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O que aconteceu com o experimento de Bukele para transformar El Salvador no 'país do bitcoin'

Em 2021, El Salvador se tornou o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin como moeda oficial. Hoje, boa parte do projeto foi abandonada diante da falta de interesse da população e da pressão do FMI.

14 out 2026 - 10h50
(atualizado às 10h54)
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Resumo
O plano de Nayib Bukele para transformar El Salvador no "país do bitcoin" fracassou e foi revertido. Diante da baixa adesão popular, da ineficácia no envio de remessas e de promessas não cumpridas, como a "Bitcoin City", o governo recuou. Sob pressão e exigências do FMI para a liberação de empréstimos, a Assembleia revogou o curso legal da criptomoeda, tornando seu uso facultativo e devolvendo ao dólar o posto de única moeda oficial, além de privatizar a gestão da carteira digital Chivo.
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, prometeu que a adoção do bitcoin traria 'prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira' a El Salvador
O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, prometeu que a adoção do bitcoin traria 'prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira' a El Salvador
Foto: AFP vía Getty Images / BBC News Brasil

"Em El Salvador, estamos começando a criar um país para o futuro, preservando o que nos torna únicos e buscando inspiração nas melhores ideias que já surgiram no mundo ao longo da história. E acredito que o bitcoin possa ser uma delas."

Foi o que disse o presidente Nayib Bukele em uma mensagem gravada e exibida durante a conferência Bitcoin 2021, realizada em março daquele ano, em Miami, na Flórida, nos Estados Unidos, diante de um público entusiasmado com a criptomoeda Bitcoin.

Na ocasião, Bukele anunciou que enviaria à Assembleia Legislativa um projeto de lei para fazer de El Salvador o primeiro país do mundo a adotar o bitcoin.

O anúncio foi recebido com uma salva de palmas pelo público, que via um antigo ideal prestes a se concretizar — e em setembro daquele ano, o país adotou o Bitcoin como moeda de curso legal no país (ao lado do dólar americano).

Cinco anos depois, o dólar voltou a ser a única moeda oficial de El Salvador, a aceitação do bitcoin passou a ser facultativa e a promessa de construir uma cidade futurista, abastecida pela energia geotérmica de um vulcão e dedicada à mineração da criptomoeda, nunca saiu do papel.

Afinal, o que restou do "país do bitcoin", como Bukele batizou El Salvador? O que foi cumprido do que se prometeu? E quem se beneficiou?

O que restou do projeto de transformar El Salvador no "país do bitcoin" cinco anos depois?
O que restou do projeto de transformar El Salvador no "país do bitcoin" cinco anos depois?
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Bitcoin e promessas

O bitcoin é basicamente um arquivo digital que existe online e funciona como uma moeda alternativa. Nisso, ele se diferencia muito de moedas convencionais, como o dólar americano. Ele não é impresso por governos ou bancos tradicionais, mas criado por um processo computacional complexo conhecido como "mining" (mineração).

Todas as moedas e todas as transações feitas com elas ficam registradas na rede de internet - em um espaço conhecido como "blockchain", uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar as transações. Dessa forma, as transações não podem ser rastreadas.

E o bitcoin não tem um "valor inerente": seu preço é determinado pelo quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ela.

A iniciativa de adotar o bitcoin em El Salvador começou em junho de 2021, quando a Assembleia Legislativa, controlada pelo partido do presidente, Novas Ideias, aprovou a lei que tornou a criptomoeda uma moeda oficial do país, ao lado do dólar — que já era a moeda oficial do país havia duas décadas.

A promessa era de que a medida traria "prosperidade, liberdade econômica e inclusão financeira".

O governo afirmava que o bitcoin reduziria os custos do envio de dinheiro por salvadorenhos que vivem no exterior, uma fonte de recursos que representa quase um quarto do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país). Em 2025, chegaram a 26,3% do PIB, segundo dados do Banco Central de Reserva de El Salvador.

A adoção da criptomoeda também facilitaria o acesso de trabalhadores informais sem conta bancária ao sistema financeiro e atrairia investimentos estrangeiros.

