Qual é o perfil dos conselheiros que recebem acima de meio milhão no Brasil
Pesquisa da Exec mostra que quase 20% dos conselheiros de administração no País tem remuneração anual superior a R$ 541 mil por conselho; parte chega a participar de mais de 4 colegiados, multiplicando os ganhos
Os conselhos de administração já pagam, anualmente, mais de R$ 541 mil a 17,6% de seus integrantes no Brasil. Desses profissionais, considerados como de alta remuneração, 38% participam de mais de quatro colegiados, o que acaba por elevar esses ganhos, que passam da casa dos milhões. Já para os conselheiros consultivos, os salários mais altos são ainda minoria. Somente 3,1% deles recebem acima de meio milhão anual por conselho.
Os dados são da consultoria de recursos humanos e governança Exec, compilados para o Estadão. A pesquisa mapeou informações de 352 respondentes, entre março e abril de 2026. O público-alvo foi de conselheiros de administração e conselheiros consultivos de empresas de diferentes portes e setores, abrangendo organizações de capital aberto e fechado no território nacional.
Apesar das cifras robustas, os conselheiros que estão recebendo uma alta remuneração em 2026 apresentam características específicas que indicam que há um perfil mais visado pelo mercado. Oito em cada 10 desses profissionais possuem cursos relacionados à função, e há destaque para expertise em finanças. A maior parte, 75%, já foi presidente de conselhos anteriormente.
Experiência prévia no alto escalão executivo também aparece como um forte pré-requisito para ocupar cadeiras de maior remuneração. Segundo a pesquisa, 93,4% desses profissionais já foram ou são CEOs de empresas. Quase 60% têm mais de 10 anos de experiência, e metade recebeu indicação para a vaga sem passar por um processo seletivo via headhunter (profissional de recursos humanos especializado em busca ativa de candidatos).
No quesito diversidade, a variação de perfis é pouca. Os homens são maioria entre os ocupantes dos postos, estando em 80% deles. A maioria é da geração dos baby boomers, estando na faixa etária entre 55 e 75 anos. Somente 6,7% se identifica como preto ou pardo e 0,4% é pessoa com deficiência (PCD).
A diretora executiva de soluções para conselhos da Exec, Thais Nather, explica que a alta remuneração dos conselheiros no recorte vem de uma somatória de fatores que convergem para o perfil encontrado pela pesquisa.
"A questão técnica, sem dúvidas, conta muito. Também conta a experiência naquele setor específico ou naquele momento da empresa, com base no seu plano estratégico. Trazer alguém que já vivenciou (a estratégia planejada) é muito valorizado."
Ela também destaca habilidades comportamentais. "Os conselheiros que são melhor remunerados têm capacidade de escuta muito apurada, se colocam no lugar do acionista e têm habilidade política. São perfis que naturalmente chegam a posições que remuneram mais, porque se tornam pessoas de confiança."
De modo geral, mesmo nos perfis de menor salário, a remuneração ainda se mostra atrativa para os conselheiros de administração. No total dos entrevistados, 50,1% declara receber remuneração média de até R$ 240 mil por ano em cada conselho que participa. Nos consultivos, 52% dos conselheiros declaram receber em média até R$ 120 mil ao ano por conselho.
O perfil de profissionalização, no geral, é alto. Conforme o estudo, um montante de 92% possui algum curso de governança, sendo que 24% dos respondentes realizou certificação no tema fora do Brasil e 60% possui mais de dois cursos.
Segundo Nather, a busca por certificação, que antes ficava no plano das intenções, tem sido cada vez mais buscada, principalmente com abertura para escolas internacionais. "Temos visto, de fato, uma evolução na formação dos conselhos, (e o estudo) conseguiu confirmar a questão da certificação e a preocupação com estudos em governança."
Pontos de atenção
Apesar dos pontos vistos como positivos, o mapeamento traz alguns focos de atenção para o cenário dos conselhos no País. Um deles é ausência de profissionalização nos processos seletivos e a baixa diversidade, que a executiva vê com preocupação. Se, por um lado, 82% dos entrevistados afirma ter conselheiros independentes onde atuam, por outro a maior parte desses conselheiros foi selecionada via networking, aumentando as chances de predominância de um mesmo perfil.
Nader pontua também que é importante que seja revista a forma de seleção para garantir a independência do conselheiro tanto em relação à liberdade para atuar no colegiado, quanto para evitar a dependência exclusiva da remuneração vinda do conselho. A medida é uma maneira de inibir o excesso de consenso.
"Conselhos formados puramente por networking dos próprios conselheiros acabam sendo espaços onde existe excesso de consenso, e excesso de consenso gera risco decisório. (Um conselho) precisa de pessoas que impulsionem a estratégia da companhia, que tenham a capacidade não só técnica, mas comportamental para compor aquele colegiado. Então, é preciso uma seleção estruturada, do mesmo modo que se contrata um c-level (executivo de alto escalão)."
Outro ponto é o perigo do chamado overboarding (uma pessoa só ocupando várias cadeiras de conselhos em diferentes empresas), que pode resultar em prejuízos na dedicação do profissional ao cargo. Segundo o estudo, somente um terço dos entrevistados atua em um ou dois conselhos, a maior parte atua em mais. "Há exceções, mas essa não é uma prática adequada", aconselha Nather.
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