O tempo de mitigar passou, agora é se adaptar, diz presidente do Conselho da Marsh McLennan
Na próxima década, o risco climático estará no auge, relata Eugenio Pascoal, chairman da Marsh McLennan no Brasil
O cenário complexo coloca vários riscos atrelados às tomadas de decisão das empresas, desde os geopolíticos, passando pelos cibernéticos, chegando aos climáticos. Na próxima década, os riscos atrelados às mudanças climáticas globais são os que mais preocupam os setores privado, estatal e a sociedade, diz Eugenio Pascoal, presidente do Conselho da Marsh McLennan no Brasil, grupo que atua em seguros e consultoria de riscos.
Em entrevista para a série Era do Clima — Rumo à COP-30, ele afirma que o tempo de mitigar algo já ficou para trás. O jeito agora é partir para ações de adaptação.
Segundo ele, no Brasil, áreas urbanas como Porto Alegre, Curitiba e Rio de Janeiro estarão muito na berlinda, assim como o agronegócio.
Leia a seguir trechos da entrevista, disponível na íntegra em vídeo.
Como os pilares da Marsh McLennan se relacionam com o tema da sustentabilidade?
Temos quatro unidades de negócios bastante distintas, focadas em riscos, seguros, estratégia e pessoas. Na parte de riscos e seguros, temos a Marsh, que é uma corretora de seguros e também um grupo especializado em gerenciamento de riscos, junto com a Guy Carpenter, focada apenas no mercado de resseguro. Na parte de consultoria, temos a Mercer, focada em talentos, remuneração e pessoas, e a Oliver Wyman, voltada para a estratégia. Temos 85 mil colegas no mundo inteiro, distribuídos em 130 países, com um faturamento global na ordem de US$ 25 bilhões.
Os riscos climáticos são a bola da vez, hoje?
A Marsh McLennan sempre foi muito focada em risco climático. Participamos há 20 anos do Global Risk Report, o relatório de riscos globais elaborado todo ano em Davos para o World Economic Forum (Fórum Econômico Mundial), contribuindo com estudos sobre riscos que influenciam negócios, sociedade e desenvolvimento. Nos últimos 10 anos, os riscos climáticos ganharam protagonismo importante, e fizemos uma estrutura muito focada nisso. Entre os riscos identificados pelo relatório do World Economic Forum, a principal preocupação, nos próximos dois anos, é com a desinformação geral, seguida pelos riscos climáticos.
Ao termos uma visão para dez anos, segundo esse relatório, que foi construído por meio de pesquisas com a sociedade civil, órgãos governamentais, empresas e também o meio político e organizacional das nações, os quatro principais riscos têm a ver com a questão climática e com a perda de biodiversidade, grandes catástrofes e por aí vai. Há uma preocupação muito grande com isso e uma dedicação muito forte da empresa sobre o panorama que foi traçado. A COP-30 será uma oportunidade de mostrar para toda a sociedade, globalmente, com foco também no Brasil, quais são as ações que se devem tomar para o enfrentamento desse cenário. Já passamos do tempo de mitigar; agora é adaptação, através de gerenciamento de riscos e conhecimento profundo deles.
E o que vocês estão desenvolvendo para enfrentar esse processo?
A Mercer tem um foco grande nos riscos a que as pessoas estão sujeitas, incluindo efeitos de poluição, partículas que influenciam doenças respiratórias e sobrecarga do sistema de saúde, como o SUS. Também estudamos a transformação dos hábitos de trabalho para reduzir absenteísmo e custos de saúde. Enquanto isso, a Guy Carpenter foca na proteção das seguradoras, preenchendo gaps de proteção climática. Lançamos um programa probabilístico que mapeia condições atmosféricas e geográficas do Brasil, ajudando seguradoras a criar produtos adequados. Também temos um produto que ajuda empresas a monitorar toda a cadeia de produção, identificando riscos de fornecedores e pontos de distribuição, permitindo desviar obstáculos e otimizar armazenagem. E, por meio da Oliver Wyman, estruturamos proteção cambial para atrair investimentos na recuperação de florestas degradadas, além de outras ações de apoio à Febraban.
Agricultura e cidades entram no hall de preocupação de vocês?
Temos seguros paramétricos, cobrindo excesso de chuva ou seca, e atuamos em projetos como o Blue Marble, protegendo pequenos produtores na América Latina, com suporte de investidores e da Marsh McLennan; o Brasil ainda não está incluso. Na questão urbana, trabalhamos com o ICLEI em adaptação climática para cidades da América Latina, estudando soluções como purificação do ar, praças verdes e captação de água.
No início da nossa conversa, você mencionou riscos geopolíticos e terrorismo. São temas que estão no radar de vocês para o caso do Brasil?
Por enquanto, o Brasil está um pouco livre desses ataques, mas grandes eventos, como o G-20, exigem atenção e inteligência.
Há um mapeamento mais preciso para o Brasil sobre os riscos ligados ao clima?
Se olharmos para o Brasil, é verdade que não somos muito afeitos a seguros. Por quê? Vivemos num país não catastrófico. E essa mudança de página, agora para um país catastrófico, com todos os riscos inerentes que aparecem, precisa ser considerada. Há estudos baseados em modelos nossos que mostram impactos severíssimos se a temperatura média subir 3 graus. E não estamos longe disso. Serão efeitos muito severos mesmo, em cidades como Porto Alegre, Rio de Janeiro e Curitiba. O estudo aponta essas três cidades com risco de severidade com o incremento de temperatura, em relação ao incremento de chuvas. São mudanças no padrão.
Uma curiosidade! Como vocês geram conhecimento técnico e elaboram as pesquisas dentro da Marsh McLennan?
Temos muitas parcerias com centros de influência, universidades e academia tanto no Brasil quanto globalmente. Temos um banco de dados com 150 anos de evolução de riscos, e usamos inteligência artificial para agilizar estudos.
Focando agora na COP-30, vocês estarão fisicamente presentes em Belém, cidade-sede da reunião?
Vamos com uma delegação de 18 pessoas, 12 delas globais. Apresentaremos o estudo do Eco Investment na Blue Zone e participaremos da Casa do Seguro, discutindo transporte, energia limpa e indústrias, integrando setor público e privado.
E o cidadão Eugênio está otimista com os desdobramentos da COP-30?
Sou muito otimista. Vejo uma grande oportunidade para o Brasil ser protagonista, mostrando energia limpa, biomas e participação do mercado de seguros, financiamento ecológico e proteção de pessoas. Estou extasiado em contribuir para um mundo melhor.