Para viabilizar a iniciativa, o governo criou um fundo de US$ 150 milhões (R$ 748 milhões) e ofereceu US$ 30 (R$ 150) a cada cidadão que instalasse a carteira digital Chivo no celular. Também destinou outros US$ 50 milhões (R$ 249 milhões) à instalação de caixas eletrônicos e aos demais custos necessários para colocar o sistema em funcionamento.

O governo de El Salvador destinou US$ 50 milhões (R$ 249 milhões) à instalação de caixas eletrônicos para bitcoin e a outros custos de implementação do projeto
O governo de El Salvador destinou US$ 50 milhões (R$ 249 milhões) à instalação de caixas eletrônicos para bitcoin e a outros custos de implementação do projeto
Foto: AFP vía Getty Images / BBC News Brasil

Nove meses depois, uma das primeiras pesquisas sobre a medida já mostrava o ceticismo dos salvadorenhos em relação ao bitcoin.

Entre os entrevistados pelo Instituto Universitário de Opinião Pública (Iudop), da Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), 71% afirmaram que a adoção da criptomoeda não havia trazido "nenhum benefício para a economia familiar".

O resultado reforçava as conclusões do Escritório Nacional de Pesquisas Econômicas (NBER, na sigla em inglês), uma organização americana privada sem fins lucrativos. Em um relatório publicado em abril de 2022, a entidade constatou que a maioria das pessoas que instalaram a carteira digital Chivo deixou de usá-la depois de gastar o "bônus" oferecido pelo governo.

Bukele, por sua vez, continuou comprando bitcoin com dinheiro público, apesar dos alertas de especialistas sobre os riscos para as finanças do país. A preocupação era com a forte oscilação do preço da criptomoeda, que perdeu mais de 60% de seu valor em 2022.

"Às vezes, faço isso até quando estou no banheiro", escreveu Bukele em resposta às críticas na rede social então chamada Twitter (atual X).

Em janeiro de 2023, a Assembleia Legislativa deu mais um passo no plano de Bukele ao aprovar a inédita e controversa Lei de Emissão de Ativos Digitais, destinada a atrair investimentos estrangeiros.

Para convencer grandes investidores a apostar no projeto de adoção do bitcoin em El Salvador e conceder empréstimos de alto risco ao país, o governo anunciou no Twitter que a nova legislação abria caminho para a emissão dos chamados "títulos vulcão", que, segundo as autoridades, começariam a ser oferecidos em breve.

Era, talvez, a etapa mais ambiciosa do projeto. A proposta previa que El Salvador contraísse dívidas em bitcoin por meio da emissão de títulos no mercado internacional, como fazem os governos para captar recursos, mas, nesse caso, com lastro na criptomoeda.

Metade do dinheiro arrecadado seria usada para comprar mais bitcoin. A outra metade financiaria o início da construção da Bitcoin City (Cidade do Bitcoin, em tradução livre), uma cidade planejada aos pés do vulcão Conchagua, em El Salvador.

Para completar o projeto, a cidade futurista usaria a energia geotérmica do vulcão para abastecer os potentes sistemas de computadores responsáveis pela criação de novos bitcoins, processo conhecido como mineração.

"O plano é simples: enquanto o mundo mergulha na tirania, vamos criar um refúgio de liberdade", afirmou Bukele, em um discurso semelhante ao dos defensores mais fervorosos das criptomoedas.

Esse movimento tem forte presença nos EUA, onde o mercado de criptomoedas ganhou contornos ideológicos, impulsionado por republicanos radicais e anarcocapitalistas. Esses grupos defendem o bitcoin como uma forma de reduzir o poder dos bancos centrais e a intervenção do Estado na economia. Também alimentam a expectativa de que qualquer pessoa possa enriquecer caso o preço da criptomoeda atinja valores exorbitantes.

Mas, afinal, o que saiu do papel entre as tantas promessas feitas para transformar El Salvador no "país do bitcoin"?

