênio ainda não é competitiva, devido ao custo de transporte e segurança. O ideal é exportar produtos finais com baixa pegada de carbono, não o hidrogênio puro.
Considerando as três dimensões, matriz elétrica, mobilidade e biocombustíveis, o quanto elas podem contribuir para a redução das emissões?
Elas podem representar cerca de 70% da redução das emissões até 2050. Se não agirmos, as emissões que hoje são cerca de 260 milhões de toneladas de CO2 vão ultrapassar 400 milhões até lá, por causa do crescimento econômico e da demanda por transporte. Essas medidas mitigam esse aumento, mas haverá um residual, que deverá ser compensado por tecnologias futuras ou créditos de carbono.
E o impacto econômico dessas ações?
É muito positivo. Um estudo do Boston Consulting Group estima que o Brasil pode atrair de US$ 2 trilhõe a US$ 3 trilhões em investimentos verdes até 2050, em quatro áreas: agricultura sustentável, indústria verde, mercado de carbono e energia renovável. Só em transporte, a estimativa é de cerca de R$ 600 bilhões em investimentos.
Por que essa digitalização dos pagamentos é tão importante para a segurança?
A maior parte dos acidentes envolvendo pessoas ocorre justamente nas praças de pedágio, quando colaboradores precisam sair das cabines para ajudar motoristas, e aí podem ser atropelados por veículos que passam rapidamente. Também acontecem acidentes simples, como torções de tornozelo ao sair da cabine. Ao eliminar a necessidade de parada para pagamento manual, aumentamos a fluidez do tráfego e diminuímos os riscos para funcionários e usuários. Além disso, um trânsito mais fluido reduz a emissão de gases, pois evitar parar e arrancar diminui o consumo de combustível e, consequentemente, a emissão de CO2.
Voltando para o tema da sustentabilidade, o que você, como cidadão, espera da COP-30?
Espero que a COP-30 seja um marco para a preservação da floresta amazônica, da biodiversidade e das populações indígenas que vivem nela. O Brasil tem um papel único no mundo, abrigando a maior floresta tropical do planeta e a maior reserva de água doce. Além disso, o país possui uma matriz energética muito limpa, com cerca de 90% de energia renovável. Essa COP precisa enfatizar a importância desses ativos naturais. Vimos nos últimos anos diversos fenômenos extremos: incêndios devastadores no Pantanal, apagões em São Paulo, enchentes severas no metrô e quedas de árvores em áreas urbanas. Essas situações são sinais claros de que o clima está mudando e que precisamos investir urgentemente em resiliência para proteger a população e a infraestrutura. Há um enorme déficit de recursos para investimentos verdes, estimado em trilhões de dólares globalmente. A COP precisa ser um momento para mobilizar capital sustentável em larga escala, garantindo que haja fundos suficientes para essas transformações necessárias.
Qual a novidade que essa COP pode gerar?
Esta COP tende a ser mais prática e orientada para a ação. Muitos já estão cansados de declarações de intenção sem resultados concretos. O Brasil, como país anfitrião, tem a oportunidade de liderar a agenda global e mostrar seu compromisso real com a sustentabilidade, tanto por seus ativos naturais quanto pela matriz energética limpa que possui. Gosto muito da metáfora do Eduardo Galeano, que diz que o horizonte é como a utopia. Quanto mais nos aproximamos, mais ele se afasta. Essa ideia é inspiradora porque nos motiva a continuar avançando e buscando melhorias, mesmo que o caminho seja longo e desafiador. A utopia nos faz caminhar rumo a um futuro melhor.
Como o sr. enxerga o papel do cidadão nesse processo de transformação?
O cidadão é parte fundamental. É ele que escolhe o meio de transporte, é ele que pressiona por políticas públicas, é ele que consome energia. Se a gente conseguir engajar a sociedade, tudo fica mais fácil. E isso passa pela educação, pela informação, pela comunicação. O cidadão precisa entender que cada escolha faz diferença. Que a transição energética não é um assunto distante. É algo que está no nosso dia a dia.