Do “InstaZap” à ‘planejação’: especialista dá dicas para transformar hobby em renda extra
Planejamento, teste prático e presença digital estão entre as orientações para quem deseja empreender naquilo que gosta
Transformar um hobby em fonte de renda parece, para muita gente, o cenário ideal: ganhar dinheiro fazendo algo de que gosta. Mas, na prática, paixão sozinha não sustenta um negócio. Antes de investir dinheiro, abrir uma empresa ou abandonar o emprego formal, é preciso entender se existe viabilidade para transformar aquela habilidade em empreendimento.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Segundo o gerente nacional de relacionamento com o cliente do Sebrae, Enio Pinto, o erro mais comum de quem tenta empreender é ignorar justamente o elemento mais importante de qualquer empresa: o cliente.
“Muitos acreditam que o negócio tem muito potencial de sucesso em função do próprio gosto ou consumo. Mas o que ele gosta e consome não importa. O que importa é o que o cliente dele gosta e consome”, afirmou.
O especialista explica que transformar um hobby em renda exige passar por três filtros principais: afinidade, competência e demanda. O primeiro passo é identificar atividades que tragam prazer e satisfação pessoal. Depois, é preciso avaliar se existe habilidade real naquela área e se o empreendedor possui algum diferencial em relação à concorrência.
O terceiro ponto, segundo ele, é a existência de clientes. Ou seja, além de afinidade e habilidade, é necessário que exista procura pelo produto ou serviço oferecido. Para Enio, a combinação desses fatores ajuda o empreendedor a encontrar aquilo que chamou de “vocação empresarial”.
Antes de qualquer investimento maior, a recomendação do Sebrae é transformar a ideia em um plano de negócio. O chamado business plan ajuda o empreendedor a sair “do achismo” e analisar fatores como mercado consumidor, concorrência, fornecedores, custos e potencial de lucro.
“O plano de negócio faz você sair do achismo e chegar a uma constatação da viabilidade do negócio”, disse.
Segundo ele, o planejamento básico envolve três módulos principais. O primeiro é uma avaliação do próprio empreendedor.
“Como 60% dos negócios no Brasil não têm nenhum funcionário, o negócio é você. Se a pessoa possui perfil empreendedor, a chance de sucesso é maior. Primeiro, é necessário avaliar características, formação e experiência”, explicou.
O segundo módulo envolve a análise de três mercados diferentes: fornecedor, concorrente e consumidor.
“Qualquer um desses três mercados pode inviabilizar o negócio. Às vezes, não existe um fornecedor viável ou o custo do frete torna o produto caro demais. Em outros casos, a concorrência já está muito consolidada e dificulta a entrada de novos empreendedores. Mas o problema mais comum é a falta de mercado consumidor. A pessoa quer vender algo pelo qual tem afinidade, mas não existe demanda suficiente para aquilo”, afirmou.
O terceiro módulo é o financeiro, responsável por calcular se a ideia pode realmente se sustentar financeiramente. Nessa etapa, o empreendedor projeta quanto pretende faturar, quais serão os custos da operação e qual investimento inicial será necessário para colocar a empresa de pé.
A análise inclui tanto os gastos fixos, como aluguel, contas e equipamento, quanto o capital de giro necessário para manter o funcionamento do negócio nos primeiros meses. A partir dessa projeção, é possível estimar se a atividade pode gerar lucro e qual tende a ser a “sobra financeira” mensal da empresa.
Mesmo assim, Enio avalia que planejamento sozinho não basta. Segundo ele, o ideal é combinar análise e prática no que chamou de “planejação”: planejamento com ação. A recomendação é começar pequeno, testar o serviço e validar a demanda antes de investir alto.
“Quer abrir um salão? Começa atendendo em casa. Quer montar um restaurante? Faz jantar para as pessoas. O importante é experimentar o negócio primeiro”, afirmou.
Além de testar o interesse do público, essa etapa inicial ajuda o empreendedor a entender melhor o comportamento da concorrência e dos fornecedores. Enio recomenda, por exemplo, visitar concorrentes como cliente oculto para identificar falhas e oportunidades de diferenciação. Conversar com fornecedores também pode trazer informações valiosas sobre o mercado.
Outro ponto que costuma pegar iniciantes de surpresa é a gestão financeira do negócio. Segundo o gerente do Sebrae, muitos empreendedores consideram apenas gastos mais óbvios, como aluguel, água, luz e funcionários, mas esquecem dos impostos. “Quando ele percebe o tamanho da sociedade que o governo é no negócio dele, a coisa complica”, disse.
Na hora de definir preços, o Sebrae recomenda considerar os chamados “três Cs”: custo, concorrência e cliente. Ou seja, o valor cobrado deve cobrir os gastos do negócio, levar em conta o posicionamento diante da concorrência e respeitar o quanto o consumidor está disposto a pagar.
Além da parte financeira, Enio afirma que a presença digital se tornou praticamente obrigatória até mesmo para pequenos negócios. Segundo ele, muitos empreendedores hoje operam no chamado “combo InstaZap”: Instagram para divulgar produtos e WhatsApp para fechar vendas.