Baixa adesão

"Se considerarmos os motivos apresentados por Bukele para adotar o bitcoin, não há dúvida de que o projeto fracassou", afirmou o economista Carlos Acevedo, ex-presidente do Banco Central de Reserva de El Salvador, em entrevista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

"É evidente que o governo esperava que, a esta altura, toda a população estivesse usando bitcoin. A aprovação da lei, a criação do fundo fiduciário, toda a estrutura foi pensada para isso, embora pesquisas anteriores já mostrassem que a população desconfiava muito dessa experiência", explicou Acevedo. "E, nesse sentido, de fato, não deu certo."

Em 2022, quando o entusiasmo com a iniciativa estava no auge, uma pesquisa da CID-Gallup constatou que apenas 1 em cada 5 empresas aceitava bitcoin e que somente 5% dos pagamentos de impostos eram feitos com a criptomoeda.

Dois anos depois, em 2024, a BBC News Mundo constatou, durante uma visita ao país, que o uso do bitcoin era raro e se concentrava principalmente na região conhecida como Bitcoin Beach (Praia do Bitcoin, em tradução livre), nos arredores da praia de El Zonte.

El Zonte é uma das regiões de El Salvador onde o uso do bitcoin recebeu maior incentivo
El Zonte é uma das regiões de El Salvador onde o uso do bitcoin recebeu maior incentivo
Foto: AFP vía Getty Images / BBC News Brasil

O bitcoin "não teve a adesão que esperávamos", admitiu o próprio Bukele em entrevista à revista Time, publicada em agosto daquele ano.

Uma pesquisa divulgada em janeiro de 2025 pelo Iudop confirmou a baixa adesão: 91,8% dos salvadorenhos disseram não ter usado a criptomoeda no ano anterior. Desse grupo, 76,2% afirmaram nunca ter utilizado bitcoin.

Embora El Salvador tenha registrado um avanço importante no acesso a serviços bancários no ano passado, apenas quatro em cada dez salvadorenhos com mais de 15 anos têm conta bancária, segundo a pesquisa Global Findex 2025, do Banco Mundial.

Remessas e títulos de dívida

A adoção do bitcoin também teve pouco impacto sobre as remessas enviadas por salvadorenhos que vivem no exterior.

Segundo os dados oficiais mais recentes do Banco Central de Reserva de El Salvador, o valor enviado por meio de carteiras digitais de criptomoedas entre janeiro e abril de 2026 cresceu 44,3% em relação ao mesmo período do ano anterior, chegando a US$ 23,1 milhões. Ainda assim, representou apenas 0,7% dos US$ 3,286 bilhões enviados ao país nesse período.

A maior parte do dinheiro enviado por salvadorenhos que vivem no exterior, essencial para o sustento de milhares de famílias no país, continua chegando pelos meios tradicionais.

"O problema é que a proposta partiu de um diagnóstico equivocado", afirmou Frank Muci, pesquisador da Escola de Políticas Públicas da London School of Economics and Political Science (LSE, no Reino Unido), em entrevista à BBC News Mundo.

"O que torna as remessas caras, com taxas elevadas, é, em parte, o fato de que o dinheiro é enviado em espécie nos EUA e os destinatários também querem recebê-lo em espécie", explicou o especialista, que já escreveu diversos trabalhos sobre a adoção do bitcoin em El Salvador.

Muci define o projeto como um grande nothing burger, expressão em inglês usada para descrever algo sem importância ou impacto significativo.

Sobre a suposta contribuição do bitcoin para atrair turistas ao país, como afirmam os defensores da criptomoeda, Muci considera que o efeito não é "significativo do ponto de vista macroeconômico".

"Se você me perguntar o que Bukele fez que realmente está transformando o turismo, eu diria que foi a política de segurança", afirma Muci.

Com sua "guerra contra as gangues", o governo Bukele conseguiu reduzir drasticamente a taxa de homicídios, ao mesmo tempo que transformou El Salvador em um dos países com as maiores taxas de encarceramento do mundo.

