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Galípolo: 'Cabe ao BC colocar o juro em patamar restritivo o suficiente para perseguir a meta'

Diretor de Política Monetária do Banco Central afirmou que órgão irá solucionar as dúvidas levantadas pelo mercado e reforçar o compromisso em manter inflação dentro da meta

27 mai 2024 - 20h12
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O diretor de Política Monetária do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, voltou a reforçar no começo da noite desta segunda-feira, 27, o tom "hawkish" (incisivo) que demonstrou na semana retrasada durante reuniões fechadas com investidores em Nova York, conforme apurou o Estadão/Broadcast.

Ao participar da 1ª edição do Market Talks, evento promovido pela Liga de Mercado Financeiro da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), de Minas Gerais, ele disse que a autarquia vai agir contra a desancoragem das expectativas de inflação caso ela prossiga.

Segundo o diretor, cabe ao BC não comentar a meta de inflação, mas correr para cumprir a meta, estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). "Cabe ao BC colocar a taxa de juro em um patamar restritivo o suficiente para perseguir a meta inflacionária", disse a professores e alunos da Unifei.

Ao ser questionado sobre a mudança do forward guidance (orientação), que apontava para um corte de 0,50 ponto porcentual da Selic no Copom de maio, Galípolo disse que já vinha comunicando que a barra era alta para o abandono da orientação.

Gabriel Galípolo é o diretor de política monetária do Banco Central
Gabriel Galípolo é o diretor de política monetária do Banco Central
Foto: FELIPE RAU/ESTADÃO / Estadão

"Era preciso parcimônia. A maior parte do mercado já aguardava a mudança da meta fiscal, não era possível extrair correlação clara de trabalho dinâmico e pressão salarial. Não estava confortável em largar o guidance", disse, parafraseando o presidente do BC, Roberto Campos Neto, que nesta segunda, durante almoço organizado pelo Grupo de Líderes Empresariais (Lide), disse que o tempo vai jogar a favor do BC.

"O BC vai dirimir as dúvidas levantadas, reforçando compromisso com perseguição da meta de inflação", reforçou Galípolo, afirmando que o importante a se registrar é que não há tergiversação no compromisso com a meta de inflação. "A função do BC não é explicar desancoragem, mas sim reagir a ela", disse o diretor.

Fiscal como muleta

Galípolo manteve o seu tom de compromisso com a reancoragem da inflação e a busca pelo centro da meta e disse que não gostaria de passar a ideia de ter a situação fiscal como muleta para não colocar a inflação na meta.

Ele reforçou que a autarquia tem instrumentos para colocar inflação na meta. "Isso pode ser com maior ou menor custo", disse.

Ao ser provocado a comentar sobre a política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Galípolo voltou a mostrar alinhamento com o discurso do presidente da autarquia, Roberto Campos Neto, segundo o qual "não existe uma relação mecânica entre juros dos EUA e os do Brasil". Por fim, disse: "Não temos meta de diferencial de juros, temos é meta de inflação".

Choque no RS

Ele expressou ainda a visão de que o choque de oferta causado pelas enchentes no Rio Grande do Sul é temporário. Não tem, assim, grande influência sobre as decisões de juros da autarquia, que miram a convergência da inflação num horizonte mais distante.

Durante o evento, Galípolo lembrou que o horizonte relevante da política monetária, que inclui o ano de 2025, é posterior ao período ao qual estará limitado o choque na inflação causado pela tragédia gaúcha. "O choque no Rio Grande do Sul tem período específico e diferente do horizonte da política monetária", comentou.

Ele lembrou que parte significativa da safra de arroz já tinha sido colhida antes das enchentes que atingiram o Estado, o que reduz no curto prazo o impacto nos preços.

Em sua fala, Galípolo tocou ainda nas oportunidades que se abrem ao Brasil na transição energética. A matriz com fontes de energia limpa já instaladas convida empresas interessadas em fazer essa transição a um custo mais baixo. Além disso, pontuou, a reforma tributária, ao melhorar o ambiente de negócio, contribui para o Brasil atrair o capital internacional.

Ele ponderou, porém, que a posição privilegiada do Brasil não se expressa ainda em melhora nos investimentos, dada a atração dos fluxos de capital exercida pelos juros mais altos — em paralelo ao bom desempenho da bolsa — nos Estados Unidos.

Segundo ele, o Brasil, que tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, terá um custo bem menor que os demais países para fazer a transição. "O Brasil tem vantagens comparativas e competitivas na transição verde", disse.

Estadão
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