Ele também destaca que o consumidor atual busca mais do que apenas um produto ou serviço. A experiência passou a ser parte central do negócio, especialmente entre os mais jovens.
“Você não quer só benefício. Quer experiência. Quer atendimento, praticidade, ambiente, formas de pagamento, conforto”, explicou.
À medida que o negócio cresce, chega também o momento de profissionalizar a operação. Enio afirma que um dos sinais mais claros é quando a renda extra começa a interferir no trabalho principal. Nessa etapa, pode ser necessário contratar funcionários, buscar sócios ou estruturar melhor a gestão.
“Muita gente começa fazendo tudo sozinha. Mas chega uma hora em que ela precisa sair da operação e passar a gerenciar o negócio”, afirmou.
Para ele, transformar um hobby em empresa exige aprendizado constante, mas pode trazer um nível de satisfação difícil de encontrar em outras carreiras.
“Nada traz tanta realização e satisfação pessoal quanto vencer profissionalmente trabalhando em uma área com a qual você realmente se identifica. É aquela situação em que a pessoa quase não consegue diferenciar quando está trabalhando e quando está se divertindo.”
Arquiteta transforma trabalho manual em negócio próprio
A arquiteta Luciana Amarante, de 50 anos, passou décadas tratando o artesanato apenas como um hobby. Desde criança, aprendeu com a avó a costurar, bordar, fazer tricô e crochê, mas nunca acreditou que poderia transformar aquelas habilidades em uma fonte real de renda.
Na adolescência, chegou a esconder o interesse pelo trabalho manual por medo de julgamentos. “Na minha época era coisa de velha. Eu fazia escondido”, contou.
Formada em arquitetura, ela nunca abandonou os trabalhos manuais e diz que sempre gostou de participar ativamente das obras, colocando literalmente a mão na massa. Também produzia almofadas, cortinas, nécessaires e peças para amigos e familiares, além de vender alguns itens pontualmente durante a faculdade. Ainda assim, enxergava aquilo apenas como complemento e acreditava que precisaria estar financeiramente estabilizada antes de transformar o hobby em profissão.
A mudança começou anos depois, quando decidiu fazer um curso de cerâmica em meio a um período de forte estresse profissional. A experiência acabou aproximando ainda mais Luciana do trabalho manual, que ela define como “sua essência”. Ela passou a dar aulas de cerâmica e, aos poucos, voltou a considerar o antigo sonho de abrir uma loja com produtos feitos por ela mesma.
A oportunidade surgiu de forma inesperada durante uma conversa em um salão de beleza. Ao comentar que havia sonhado em abrir uma loja de itens para casa produzidos artesanalmente, ouviu da dona do espaço que um imóvel ao lado havia acabado de vagar.
Luciana decidiu investir no projeto. Fez praticamente toda a obra da loja com as próprias mãos: instalou rodapés, montou móveis, pintou estruturas e preparou o espaço que hoje abriga a marca Lar. Segundo ela, a vontade de fazer tudo pessoalmente também está ligada à dificuldade de depender de outras pessoas. “Eu não gosto de depender dos outros. Então eu vou lá e faço”, disse.
Luciana conta que abriu a loja sem planejamento formal ou experiência prévia no varejo. Segundo ela, a decisão foi tomada “na coragem”, aprendendo o funcionamento do negócio na prática, com ajuda de profissionais próximos e muita tentativa e erro. “Eu fui metendo a cara. Fui errando, fui acertando, ligando para as pessoas e pedindo ajuda”, afirmou.
Apesar disso, ela já tinha contato com o universo empresarial por meio da empresa de construção da família. O investimento inicial da loja veio justamente da renda acumulada ao longo dos anos trabalhando com arquitetura e construção civil, sem participação de investidores externos. “Foi um investimento nosso, do trabalho da arquitetura e da construção. Eu não tive investidor”, contou.
Luciana também buscou auxílio de profissionais próximos, como uma contadora, que ajudou a orientar os primeiros passos da empresa. “Eu liguei para a contadora, pedi ajuda, ela foi me explicando as coisas. Eu não sabia nada”, disse.
Mesmo ainda nos primeiros meses da nova fase profissional, Luciana diz enxergar a loja como a realização de um sonho antigo: viver da própria arte e transformar décadas de trabalho manual em uma fonte de renda. “Eu me preparei todos esses anos para realizar o meu sonho de infância, que era transformar o trabalho manual em algo para mostrar para o mundo”, afirmou.
Ela reconhece que o negócio ainda está no começo e que terá “um bom chão pela frente”, mas acredita que finalmente encontrou um caminho mais alinhado com sua essência criativa.
Outra dificuldade relatada por ela foi aprender a precificar o próprio trabalho, um desafio comum entre pequenos empreendedores do setor artesanal. “Eu nunca soube cobrar. Como é uma coisa fácil para mim, às vezes tenho dificuldade de enxergar valor no que faço”, disse.
Mesmo assim, Luciana afirma que finalmente sente que está vivendo aquilo que sempre quis.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.