A queda acentuada da violência contribuiu para a reeleição de Bukele, em fevereiro de 2024, com uma vitória esmagadora: o presidente recebeu cerca de 90% dos votos.

Ao contrário da política de segurança, a adoção do bitcoin foi "uma medida que rendeu centenas de manchetes, se não milhares, mas que, no fundo, não teve resultado algum", prossegue Muci. "Além de gerar gastos com sua implementação e assustar os mercados, que durante algum tempo penalizaram duramente El Salvador."

"Embora o investimento não tenha dado o retorno esperado pelo governo, sua rentabilidade também não ficou muito distante da que poderia ter sido obtida no mercado se o dinheiro tivesse sido aplicado em outro ativo", afirma o economista Carlos Acevedo
"Embora o investimento não tenha dado o retorno esperado pelo governo, sua rentabilidade também não ficou muito distante da que poderia ter sido obtida no mercado se o dinheiro tivesse sido aplicado em outro ativo", afirma o economista Carlos Acevedo
Foto: Bloomberg vía Getty Images / BBC News Brasil

"Pelo menos é importante destacar que não houve perda de dinheiro", ressalta Acevedo, do Banco Central de Reserva, referindo-se aos bitcoins comprados pelo governo nos últimos anos.

"Embora o investimento não tenha dado o retorno esperado pelo governo, sua rentabilidade também não ficou muito distante da que poderia ter sido obtida no mercado se o dinheiro tivesse sido aplicado em outro ativo."

Até a última quinta-feira (8/10), El Salvador acumulava 7.798,37 bitcoins, avaliados em US$ 636 milhões (R$ 3,17 bilhões), valor que oscila conforme a cotação da criptomoeda, segundo o Escritório Nacional do Bitcoin, que divulga as transações em tempo real em seu site.

Mas os chamados "títulos vulcão" ainda não foram emitidos, e a construção da Bitcoin City também não avançou.

Samson Mow, diretor-executivo da JAN3, empresa de infraestrutura para bitcoin que ajudou a idealizar os "títulos vulcão", lamenta que os planos não tenham saído do papel.

"O lado positivo é que o governo manteve a legislação sobre ativos digitais. Com isso, criamos um setor regulamentado, próspero e sólido, que está crescendo muito rapidamente", afirmou Mow à BBC News Mundo.

Embora reconheça que não conversa com Bukele há muito tempo, Mow acredita que o presidente "ainda confia no bitcoin".

"Mas ele precisa conciliar essa convicção com as exigências de governar um país e com as pressões e condições impostas por uma instituição como o Fundo Monetário Internacional (FMI) para liberar uma grande quantidade de recursos para El Salvador", ressalta.

A pressão do FMI

Em meio às dificuldades econômicas enfrentadas por El Salvador, o governo fechou, em dezembro de 2024, um acordo de financiamento de US$ 1,4 bilhão (R$ 6,98 bilhões) com o Fundo Monetário Internacional (FMI), sob a condição de "reduzir os riscos associados ao bitcoin".

No mês seguinte, sem grande divulgação por parte do governo, a Assembleia Legislativa aprovou mudanças na Lei do Bitcoin.

Com a alteração de seis artigos e a revogação de outros três, a criptomoeda deixou de ter curso legal. Seu uso ficou restrito a transações entre cidadãos e empresas privadas, e a aceitação, antes obrigatória, passou a ser voluntária.

Em setembro, o governo deu mais um passo para abandonar o plano original de transformar El Salvador no "país do bitcoin".

Durante a terceira avaliação do cumprimento das condições do empréstimo, cujo pagamento seria feito em parcelas, o governo transferiu "a participação majoritária e o controle" da carteira digital estatal Chivo para uma "empresa privada".

"A única coisa transferida foram as ações da Chivo, algo que já havia sido oferecido um ano e meio atrás, e não a reserva estratégica de bitcoin", escreveu Bukele na rede social X, depois que vários veículos de comunicação noticiaram a transferência.

"Aproveitem para ler como El Salvador conseguiu um superávit fiscal primário e superou todas as expectativas de crescimento econômico graças à segurança e à confiança dos investidores, além de ter alcançado uma redução significativa da pobreza, favorecida por melhorias na eficiência dos serviços públicos", acrescentou.

Somente na última quinta-feira foi divulgado que a empresa responsável pela operação é a Linguard Labs. Ainda não se sabe, porém, qual participação foi adquirida nem o valor da transação. O Estado salvadorenho continuará como acionista e sócio da empresa.

A parceria "público-privada" prevê o relançamento da carteira digital com novos serviços, entre eles transferências gratuitas de dinheiro dos EUA para determinados usuários, acesso a microcrédito, adiantamentos em dinheiro e pagamentos com diferentes ativos digitais.

O controle acionário da carteira digital Chivo passou para uma empresa privada, mas o governo de El Salvador continua como acionista e sócio
O controle acionário da carteira digital Chivo passou para uma empresa privada, mas o governo de El Salvador continua como acionista e sócio
Foto: Bloomberg vía Getty Images / BBC News Brasil

O FMI também mencionou as compras de bitcoin feitas pelo governo salvadorenho no relatório em que autorizou a liberação de mais US$ 138 milhões (R$ 688 milhões) ao país.

O governo continuou comprando a criptomoeda mesmo depois de assinar o acordo de financiamento, embora a suspensão dessas aquisições fosse uma das condições expressas do empréstimo. As operações constavam no site oficial do Escritório Nacional do Bitcoin, que divulga dados sobre as compras, as vendas e as reservas da criptomoeda.

Em comunicado, no entanto, o FMI afirmou que os bitcoins mais recentes haviam sido adquiridos por meio de "doações privadas, sem uso de recursos públicos", e que o governo salvadorenho havia se comprometido a não fazer novos investimentos.

"Não está prevista a aquisição de mais bitcoins além daqueles provenientes das doações documentadas", concluiu o FMI.

Mas quem fez essas doações? E qual foi o valor doado?

Essas perguntas se somam às dúvidas que cercam o projeto desde o início. Até hoje, não está claro de onde vêm os recursos nem quem fiscaliza sua utilização.

A BBC News Mundo enviou essas perguntas à Presidência de El Salvador, mas não obteve resposta. Também procurou o FMI, que informou não ter nada a acrescentar ao comunicado.

O que restou da experiência?

Embora reconheçam que o acordo com o FMI pôs fim às partes mais ambiciosas do projeto, tanto defensores quanto alguns críticos destacam sua importância simbólica.

"Foi importante para a ideia do 'país do bitcoin', de um mundo em que o bitcoin teria substituído o dinheiro tradicional emitido pelos governos", afirma Muci, da LSE.

Antes de 2021, a possibilidade de um governo adotar o bitcoin não passava de uma hipótese. El Salvador, sob o comando de Bukele, transformou essa ideia em realidade, ainda que apenas por algum tempo, destaca Mow, da JAN3.

"Para o bitcoin, serviu para validar a ideia. Já El Salvador ganhou visibilidade mundial", acrescenta.

Mow admite que esperava que outros países seguissem rapidamente o exemplo salvadorenho, mas afirma que a experiência mostrou que isso é "mais difícil do que parece".

"Mesmo quando um governo concentra muito poder, não consegue obrigar a população a adotar uma moeda", diz Mow, ao comentar as lições deixadas por El Salvador.

"Mesmo quando um governo concentra muito poder, não consegue obrigar a população a adotar uma moeda", diz Mow
"Mesmo quando um governo concentra muito poder, não consegue obrigar a população a adotar uma moeda", diz Mow
Foto: AFP vía Getty Images / BBC News Brasil

"É preciso combinar medidas do governo que criem condições para o livre funcionamento dos mercados e eliminem as barreiras que dificultam a adoção dessa tecnologia com outras iniciativas voltadas à educação", avalia.

"De qualquer forma, não acredito que o bitcoin precise de uma lei que obrigue as pessoas a usá-lo. Estou convencido de que é a melhor forma de dinheiro que a humanidade já conheceu e de que sua adoção acontecerá naturalmente", conclui Mow.

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